É natural que, quando os pequenos começam a falar, se atrapalhem com a pronúncia das palavras, troquem o som de algumas letras ou demorem um pouco para se lembrar de algum termo de um vocabulário imenso que estão começando a desbravar.
Até os 3 ou 4 anos de idade, os pais ainda encaram esses tropeços de forma bem-humorada. Mas é comum que, depois dessa fase, as preocupações comecem a surgir. “No período entre 2 e 7 anos, toda criança passa por uma fase de variações de grau na fluência verbal, relacionados com amadurecimento neuromotor e com incertezas de linguagem, principalmente morfológicas, sintéticas e semânticas. Em geral, essas variações são superadas e, em média, 80% das crianças recuperam o padrão fluente. Algumas, porém, mantêm essas variações, que podem inclusive se agravar e tornar-se crônicas”, explica a psicóloga Sulliane Teixeira Freitas, especializada no atendimento a crianças e adolescentes.
Entre essas disfluências está a gagueira, também conhecida como tartamudez, um distúrbio da linguagem que se desenvolve no período de aquisição e desenvolvimento da fala. Existem várias causas para a manifestação da gagueira. Sulliane explica que estudos sugerem forte ligação com fatores genéticos. Ou seja, a presença de transtorno fonológico ou de linguagem expressiva na história familiar aumenta a probabilidade de casos de gagueira. Mas fatores físicos, psicológicos e ambientais podem estar associados.
O maior erro dos pais, quando percebem que o filho está com dificuldades de se expressar, é se desesperar, pressionar a criança para que ela fale corretamente. “É comum as crianças repetirem palavras ou atropelá-las quando estão muito entusiasmadas. Mostrar preocupação gera ainda mais ansiedade e frustração na criança, o que pode ser um fator desencadeante do problema, se houver predisposição”, alerta a fonoaudióloga Kátia Bianchi.
Sinais
A gagueira pode se manifestar de diferentes maneiras. Nenhum caso é igual ao outro. “Além da repetição de sílabas, pode ocorrer o prolongamento de sons, pausas em uma mesma palavra, palavras pronunciadas com excesso de tensão física e repetição de palavras monossilábicas”, enumera a psicóloga Sulliane Freitas.
Movimentos motores podem acompanhar a gagueira. Piscar, cerrar os punhos, tremer os lábios ou a face são os tiques mais comuns. Como a criança se sente constrangida e insegura por causa do distúrbio, ela pode apresentar comportamentos como vergonha e ansiedade excessivas, carência afetiva, hesitação, baixa auto-estima e irritação. “A criança pode passar por problemas de socialização, isolamento, baixo aproveitamento escolar, rejeição à escola e tratamento diferenciados dos colegas”, completa.
Para a fonoaudióloga Kátia Bianchi, a gagueira só é considerada um problema se causa sofrimento. “O maior problema de quem tem gagueira é a auto-imagem, que é atingida. Por isso, é importante reverter a imagem negativa que a criança tem dela, por mais que a fluência não seja perfeita. Afinal, todos nós nos atrapalhamos de vez em quando”, explica.
Tratamento
A gagueira não tem cura, mas os tratamentos costumam ter bons resultados, principalmente durante a infância. Como cada caso se manifesta de forma diferente, os tratamentos também variam. Para chegar a um diagnóstico correto, uma avaliação multidisciplinar, com participação de pediatra, psicólogo, fonoaudiólogo e da própria escola deve ser realizada. A fonoaudióloga Kátia Bianchi explica que, além de desenvolver exercícios de respiração e de fala, trabalhar a consciência também é fundamental.
O acompanhamento de um psicólogo é interessante para que a criança consiga se desenvolver melhor socialmente e aprenda a lidar com a sua limitação. “A intervenção com a família também tem muita relevância no processo terapêutico. Os pais são orientados sobre como lidar com a própria ansiedade para poder contribuir de forma positiva”, esclarece Sulliane.