Quando pensamos em agressividade, é comum relacionarmos esse conceito à sua dimensão de violência, como se fossem sinônimos. Porém, se constatamos a presença de agressividade nos atos violentos, nem sempre o contrário é verdadeiro, ou seja, nem todo ato agressivo é um ato de violência.
A agressividade é um processo primário presente em todo ser humano. A civilização não existiria, tal qual a conhecemos, se não fosse a luta travada pelos homens diante do esmagador domínio das forças da natureza. A possibilidade de criar e produzir instrumentos e o desenvolvimento da linguagem propiciaram as bases sob as quais a humanidade vem mantendo o ideal de sobrevivência da espécie. A criação científica, a arte e a religião constituem-se dos investimentos agressivos do homem diante do desconhecido e da busca do sentido da vida.
Desdobrando essa concepção do domínio da natureza, podemos compreender “natureza” não somente restrito às condições externas do mundo em que vivemos, mas também ao profundo universo que habita em nosso ser. Cada humano traz consigo sua porção agressiva e, com ela, investe no mundo físico e social buscando dominar um espaço de sobrevivência física, afetiva e sócio-cultural.
A agressividade infantil organiza-se das mais diversas formas, dependendo das estratégias afetivas com que a criança vai estabelecendo e construindo suas relações com o meio social. Toda criança tem fantasias lúdicas constituídas de elementos agressivos, tais como matar, morrer, ferir-se, destruir, atirar, quebrar e explodir, entre outras. Não é preciso um revólver de brinquedo para que a criança empunhe os dedos indicador e polegar e finja atirar. Faz parte da luta para constituir-se como sujeito não se submeter passivamente aos processos impostos pela educação.
Os educadores de creches – principalmente – são capazes de constatar o quanto a disputa de um colo, um objeto, um lugar pode desencadear empurrões violentos e bruscos, e mordidas vigorosas marcando o “território invadido pelo inimigo”.
É interessante observar que o componente agressivo praticamente só é realçado quando as crianças e os adolescentes são agitados e irrompem de uma forma mais violenta sobre os objetos ou sobre os outros. Dificilmente alguém detecta agressividade na criança inibida, tímida, auto-excludente. Muito ao contrário, essas são geralmente consideradas quietas, obedientes, comportadas e disciplinadas. Na condição de não perturbadoras e não violentas, não são observadas possíveis depressões, inibições e fobias, entre outros sintomas.
Pouco se enxerga sobre a direção que o impulso agressivo tomou nesses meninos e meninas. Mal se pode ver que agressão voltou-se para o si mesmo, impedindo a expressão dos seus afetos. Nos casos mais graves, temos as diversas formas de auto-agressão – são crianças que vivem se machucando ou se oferecendo para servir de “chacota” para os colegas como prisioneiros nessa rede.
E sobre quem recai (depois da família, ou como substituto desta), primordialmente, essa função social educadora da agressividade? Basicamente, sobre os professores. É função do educador construir ideais humanistas de igualdade e cooperação, mesmo que o mundo real não se espelhe nesses ideais. Espera-se dele que seja “educada” essa força interna presente em todo ser humano.
Mas, até que ponto é “educável” essa força? E quantos professores têm noção dessa função social implícita no ato de ensinar? Quantos deles são capazes de reconhecerem, em si mesmos, suas próprias expressões agressivas: “construtivas” e “destrutivas”? O ato de educar exige agressividade da parte de quem educa, inclusive para agir como mediador de conflitos e exercer o papel de guia aos caminhos a serem percorridos, privilegiando as saídas criativas e negociadas, ao invés das violentas.
O professor está sempre na mira dessa ambivalência afetiva – de amor e ódio – despertada pelo seu lugar de representante de uma autoridade. E sobre a condição ambivalente do ser humano diante da educação, Freud aponta que há algo mais para pensarmos: amamos porque a ela (nossa educação) lhe devemos tudo e detestamos porque haverá algo que fracassa. Basta olhar a história da humanidade e de cada um de nós.
Educar sabendo lidar com a agressividade, sob um aspecto criador, transformador e democraticamente mais justo deveria ser um desafio social mais amplo. No entanto, recai primordialmente sobre aqueles que cuidam da saúde, da educação e da garantia de direitos e deveres das crianças e adolescentes. Em última instância, sobra para a escola e os professores um papel que deve ser dividido com a família e a sociedade.
Aos educadores resta uma sobrecarga, uma missão sentida no seu esforço diário, que é o fato de que, além de ensinar conteúdos, têm de enfrentar todos os desafios que sua autoridade representa.
É na conquista diária de construir sentidos para seus alunos e para si próprios que os professores se deparam com a força interna que os faz suportar seu lugar. E, nesse instante, de profunda verdade, é que eles se deparam – mesmo sem o saber – de como estão criando e dando sentido para a própria agressividade, que os faz viver.
Em tempo: sou a favor da lei do desarmamento!
Carlos Alberto de Mattos Ferreira é psicanalista, psicomotricista, escritor, mestre em Educação (UFRJ) e doutorando em Saúde Coletiva.
Colunistas
Agenda
Animal


