Saúde e Bem-Estar

Rosely Sayão: “Imediatismo tem infantilizado pais e mães”

Amanda Milléo
05/09/2015 15:05
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Psicóloga e consultora em educação, Rosely Sayão discutiu sobre imediatismo, maternidade e criação dos filhos em meados de agosto. Foto: Amanda Milléo / Gazeta do Povo.
“Nossa população adulta é infantilizada”. A frase da psicóloga especialista em educação Rosely Sayão caiu como uma bomba para os espectadores de sua palestra durante um evento sobre imediatismo, em São Paulo, promovido em agosto pela Tylenol. “A criança chega para a mãe e pede algo. Ela se sente pressionada e responde apressada que ‘sim’. Ela não se pergunta ‘por que sim?’, nem mesmo diz ‘não sei’ ou ‘vou pensar’, o que gera uma grande cobrança pessoal. Veja a entrevista:
Como os pais influenciam o filho com seu imediatismo?
A necessidade de ter tudo agora e a dificuldade em lidar com o outro deveriam ser superadas na idade adulta. Mas não tem sido assim. Isso tem gerado uma grande expectativa em adultos e também nas crianças. Um processo educativo leva 20 anos, não são as três vezes que a mãe falou que o filho vai entender, e nem por isso ele está “doente”.
Os pais hoje têm buscado uma perfeição. Por quê?
Sou de uma época em que não se ligava para o pediatra por qualquer coisa, fazíamos o que podíamos. Hoje é comum as mães se sentirem incompetentes na criação de seus filhos. Uma vez me perguntaram qual era a hora certa de tirar a chupeta. Não sei, cada um tem a sua. Não há receita para nada, nem na medicina, nem na educação.
Há uma mudança nesse sentimento de perfeição?
Eu não vejo isso ainda. Começo a perceber algum movimento de ideias, mas que não se transforma em vivência. Vivemos no mundo da diversidade, mas todo mundo parece querer ser igual.
Também há pais que delegam muitas escolhas aos seus filhos.
Isso é um terrorismo. A escolha é algo complexo, cansativo e de alta exigência pessoal, porque ninguém gosta só de um modelo. A criança não pensa que ganhou um presente, mas sim que perdeu todos os outros ao escolher.
Por outro lado cresce a ideia de que a criança deve se adaptar à vida dos pais, sem muitas mudanças.
Acho isso um desrespeito à criança. Antes, sabíamos que iríamos abrir mão de algumas coisas com a maternidade e isso não era um problema. Hoje há tanto mães que tomam posse dos filhos quanto aquelas que às vezes os ignoram. Tirar o bebê de 15 dias de casa para ir ao shopping não é bom para ele. Uma das situações que me incomodam muito é o “mamaço” [evento em que mães levam bebês para amamentar em público].
Por qual motivo?
Uma coisa é lutar pelo direito de amamentar em público. Outra é submeter o bebê a uma passeata pública. A mulher tem o direito a batalhar, mas tem o direito de colocar o bebê junto na batalha?
*A jornalista viajou a convite da Tylenol.