Saúde e Bem-Estar

Questões de gênero

Érika Busani
15/07/2007 22:41


Cristina com Leonardo e Sabrina: preparação para um futuro cooperativo.
Homens não prestam (ou são todos iguais). Mulheres são fúteis e superficiais. Meninos precisam ser corajosos, agressivos e não levar desaforo para casa. Meninas devem ser dóceis, delicadas e carinhosas… Os estereótipos passados por gerações habitam o imaginário e, pior, muitas vezes conduzem as ações educativas de pais e mães com suas crianças.
Desde que nascem, os bebês tendem a ser tratados de forma diferente, por gênero. “Com os meninos, as pessoas falam mais alto e com as meninas, de maneira mais suave”, afirma a psicóloga e educadora brinquedista Fernanda Gorosito, coordenadora do Espaço de Desenvolvimento Criança em Foco. “Ainda existe diferença de atitudes com as crianças: meninas recebem mais proteção e meninos são mais estimulados a se aventurarem sozinhos”, complementa.
É claro que, com a mudança dos papéis de homens e mulheres, houve também uma evolução na relação com as crianças. “Antigamente os papéis sexuais eram muito mais delimitados, os pais ensinavam o que precisava aos meninos e as mães eram responsáveis por passar o que as meninas precisavam saber. Hoje já existe uma parceria dos pais em relação à educação”, diz.
Para a psicóloga Vera Regina Miranda, mestre em Psicologia da Infância e Adolescência, “as pessoas são obrigadas a perceber que não dá mais para educar como antigamente”. De coisas banais como delimitar cores – azul para eles, rosa para elas – a definir papéis ou proporcionar maior liberdade aos meninos. “Hoje não tem mais como estabelecer padrões, saber o que faz parte do universo masculino ou do feminino. Os homens são cooperativos, as mulheres também determinam, se expandem fora de casa. Os estereótipos de homens provedores e mulheres voltadas às atividades domésticas serviram àquele tempo”, destaca.
Os velhos preconceitos, porém, não foram abandonados. “Já recebi no consultório muita mãe impactada porque sua filha queria fazer judô”, conta Vera. Apesar desse tipo de reação, não há mais uma imposição, como nas gerações anteriores. “Hoje a escolha de atividades tem a ver com afinidade, o que permite às pessoas serem felizes.” Amém!
Divisão de tarefas
“No futuro, o que a vida vai exigir dos dois vai ser igual. Os dois têm de saber fazer um pouco de tudo”, diz a mãe de Leonardo, 16 anos, e Sabrina, 11, a procuradora municipal Cristina Hatschbach Maciel, 41. Para ela, a diferença no relacionamento com os filhos depende mais da personalidade de cada um.
Como mãe, Cristina não queria reproduzir o modelo que viveu com os pais. “Me sentia injustiçada porque tinha de ajudar nas tarefas domésticas e meu irmão não. Na minha casa cada um tem suas funções, os dois arrumam suas camas, ajudam a por e tirar a mesa e, quando não temos ajudante, lavam a louça.”
Além de colaborar, Leonardo e Sabrina têm o exemplo em casa. A mãe e o pai, o engenheiro Paulo Eduardo Marques Maciel, 46, costumam dividir as tarefas domésticas. “Nós dois trabalhamos igualmente, então nada mais justo”, comenta Cristina.
Caminho para a proximidade
– Até os três anos, as crianças ainda não têm a dimensão do que é a feminilidade e a masculinidade. “Uma criança bem aceita, respeitada e amada vai se definir como homem ou mulher normalmente, sem precisar de alguém dizendo o que ele pode e o que não pode ser”, lembra a psicóloga Fernanda Gorosito. Por isso, não se deve desprezar homens ou mulheres na frente da criança. “Mostre que os dois gêneros são importantes e merecem respeito.”
– Os filhos devem receber aprovação do modelo de identificação: o pai para os meninos e a mãe para as meninas assim como do modelo de complementação: a mãe para os meninos e o pais para as meninas.
– Não reprima um menino que demonstre vontade de brincar com boneca. “É só mostrar que ele pode ser o pai da boneca. Assim como uma menina pode ter vontade de fazer xixi em pé, será só uma curiosidade e tentativa de entender porque ela precisa sentar para fazer xixi.“
– Quanto mais exagerada for a definição do papel sexual, mais difícil será a convivência de meninos e meninas no futuro, pois estarão mais opostos.
– Cuide com injustiças por papel sexual. A proibição de algo não pode ter como causa um “porque você é menina (ou menino)”. Os dois gêneros podem, mas de formas diferentes e isso precisa ser explicado pelos pais. Voltando ao exemplo do menino que teve vontade de brincar com a boneca: se o pai “autorizar” seu comportamento, provavelmente ele será um pai dedicado e participante.
– Crianças devem ajudar em pequenas tarefas em casa, independente de seu sexo. “Os pais pensam o tempo todo em passar valores importantes e esquecem que pequenas atitudes como tirar o prato da mesa ou oferecer uma ajuda na louça podem cultivar uma pessoa generosa, educada e prestativa”, diz Fernanda.
Érika Busani
erikab@gazetadopovo.com.br