Saúde e Bem-Estar

O lápis é mais uma brincadeira

Daniela Neves - danielan@gazetadopovo.com.br
16/11/2008 02:04
Antes que os pais comecem a acreditar que o filho seja precoce, ou mesmo superdotado, especialistas em alfabetização dizem que a curiosidade sobre o mundo da escrita é normal e saudável, desde que parta da própria criança. “Aprender é uma predisposição natural do ser humano, que surge desde que nasce”, diz Verônica Branco, professora de alfabetização no curso de Pedagogia da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Aos 4 anos, Letícia gasta quase cem folhas de papel sulfite por semana com desenhos e letras. “Ela gosta de escrever. Ainda não tem conhecimento das letra mas associa o L de Leticia, o E de escola”, conta a mãe, a bancária Milene Almeida. A menina também gosta de brincar com o computador portátil do pai, no qual escreve o nome dela e dos coleguinhas da pré-escola. Ainda pede que a mãe escreva na folha o nome dos pais e dos avós para ela copiar. “Não forço nada. Sei que é uma brincadeira e incentivo”, diz a mãe.
Verônica explica que esse interesse infantil estimulado pelos pais vai fazer com que a criança seja uma amante da leitura, disposição que vai ser incorporada naturalmente ao aprendizado dela. Por isso, os pais devem incentivar, sim, oferecendo lápis, papel, giz de cera e lendo historinhas. Mas se essa vontade não for natural da criança, uma estimulação forçada pode causar até fobia da leitura. “Não pode ser forçado. Mesmo na pré-escola, a introdução das letras tem de ser feita de forma agradável, lúdica, como mais um brinquedo”, diz Verônica.
A questão lúdica dessa fase deve ser colocada num contexto de aprendizado amplo, no qual a criança não tem ainda dever de aprender a escrever, mas está ampliando a visão de mundo. Por isso é comum pedir para que os pais leiam rótulos, traduzam palavras para outro idioma, sem a obrigação de gravar. “Os estudos de lingüística indicam que crianças muito pequenas, mesmo na nossa sociedade em que são superestimuladas, copiam, imitam a escrita, como uma brincadeira. Elas não conseguem ter um entendimento completo daquele símbolo gráfico. Identificam o nome delas quando vêem por escrito porque têm contato com esse desenho por várias vezes. Mas é uma imagem repetida que cria essa identificação”, diz Cristina Surek, professora de sociologia do Centro Universitário Curitiba e integrante de um programa internacional de alfabetização promovido pelo Rotary.
Em tempos de fácil acesso ao computador e aos diversos programas de televisão infantil, os pais devem usar a favor da criança essa superestimulação, desde que não esqueçam de filtrar o tipo e a quantidade de informação eletrônica. “As crianças não estão mais inteligentes e sim mais estimuladas. Há alguns anos, poucas crianças tinham acesso ao computador. As livrarias têm seções de livros infantis, ou seja, as crianças têm mais recursos e essa maior oferta é positiva”, afirma Verônica.
Maturidade
Aos 6 anos, segundo os estudos de psicopedagogia, já se tem maturidade suficiente para compreender o significado do desenho das letras. O ensino de 9 anos que está sendo adotado no Brasil agora já é realidade nos outros países da América Latina há pelo menos 50 anos. A partir dessa idade, o aluno consegue juntar os símbolos com o som das letras e o processo de alfabetização é mais natural. “Com o tempo a criança vai fazendo a associação e um dia ‘cai a ficha’. Ela começa a ler de uma hora para outra. Esse processo de amadurecimento para a leitura é muito importante para o aprendizado”, diz Cristina.