Saúde e Bem-Estar
Aquela manhã estávamos fazendo nosso trabalho com uma sonolenta devoção. Pedi a Madeleine que me jogasse um ovo. Ela me olhou, curiosa, lá da porta da geladeira. “Um destes ovos?”
Fiz que sim com a cabeça. “Mas pode quebrar”, ela replicou. “Apenas lance o ovo, Madeleine. Eu vou pegá-lo”, respondi.
Ela olhou para o ovo que estava segurando e, por razões que só ela poderia explicar, passou a inspecionar a casca.
O que a princípio foi uma simplória demanda culinária – outro ovo para o omelete – logo se tornou algo mais significativo: um momento de confiança entre um pai e uma filha. Eu queria que ela tivesse segurança de que se jogasse algo delicado, eu iria salvá-lo para ela. A mãe dela havia morrido um ano antes. Foi algo repentino – um problema sem diagnóstico, uma suspeita de Síndrome de Marfan. A maioria das pessoas que eu conheço nunca tinha ouvido falar disso.
Às vezes Madeleine e eu conversamos sobre aquele dia. É algo muito íntimo, só de nós dois. Eu ouço e movo a cabeça. Quero que ela saiba que vou encarar qualquer coisa que queira dividir comigo, mesmo que eu não tenha uma resposta, o que acontece na maior parte das vezes.
Uma mudança sutil ocorreu na semana passada, quando eu estava fazendo o jantar. Notei que Madeleine estava folheando uma revista de moda. Mais tarde, me disse: “Acho que encontrei uma pessoa para casar com você.” Quase me afoguei de susto. Ela pegou a tal revista novamente e abriu na foto de uma modelo na passarela, usando um vestido azul com uma capa amarela. “Ela se parece um pouco com a Branca de Neve”, comentei. “Claro, eu percebi”, foi a resposta dela.
Não era a primeira vez que as princesas da Disney tinham um papel importante nas nossas vidas. Na noite seguinte à morte de sua mãe, Madeleine me implorou para dormir mais tarde e assistir o DVD de A Bela Adormecida. Nós nos sentamos juntos no sofá, com uma coberta. Seria como qualquer outra noite, exceto pelo fato de que nós dois estávamos vivendo em um mundo que nós nunca tínhamos imaginado.
Foi a primeira de centenas de noites em que tivemos que simplesmente fingir uma normalidade que não existia para nós. Madeleine caiu no sono durante o filme. Ela perdeu a parte em que o príncipe ressuscita a Bela Adormecida com um beijo e tudo volta ao normal. Eu me perguntei se ela não teria adormecido de propósito.
No fim de A Bela Adormecida, enquanto minha filha dormia no meu colo, eu lembrava histórias sobre a Segunda Guerra Mundial que ouvi de vizinhos idosos e de meus avós durante minha infância, que passei na Grã-Bretanha. Lembrei de uma dessas histórias, sobre um restaurante de Paris lotado de pessoas bem-vestidas e aparentemente apreciando boa comida e bons vinhos.
Paris estava ocupada pelos nazistas e aquele era um dos invernos mais gelados que o povo conseguia lembrar. Para as pessoas que passavam em frente ao bistrô chique, a cena era inconcebível: a elite da cidade pronta para um jantar luxuoso enquanto tantos outros passavam frio e fome.
Mas um olhar mais atento revelava a verdade. Os garçons traziam cardápios, clientes perguntavam qual era a sugestão da noite. Vinho era escolhido; champanhe era anunciado por homens engravatados. Senhoras elogiavam os trajes das amigas.
Mas durante toda aquela noite, tudo que saiu da cozinha foi água. Nada de comida, nada de vinho, nada de champanhe. Apenas garrafa após garrafa de água, em bandejas, em baldes de champanhe, em taças e copos. Foi uma noite como todas as outras daquele período, mas também diferente de todas as outras.
Em um mundo marcado pela ausência de alguém insubstituível, a vida de Madeleine e a minha vida continuam as mesmas, ao mesmo tempo que estão completamente diferentes. Eu sou um pai que faz tentativas desajeitadas de tocar tarefas típicas de mãe. Meus sogros, que moram em Long Island, são incansavelmente prestativos; eles tentam ignorar os meus erros e estão sempre disponíveis para Madeleine e para mim.
Mas no dia a dia, desenvolvi uma afinidade com mulheres que são mães em período integral. No metrô, no supermercado, nos parques, faço-lhes perguntas e peço dicas. “Compre este tipo de vassoura”, elas me dizem. “Use roupas que não precisam ser passadas”. “Alimente sua filha às 17 horas e ela estará cansada por volta das 19h30”. Eu compro sucrilhos da marca própria do supermercado e coloco na caixa da outra marca, que é enfeitada com personagens de desenho animado. Como é que um homem poderia ter estas ideias?
Eu agora escondo todas as revistas de moda porque me incomoda pensar que Madeleine acredita que ela terá que se parecer com uma top model quando crescer. O que eu quero dizer é: agora eu penso de forma diferente sobre tudo.
Na época do Natal, procurei por um grupo de apoio para pais sozinhos. Até coloquei um anúncio em busca de outros como eu. Queria que Madeleine soubesse que ela não é a única nesta situação, que há outras meninas vivendo só com seus pais. Acho que também fiz esta busca para me ajudar, para encontrar algum tipo de comunidade para homens como eu. Infelizmente, não obtive resposta.
Acabamos por aprender como entrar em um acordo sobre nossas sessões domésticas de cinema e agora vemos filmes com Fred Astaire e Ginger Rogers – ainda que talvez estejamos vendo estes filmes em excesso, já que Madeleine começou a “se vestir” para o jantar e no meio da refeição às vezes estende a mãozinha para que eu a tire para dançar.
Na noite de ano-novo (passada no nosso apartamento), ela me pediu para vestir um terno. Nossa contagem regressiva de réveillon começou às 20 horas. Encontrei na internet imagens de pessoas celebrando a virada do ano em Trafalgar Square; meus pais telefonaram da Inglaterra e tudo isso junto fez parecer que a grande hora já tinha chegado para nós também. Madeleine e eu brindamos com taças de vinho cheias de cidra de maçã, fizemos nossas resoluções de ano-novo e fomos para a cama. Três horas depois, quando estávamos mergulhados em sono profundo, Nova Iorque explodiu em fogos de artifício e comemoração.
Viver junto significa que às vezes temos que fabricar um jeito só nosso de ser feliz, porque o jeito do resto do mundo não está em sintonia com a nossa realidade.
Além de aprender como antecipar o réveillon em Nova Iorque e como pregar botões, aprendi sobre mim. Dia desses, estava passando espuma de barbear no rosto e Madeleine entrou no banheiro. Surpreendentemente, ela já estava vestida para ir à escola.
Sou do tipo de homem que faz bagunça quando se barbeia. Com medo de sujar a roupa dela com espuma de barbear, eu disse: “Por favor, me faça companhia, Madeleine. Mas não chegue muito perto.” Então, ri de mim mesmo ao perceber que o que disse a ela caracteriza a natureza da minha relação com adultos. Madeleine sorriu para mim e, em meu coração, pensei: “Chegue tão perto quanto quiser.”
Os momentos mais duros são quando eu sinto que estou perdendo o controle. Uma noite, já passava das 21 horas e Madeleine ainda estava acordada. Ela também precisava tomar banho e o vaso sanitário estava vazando. Para piorar, eu estava suspeitando que houvesse um ratinho vivendo no nosso apartamento e isso me preocupou por causa do hantavirus.
Madeleine me pediu um leite quente, mas em noites como aquela você abre a geladeira e descobre que o leite acabou. Eu achei que o inferno estava próximo quando derrubei por descuido a última fralda da noite na banheira que estava enchendo. Um pouco antes, a babá avisou que estava indo embora porque conseguira um novo emprego.
De alguma forma, no dia seguinte, tudo funcionou. A babá tinha uma colega com muita experiência com crianças, descobri um mercado que entrega as compras em casa, Raoul (o rapaz que faz pequenos consertos) precisou de apenas dois minutos para arrumar o toalete – e descobri que nunca houve um caso confirmado de hantavirus na cidade de Nova Iorque.
Madeleine e eu temos agora uma rotina. Sempre acordo antes dela e nos revezamos para escolher restaurantes, roupas e filmes; cada um tem a sua vez. Quando enfrentamos uma crise, só parece ser o fim do mundo por alguns minutos.
Outro dia eu estava fritando bacon, tomando café e tentando fazer os ovos mexidos de Madeleine ao mesmo tempo. Em um único momento de insanidade, o bacon queimou e fez disparar o alarme de incêndio. Os ovos de Madeleine começaram a grudar na frigideira; o saco de lixo que eu estava fechando, arrebentou e meus chinelos ficaram cobertos de restos de linguine e pudim.
Enquanto eu abanava furiosamente o ar com uma toalha, Madeleine veio correndo da sala para ver o que estava acontecendo, tropeçou e derramou o suco de laranja no piso e nela própria. Do canto da cozinha, uma menininha coberta por suco de laranja olhou para o seu pai e disse: “Nós parecemos dois palhaços!”
Acho que foi Chaplin que disse que, de perto, a vida humana é trágica, mas à distância, é engraçada.
Por isso naquela manhã, quando Madeleine estava segurando o ovo que eu pedia que ela jogasse para mim, me debrucei sobre o balcão da cozinha em direção à minha filha e disse: “Só jogue o ovo, Madeleine. Eu prometo que não vai quebrar.”
“Certo, papai.” E em um movimento rápido ela fez um lance perfeito jogando o ovo para o seu pai. Todo dia tem um ovo para eu pegar. Mas minha grande esperança é que minha filha sempre confiará em mim o suficiente para jogar o ovo – e que em seu coração em desenvolvimento ela aprenderá que o mundo é um lugar em que o número de ovos que conseguimos pegar é maior que o de ovos que se espatifam no chão.
Tradução: Marleth Silva
*Simon van Booy é um jornalista e escritor que vive em Nova Iorque.
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