Saúde e Bem-Estar

Paralisia paterna

Jennifer Koppe
28/08/2006 01:37
jennifer@gazetadopovo.com.br
A mãe, avó e escritora gaúcha Lya Luft é formada em Pedagogia, mas mal exerceu a profissão. Mesmo assim, com freqüência é convidada a falar sobre a relação entre pais e filhos. Talvez porque o assunto seja tema freqüente de seus textos. “As relações familiares sempre me preocuparam. Tive uma infância feliz, uma família ótima, mas em minhas obras, gosto de imaginar o avesso”, conta. A escritora participou da primeira edição do Diálogo Positivo, no dia 17 de agosto.

Viver Bem – Em alguns de seus textos, você critica a atuação dos novos pais. Quais são os maiores erros cometidos hoje em dia?

Lya Luft – Os pais de hoje estão aflitos, recebem tanta informação e são sobrecarregados por tantas teorias e falsos psicologismos, que não sabem como agir. Eles têm medo da autoridade, não sabem impor limites, querem ser o “melhor amigo” dos filhos. Mas um pai precisa ser muito mais do que isso.

O que mais a incomoda na educação contemporânea?

É preciso formar gerações mais questionadoras, que tenham a capacidade de discernir. Sou contra a educação severa, mas vivemos uma crise de autoridade. E parece que hoje só se aprende brincando. É preciso encontrar um meio termo entre a responsabilidade e a brincadeira. Se não, as crianças não estarão preparadas para enfrentar o mundo.

Atualmente, há uma grande transferência da tarefa de educar para a escola, que por sua vez, é muito cobrada. E como fica a família?

Vivemos uma época fascinante, mas a vida está complicada. Para poder sustentar a família, precisamos trabalhar muito. A escola acaba exercendo um importante papel. Mas professora não é tia, é professora. O vínculo com a instituição não deve ser familiar. A inserção da mulher no mercado de trabalho foi um complicador a mais na educação das crianças. Mas graças a essa mudança, houve uma compensação. Os homens se tornaram mais participativos.

A escola vive um momento de padronização, qualquer criança que se comporte diferente é encaminhada para o psicólogo. Essas exigências não são pesadas demais para as crianças?

Acho que antigamente os alunos eram muito mais enquadrados do que hoje. Hoje em dia, existe mais liberdade. O ser humano tem medo do diferente. As crianças querem pertencer à turma. Acho que um pouco de rigidez traz conforto. O mundo da criança é muito informe, elas precisam ter um referencial.

Você defende uma dose de realismo no trato com as crianças e acredita que os contos de fada são instrumentos importantes para isso. Por quê?

A minha neta me contou que na escola não se cantava mais “atirei o pau no gato” e sim “não atire o pau no gato”. Mas o mundo não é assim, e não devemos tirar da criança a percepção de que o mal existe. O medo é natural e faz parte da vida. Os contos de fada são poderosos veículos do imaginário humano e através da fantasia, falam de medos do mundo real.