Saúde e Bem-Estar

Pais de transição

Da redação
27/11/2005 23:26
Formado em Medicina com residência em Psiquiatria, Jairo Bouer não escolheu ser “conselheiro” de adolescentes. “Foi um convite que eu recebi, aceitei e fui fazer.” A coluna em um grande jornal deu visibilidade ao seu trabalho e de lá para a tevê, rádio e revistas, o psiquiatra de aparência despojada virou referência em comportamento jovem.
Viver Bem – Você é jovem e tem ar de adolescente, usa penteado e roupas informais. É uma maneira de se aproximar desse público?
Jairo Bouer – Não uso roupas jovens para ficar mais próximo do meu público, é meu estilo mesmo. Sempre estou de tênis, jeans e camiseta. É a roupa que eu uso no dia-a-dia, mesmo no consultório.
Isso facilita a identificação com o jovem?
É mais um elemento.
Você acha que faltava na mídia alguém que falasse a linguagem dos jovens?
Tem outros comunicadores que trabalham em rádio e tevê que conversam muito com os jovens. Talvez a especificidade seja que eu sou um médico, uma pessoa que trabalha mais com a questão de comportamento e de saúde.
Que dicas você daria para quem quer falar com o jovem, estabelecer uma conexão verdadeira com ele?
O jovem é muito sensível ao que está ouvindo, ao que está vendo. Tem de ser direto, objetivo, não pode tratá-lo como se fosse uma criança, tem de valorizar essa indivualidade e autonomia, evitar o tom paternalista. Tudo isso ajuda você a ter um canal de comunicação melhor com eles.
E os pais, como conseguem criar um diálogo com os filhos?
Hoje o pai que é pai é aquele que demonstra interesse, que está aberto ao diálogo, que consegue ter uma troca afetiva com esse filho, que consegue discutir e negociar limites quando for possível. Ao mesmo tempo, não invade, respeita a autonomia, o crescimento, o processo de individualização, está acompanhando, está presente, fazendo o papel de pai. Esse negócio que pai tem de ser amigo não é verdade: pai é pai, mãe é mãe, tem de ser amigo também, mas tem de estar presente, dar limite, dar suporte e estar do lado, mas de uma maneira muito mais de acompanhar do que de invadir e interferir. E aprender a lidar um pouco com as frustrações, muito naturais dessa relação com os filhos. Esse é o processo natural do jovem, como uma coisa dele, um segredo dele, uma particularidade que não necessariamente ele queira contar.
Você acha que falta aos pais falar sobre temas como sexo e drogas aos filhos sem preconceitos e tabus?
É difícil você ter uma isenção emocional quando você está lidando com o seu filho. Geralmente é mais fácil para mim, que estou fora de casa, falar sobre essas coisas do que para o pai, que está lidando com essa questão operacionalmente no dia-a-dia. O pai hoje tem de estar atento, perceber melhor essas coisas, porque o jovem é muito precoce, essas questões aparecem na vida dele muito cedo e o pai é uma pessoa que orienta, dá o exemplo, que vai dar suporte. Ele é o primeiro arcabouço emocional, de comportamento, de valor, de ética. É fundamental que essa relação seja clara e que ele esteja o tempo inteiro presente. Agora, ainda é difícil para o pai lidar com essas questões. Todos os meninos da turma estão fumando, será que meu filho vai fumar também?
Complicado para os pais…
Acho que esse pai de hoje já é um pai de transição. Pai que hoje tem filho que está na sétima série, tem, em média, uns 45 anos. Há 20 anos ele já pegou um pouco dessa transição toda. Essa geração de pais que hoje têm 30 anos estará mais preparada para essas questões, pois já pegou mais essas transformações.
Você acha que os problemas vão aumentar?
As transformações sociais dos últimos 20 anos tendem a se manter. A precocidade do contato com a questão sexual, o comportamento dos jovens hoje muito consumista, muito individualista, muito preocupados com a questão da imagem corporal. A gente tem de aprender a lidar com isso.