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Os hippies dos anos 60 e 70 tiveram pais autoritários e filhos folgados. Estes últimos, como não tiveram referências sólidas, não souberam dar limites aos seus pequenos tiranos. É assim que o educador Içami Tiba explica um pouco do desconcerto no qual se encontram tantas famílias atualmente. “Os folgados querem acertar, mas não têm recursos para educar com assertividade”, lamenta.
O resultado negativo está na sociedade e é mensurável. Uma pesquisa realizada pela psicóloga Lídia Weber, do Núcleo de Análise do Comportamento da Universidade Federal do Paraná (UFPR), com mais de 3 mil crianças entre 8 e 17 anos, aponta que a maior parte dos pais pesquisados, 35%, se encaixa no conceito de negligentes, definidos no estudo como aqueles que apresentam pouco afeto, não sabem impor regras e são pouco presentes na vida das crianças.
“É uma negligência emocional, não é que não dê comida ou outros meios de sobrevivência. Ele não dá limites e regras, mas também não participa, não senta ao lado, não diz que ama. E os filhos acabam sem parâmetros para enfrentar o futuro”, diz Weber. Na pesquisa, 56% das crianças filhas de pais negligentes apresentaram traços de depressão.
Para solucionar essa falha, é necessário primeiro, dizem os especialistas, o convencimento dos pais de que educar não é apenas uma opção. É mais do que um direito das crianças: é fator de interferência direta na realização pessoal deles mesmos. “Não é raro ver pais que, depois de passados os anos, se arrependem de não terem sido diferentes, de não terem investido mais tempo nos filhos”, lembra Weber.
Ao contrário do que se possa pensar, a vida profissional não é incompatível com uma dedicação plena e responsável à família. “É comum que nos dia de hoje os pais acreditem serem excludentes esses dois aspectos. Os pais que dedicam parte do seu tempo às atividades profissionais, o fazem para prover sua família dos bens necessários à sua manutenção”, diz Dora Porto, presidente da Associação de Desenvolvimento da Família (ADEF).
“Mas, além disso, o maior bem que se pode desejar aos filhos é a formação de um caráter forte, uma personalidade madura, com capacidade de decisão e qualidades pessoais. E temos de cuidar pois vivemos numa sociedade muito materializada, em que as ‘coisas’ ocupam o lugar das pessoas e, muitas vezes, nos sentimos mais impelidos a cuidar das coisas do que das pessoas”, complementa.
Não é fácil ir além, mas os frutos, de acordo com a psicóloga clínica Lélia Cristina Bueno de Melo, recompensam. “Da tarefa de ser pai e mãe adequados surgirá uma sociedade sadia, viável. De uma educação bem dada, depende o ajuste social e a felicidade dos filhos. As virtudes dos grandes homens certamente começaram por arrumar bem o seu quarto ou ajudar os irmãos a fazer suas lições.”
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