Saúde e Bem-Estar

Tão novinho e já beija na boca!

Érika Busani
04/09/2006 00:39
erikab@gazetadopovo.com.br
Maria Victória tem 10 anos e não é mais BV. O namoradinho da escola ofereceu-se para que ela deixasse de ser BVL, convite recusado por enquanto. Para quem não transita nesse mundo pré-adolescente, BV significa boca virgem – aquela que nunca deu nem um selinho – e BVL, boca virgem de língua.
Para a representante comercial Maria Cristina Valenza, 45 anos, mãe de Victória, tudo é muito natural. Afinal, ela é a caçula e temporã de quatro filhos. “Ela está bem naquela fase que brinca de boneca mas quer ser gente grande”, diz. Cristina conta que a filha já falava de namorados desde os 6 anos, quando os dois irmãos e uma irmã mais velhos já estavam às voltas com os seus.
“Acho que é coisa da idade mesmo. Levo tudo na brincadeira. Hoje ela diz que está namorando, outro dia odiando. Se a mãe for levar a sério, fica louca”, brinca.
Cristina acha que a precocidade faz parte hoje da própria educação. “Eles assistem a filmes, novelas e encaram tudo com muita naturalidade. Acho melhor, não fica nada escondido. Ela não tem vergonha de conversar comigo ou com o pai.”
Não há idade certa para o início do interesse pelo sexo oposto mas, especialmente nas meninas, ele costuma vir junto com as mudanças biológicas da puberdade, conforme a psicóloga Karin Bruckheimer, especialista em Clínica Infantil e do Adolescente. “As mudanças trazem uma percepção maior do próprio corpo e elas começam a olhar para o corpo do outro também. Preocupam-se com roupas, maquiagem, querem chamar atenção dos meninos de alguma forma, às vezes até pela agressividade.”
Muitos pais se perguntam o que é “normal” em relação a namoros. Para a psicóloga clínica Shirley Valera Rialto Sesarino, isso depende muito dos valores da família. “Quanto mais jovem, é mais importante os pais não abandonarem, estarem atentos, estabelecerem limites, horários”, aconselha.
E, numa idade em que o importante é se enturmar, a opinião do grupo é mais importante para o pré-adolescente que a dos pais. “Hoje, se não beijou aos 13 anos, é considerado um ET pelos amigos”, lembra Shirley. Se a criança não está preparada, ou se força a namorar ou mente, tudo para sentir-se pertencente ao grupo. “As meninas querem ser a popular e os meninos ainda precisam provar que são machos.”
E as pressões podem vir da própria família. Desde muito pequena, a criança ouve insinuações ou perguntas do tipo “você tem namorada?”. “As mensagens que a família vai passando, querendo ou não, incentivam a sexualidade, assim como as mensagens não-verbais em relação ao corpo”, diz Karin. Um exemplo são os movimentos da dança funk. “Quando chega aos 14, 15 anos, os pais querem segurar, mas estimularam isso desde pequenos.”
Serviço: Karin Bruckheimer (psicóloga), fone (41) 3233-3192 (Orgone Psicologia) / Shirley Valera Rialto Sesarino (psicóloga), fone (41) 3022-1670.
Leitura: Como Sobreviver ao Primeiro Beijo?, da holandesa Francine Oomen, é ótima leitura para pré-adolescentes às voltas com dúvidas de comportamento nessa fase tão delicada. Editora Fundamento, R$ 25.