Saúde e Bem-Estar

Quarto é lugar de tevê?

Silvana Martani é psicóloga da Clínica de Endocrinologia da Beneficência Portuguesa de São Paulo
24/10/2005 00:55
silvanamartani@uol.com.br
Quarto é também lugar de tevê e de videogame se isso não implicar que criança, adolescente e pais esqueçam que a sala não é apenas um lugar de enfeites, mas a área de convivência da família. A maioria das famílias com uma condição financeira melhor normalmente equipam o quarto de seus filhos com todo tipo de entretenimento e tecnologia e, com isso, esperam fornecer às crianças e jovens possibilidades de distração e conforto. Por outro lado, as crianças acabam pedindo que tevê, videogame e computador façam parte da mobília dos seus aposentos junto com bonecas, bolas e brinquedos em geral.
Não existe nenhum tipo de problema em se ter essas coisas no local onde se dorme, se não houver um outro aposento destinado a isso. Em grandes metrópoles, o que acaba acontecendo é que a maioria das pessoas mora em apartamentos com possibilidades restritas de acomodação e a idéia de equipar o quarto surgiu primeiramente para sanar a falta de um local adequado para esses elementos e depois pela comodidade de estar tudo em um mesmo ambiente e ser de uso exclusivo do habitante do aposento.
Mas, nem tudo são flores nos quartos high-tech. Muitas crianças e adolescentes fazem de seus quartos verdadeiras trincheiras e se isolam do mundo, dos pais e amigos. Existem até aqueles que não permitem que o quarto seja limpo ou arrumado, pois consideram essa atitude uma invasão, o que acaba gerando conflitos e discussões dentro de casa. Não é raro encontrarmos pais que já desistiram de tentar manter os quartos de seus filhos integrados à casa e simplesmente fecham os olhos e as portas para os mesmos.
Como se pode ver, não estamos simplesmente falando de quartos e seu mobiliário, mas de personalidades refletidas em atitudes, condutas e escolhas. Personalidades mais introvertidas, tímidas ou com pouca facilidade de relacionamento sentem seus quartos como grandes oásis, verdadeiras ilhas de sossego. Lá, eles podem tudo, da maneira que gostam, sem se preocupar com o que os outros vão pensar. Para eles, o quarto é o grande útero que os protege de tudo e de todos e, para estes, estar no meio de pessoas – mesmo de seus pais e irmãos – exige um tanto de esforço que, na maior parte do tempo, não estão dispostos a despender. Para estes indivíduos, seria melhor que pais os atraíssem para as áreas de convívio para ajudá-los a superar suas limitações, mas não é o que acaba acontecendo. Os pais cansam de chamar, partem para exigência, brigam e esbravejam e tudo acaba piorando.
Um jovem não passa pela puberdade ou adolescência desta maneira tendo sido uma criança comunicativa e expansiva. Com certeza, este jovem já era mais retraído e tímido e seus pais sabiam disso. Logo, se seus aposentos tiverem tudo, não é ali mesmo que ele vai ficar?
Não estamos dizendo que os quartos não devem atender às necessidades de seus habitantes. O que estamos sugerindo é que existem outros lugares na casa além da cozinha, banheiros e quartos e esta noção deve ser dada pelos pais.
Nós sabemos que a maioria dos jovens pode viver a adolescência com dificuldades emocionais ou mesmo comportamentais. Com isso, a retração em relação aos adultos, dar prioridade aos amigos que vivem os mesmos conflitos, valorizar os grupos de convívio e se isolar é esperado, por isso, os pais devem priorizar o convívio dentro de casa. Fazer pelo menos uma refeição com todos juntos, conversar na sala, promover atividades caseiras nas quais todos são responsáveis por tarefas específicas. São momentos que vão fortalecer laços, tanto afetivos, quanto de solidariedade e união. Com certeza, muitos dirão que as suas semanas são cansativas e que sobra pouco tempo até para eles, mas não estamos falando de horas de convívio e sim de minutos que fazem toda a diferença quando se fala de educação.
Se os pais não se socializam com seus filhos por não terem tempo, o que vamos esperar dos jovens? Podemos perceber que os quartos e seus equipamentos somente retratam realidades que acontecem fora deles e, se quisermos mudar isso, teremos que nos esforçar para estarmos mais disponíveis e abertos também.
Felizmente ou infelizmente, parte do que são nossos filhos pertence a nós e essa responsabilidade pode nos favorecer para criarmos seres mais tranqüilos, felizes e, principalmente, sociáveis.