Saúde e Bem-Estar

O limite do erro

Adriano Justino
24/09/2007 00:32
A família costuma achar lindo quando a criança pequena fala “balata” ou “poita”. Algumas palavras viram até brincadeira entre os parentes. mas até que idade é normal falar errado? Consultamos as fonoaudiólogas Ana Maria de Barros, diretora do curso de Fonoaudiologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná, e Cibele Fontoura Cagliari, chefe do Serviço de Fonoaudiologia do Hospital Pequeno Príncipe, para definir esses limites
Brincadeira liberada
A torcida pelo time do coração saía truncada: no lugar do grito “cooxa”, lá vinha o “tooxa”. E nas aulas de futebol não era diferente: os meninos mais velhos faziam piadas com o pequeno Waldir Jordan Neto, 4 anos. O incômodo do filho levou os pais a buscar tratamento para as trocas de letra. “Em menos de um mês, já melhorou bastante”, conta a mãe, a jornalista Danielle Jordan, 28.
Além das terapêuticas no consultório – uma sessão de curtição para Neto – os pais e a irmã Gabriela, 12, foram orientados para ajudá-lo. Brincadeiras antes proibidas, como baforar no espelho, hoje não só são permitidas como estimuladas. “Ele está muito feliz de falar direito e até ficou mais falante”, alegra-se a mãe. (EB)
Recém-nascido
O teste da orelhinha, ou triagem auditiva neonatal, é um exame indolor realizado no segundo ou terceiro dia de vida do bebê. Ele pode detectar problemas auditivos e possibilitar tratamento precoce, evitando prejuízos no desenvolvimento emocional, cognitivo, social e de linguagem da criança. Algumas maternidades e planos de saúde oferecem o teste gratuitamente, outros cobram pelo exame e há maternidades que não dispõem do aparelho.
Problemas ao se alimentar – engasgos, tosse, injestão insuficiente da dieta, dificuldade de coordenar a respiração com sucção e deglutição – requerem o acompanhamento fonoaudiológico.
Está na hora da consulta
Bebê
Barulhos altos e repentinos assustam os bebês. Se uma porta bate e seu filho não apresenta reação de susto, pode ter alguma perda auditiva.
A partir de 1 ano
A criança que não consegue dizer o que quer – claro que dizer neste contexto é da forma dela. Fica ansiosa e tem reações de raiva por não conseguir se fazer entender.
Não consegue entender ordens simples.
Até 2 anos
A criança compreende o que é dito, mas seu discurso está muito comprometido, demora muito a falar.
Os pais – principalmente as mães – precisam tomar cuidado para não atender todas as necessidades da criança antes que ela peça. Essa atitude desestimula a fala do pequeno.
Até 3 anos
Se além de omissões e trocas de letras – normais nessa fase – a fala estiver comprometida a ponto da mãe não entender o que a criança fala, hora de encaminhar para atendimento.
Até 4 anos e meio
Omissões e trocas de letra são normais. Mas se houver outros déficits associados (como dificuldades motoras globais ou finas ou de compreensão de ordens simples) é necessário procurar um profissional antes disso.
Até 6 anos
Até os 6, a criança deve ter adquirido todos os sons da língua portuguesa. Construções diferentes por conta de sotaque não são problemas.
O “R” falado na ponta da língua – como em “careta” – e os encontros consonantais com R e L – prato e placa – são os últimos sons adquiridos. Passando de 4 anos e meio, 5, procure atendimento.
Chupeta, mamadeira e dedos
O uso prolongado pode resultar em distorções: a alteração da arcada dentária faz a criança colocar a língua entre os dentes. A partir dos dois anos, se houver dificuldade, o fonoaudiólogo pode orientar a retirada desses objetos.
No caso de crianças que chupam dedo, assim que o hábito é constatado – mesmo em bebês – é preciso buscar orientação.
Fala infantilizada
Quando a criança fala como bebê, provavelmente a alteração é emocional. Mas além do psicólogo, a intervenção do fonoaudiólogo pode ser necessária para corrigir vícios.
Troca de letras
Sons muito próximos que são trocados – como F e V, T e D, P e B – requerem ajuda profissional antes do início da pré-alfabetização, para que a criança não leve as trocas para a escrita.
Gagueira
Entre 4 e 5 anos, a chamada disfluência fisiológica – confundida com gagueira – é freqüente e normal. Trata-se de uma alteração na fluência da fala, com repetição de sílabas e pode durar de uma semana até dois ou três meses. Observe se não é algo extremo. Com o tempo, desaparece por completo. Evite chamar a atenção da criança ou exigir que ela fale em momentos de estresse – como quando estiver chorando ou com raiva. Caso permaneça por mais tempo, procure um profissional.
Se houver casos de gagueira na família, os pais devem ficar atentos.
Prematuros
Em caso de nascimento prematuro – especialmente os mais extremos – o desenvolvimento pode ser mais lento, sem caracterizar patologia. Os pais devem estar alertas, pois muitas vezes essas crianças precisam de maior estímulo.
Dificuldade de aprendizagem
Normalmente, há histórico de dificuldades anteriores, como de traçado no desenho ou déficits de memória ou atenção. O problema pode ser pedagógico ou fonoaudiológico. De qualquer forma, é bom fazer uma avaliação o mais cedo possível, porque quanto mais tempo fixar o erro, mais difícil será esquecer esse padrão e aprender um novo.
Otorrino
Em caso de respiração bucal com ronco durante o sono e suspeita de perda auditiva, o ideal é procurar primeiro um otorrinolaringologista, que irá verificar se há alterações anatômicas. Se for necessário, o médico encaminhará o paciente para o fonoaudiólogo.
Serviço: Ana Maria de Barros (fonoaudióloga), e-mail fonoaudiologia@pucpr.br / Cibele Fontoura Cagliari (fonoaudióloga), fone (41) 3018-9400.