Saúde e Bem-Estar

Só mais um pouquinho, mãe…

Larissa Jedyn
16/04/2007 01:19
larissa@gazetadopovo.com.br
A hora de ir embora já tinha passado há tempo. O celular não parava de tocar na bolsa e, logo que se aquietou, não deu nem para um suspiro aliviado ou para aproveitar mais um pouquinho da festa. “Foi quando eu vi a minha tia entrando e carregando a minha prima arrastada pela orelha… O pior é que eu estava de carona com elas e tive que ir junto, tentando disfarçar, é claro”, lembra a estudante Milena Piovezan, de 16 anos. “Depois dessa, acho que eu nunca mais voltei naquela balada”, suspira. O tempo ajuda a aplacar os efeitos do “mico” e ensina a rir dele. Mas enquanto isso não acontece e ainda se vivencia a fase mais “conturbada” da vida, o remédio é conversar.
É bom saber, no entanto, que um episódio desses dói para pais e filhos. O pai se sente preocupado e amedrontado com a quebra de limites do filho e este, por sua vez, esbraveja, reclama a falta de confiança e, provavelmente, acha que os pais dos amigos são muito mais compreensivos. “Não é a balada que desencadeia os distúrbios, mas a formação adquirida. De um lado os pais querem proteger e de outro os filhos pedem liberdade. Mas é importante saber que os limites são fundamentais. E para colocá-los em prática é preciso de bom senso. Pais rígidos demais praticamente pedem que os filhos mintam”, diz a psicóloga Elza Sbrissia Artigas, terapeuta de família e adolescentes.
Os pais não devem deixar de lado o monitoramento, mas, conforme percebem que os filhos internalizaram as regras, podem permitir que aproveitem um pouco. “Essa é a hora que o adolescente encontra o seu grupo e aproveita para treinar a autonomia sem a interferência”, aponta a psicóloga clínica Vera Regina Miranda. “Agora, se os acordos forem quebrados, é preciso manter a clareza e explicar que essa atitude tem uma conseqüência. Se não cumpriu a regra vai ser punido. Pode, por exemplo, não ir à festa que já estava agendada. Ele precisa entender que fez algo errado. Se o pai falta ao trabalho porque foi a uma festa no dia anterior, ou aparece de ressaca no escritório, ele pode sofrer uma advertência. Com o filho é assim também”, diz.
Para a mãe de Milena, a pedagoga Cleusa Piovezan, 42 anos, a conversa franca é a melhor estratégia contra confusões desse tipo. “Eu me considero uma mãe até bem liberal, mas mesmo assim quero saber por onde anda minha filha, com quem está, como é o lugar. Não a deixo, por exemplo, ir a festas rave. Ela ainda não tem idade para isso. Só vai se eu for junto ou vai ter de esperar mais um pouco”, comenta. “Eu já fui adolescente, sei como é querer fazer as coisas e não poder. Sei que ela tenta mentir às vezes, mas a gente acaba dando risada e resolve o que é melhor fazer a respeito da situação”, conta ela, que estabeleceu duas saídas mensais para a filha e monitora as baladas por meio do celular.
Amiga de “night” de Milena, Taíse Bernardelli também segue algumas regrinhas para conseguir sair: o horário limite é 3h30 (isso para as festas que começam às 11 horas), são apenas duas festas por mês (e isso pode variar para menos conforme as notas), ficar longe de bebidas e de amigos que bebem, além de cumprir direitinho os esquemas de idas e voltas. “Nunca dei motivo para meus pais criarem confusão, mas já cansei de olhar as filas de meninas no banheiro tentando negociar uma ‘prorrogação’ com os pais pelo celular”, conta.
Serviço: Elza Sbrissia Artigas, terapeuta de família e adolescentes, fone (41) 3362-1722 / Vera Regina Miranda, psicóloga clínica e terapeuta e professora da PUCPR e UnicenP, fone (41) 3332-3656.