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A pergunta persiste, explícita ou não, na vida de muitos casais: arriscamos mais uma criança? Não está bom apenas um filho? Aparentemente adormecida, a inquietação continua, mesmo com a decisão de parar no primeiro. Afinal, se um filho traz tantas alegrias, dois não fariam a famîlia ainda mais feliz? Não é injusto privar o primeiro filho da experiência maravilhosa de conviver com irmãos?
“É, sem dúvida, um degrau a mais no desenvolvimento emocional de cada um, do casal e da família. É rejuvenescedor”, diz a psicóloga Fernanda Ribeiro Bufrem, da Clínica de Terapia da Família. Sem contar com os benefícios para o primogênito, que tem no contato com o novo irmão a chance de desenvolver qualidades que usará ao longo da vida (ver página ao lado).
Outros fatores pesam na balança no sentido contrário, desestimulando quem estruturou sua vida ao redor do primeiro filho. Pesa muito o receio do casal de não conseguir os recursos financeiros necessários para educar e sustentar os filhos no padrão que julgam necessário. As mulheres têm mais um temor, o de que a família maior obrigue-as a limitar a vida profissional. Há ainda quem se preocupe com o efeito da segunda gravidez sobre o corpo. “A mulher sente a pressão de apresentar um corpo perfeito para a sociedade. Isso é muito duro, é fonte de sofrimento”, avalia a psicóloga Fernanda.
A decisão não é simples. Não adianta esperar dos especialistas uma resposta pronta porque ela não existe fora do contexto familiar. O caminho a seguir depende muito da estrutura do relacionamento do casal (eles conseguem dividir os cuidados com a criança?) e do que consideram as coisas mais importantes de suas vidas. Mas é possível ressaltar dois parâmetros que pesam especialmente na decisão.
Um deles está em considerar a incapacidade humana de controlar todas as circunstâncias. “Vemos no consultório casais com vontade de ter mais um filho, mas pressionados por amigos, a família ou a mídia antecipam todas as desgraças desse mundo. Um possível desemprego no futuro ou uma doença, não ter dinheiro e assim por diante. É uma angústia por antecipação, pelo desejo impossível de ter um controle matemático sobre a vida. Por isso foge-se do risco. O medo paralisa e, mesmo com desejo, nãos e dá nenhum passo. “O resultado desse recuo poderá ser a depressão, que é a desesperança em relação à vida”, diz a ginecologista e obstetra Marília Siqueira, da Sociedade Brasileira de Medicina da Família. E o arrependimento, quando já for tarde para agir.
O segundo passo é avaliar com quem se poderá contar para dividir os cuidados com a criança. Se um dos cônjuges não estiver dispostos a assumir os cuidados com a criança, o outro será prejudicado, assim como o novo bebê. Em alguns países desenvolvidos, o pai tem direito a uma licença tão longa quanta a da mãe para que os dois possam desfrutar da experiência sem terem problemas na vida profissional. Como isso não acontece no Brasil, é preciso que o homem repense o seu papel.
“Como historicamente muitos dos homens tiveram pais apenas provedores, mesmo querendo eles ainda não sabem como ajudar. Vemos no atendimento às famílias que é muito prazeroso para o homem quando ele consegue ficar com os filhos, dividir essas tarefas. Ele percebe que não quer ser apenas um bom profissional, hoje ele almeja também ouvir que é um bom pai.”
Serviço: Fernanda Ribeiro Bufrem, psicopedagoga da Clínica de Terapia da Família, (41) 3338-7679 / Marília Siqueira, ginecologista e obstetra da Sociedade Brasileira de Medicina da Família, (11) 5539-1551 / Rosa Maria Ferreira de Souza, psicoterapeuta do Centro de Orientação Familiar, (41) 3323-1199.
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