Saúde e Bem-Estar

Tevê engorda

Érika Busani
10/09/2007 00:31
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Um estudo feito em 13 países da Europa estabeleceu uma correlação direta entre a propaganda com alimentos ruins na tevê e o aumento do IMC (índice de massa corpórea) das crianças. (Foto: Bigstock)

A família X* – assim como grande parte das famílias hoje – costuma jantar em frente à televisão, que permanece ligada enquanto há gente circulando pela casa – mais precisamente o dia todo. À mesa, todos ficam posicionados em lugares estratégicos para enxergar a telinha. Em tratamento de obesidade desde os 3 anos, E.X., hoje com 7, segue o costume da casa e da mesa vai para o sofá, onde fica até a hora de dormir.
“A gente sabe que é errado comer vendo tevê, mas ela está ali, né?”, comenta a mãe, M.X.. “Nossos hábitos não mudaram, mas deveriam, porque seria mais fácil para ele”, reconhece. A mãe tem razão em três sentidos: mudar hábitos é difícil; quando a família acompanha, a criança emagrece com mais facilidade e a tevê é uma das maiores vilãs do sobrepeso e da obesidade infantil.
Não só pelo óbvio sedentarismo em frente à telinha. Uma boa parte da propaganda dirigida às crianças é de alimentos. E não são frutas e verduras que figuram entre imagens sedutoras, mas bolachas recheadas, sanduíches, salgadinhos, tudo com altos teores de gorduras e calorias e sem os nutrientes essenciais para a saúde. “Um estudo feito em 13 países da Europa estabeleceu uma correlação direta entre a propaganda com alimentos ruins na tevê e o aumento do IMC (índice de massa corpórea) das crianças. Essa relação era inversa quando as propagandas eram saudáveis”, afirma a endocrinologista Rosana Radominski, presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia regional Paraná e responsável pelo Ambulatório de Obesidade Infanto-Juvenil do Hospital de Clínicas do Paraná (HC).
Também tem outra questão: em frente à tevê, não se presta muita atenção ao prato. “Além de comer mais rápido, mastiga-se errado e come-se mais”, atesta a médica e nutróloga Beatriz Helena Manzochi. E os petiscos não são lá os mais magrinhos…
“Existe uma relação forte entre mais de três horas diárias de tevê, computador e videogame e obesidade infantil”, informa Rosana Radominski. O dado torna-se mais preocupante quando comparado aos números do Painel Nacional de Televisão do Ibope: as crianças brasileiras são as recordistas em horas em frente à tevê – e ficam cada vez mais diante da telinha. Foram 4h51min19s diários em 2005. Um ano antes, eram 4h48min54s. E isso não inclui o tempo que passam também sentadas em frente ao computador e ao videogame.
Para completar o quadro, em 95% dos casos, as causas da obesidade infantil são o sedentarismo e a alimentação. É claro que o fator genético também pesa nessa conta: ter um dos pais acima do peso significa 40% de risco do filho ir para o mesmo caminho. Quando são pai e mãe, a chance chega a 80%.
Mudar hábitos pode ser difícil, mas é necessário. “A família é tudo, é o exemplo. Se o ambiente em que essa criança vive não muda, não há tratamento que dê resultado”, alerta a endocrinologista. É uma cultura que precisa ser mudada. “Obesidade não mata na infância, mas na vida adulta. Por isso, muitas vezes os pais não vêem problema no excesso de peso”, completa.
Para a psicóloga Jandyra Kondera Mengarelli, do Serviço da Unidade de Endocrinologia Pediátrica do HC, não se muda um comportamento sem refletir na contribuição que temos no problema. “Se os filhos determinam o que, quando, quanto e onde vão comer só o fazem porque alguém está permitindo de alguma forma. Não adianta ‘implorar’ que o filho se conscientize quando a geladeira ao lado está farta de refrigerantes e a despensa oferecendo bolachinhas ao alcance da mão e da satisfação. Se os pais não regulam a tevê, se os pais não regulam a comida, se os pais não regulam as atividades, enfim se os pais deixam de ser pais, a obesidade pode ser uma conseqüência.”
* A família preferiu manter os nomes em segredo.
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Serviço
Beatriz Helena Manzochi (médica nutróloga), fone 3022-0138 / Ingrid Fabian Cadore, coordenadora da brinquedoteca da Associação Serpiá, fone (41) 3015-2045 / Jandyra Kondera Mengarelli (psicóloga), fone (41) 3262-3837 / Rosana Radominski (endocrinologista), fone (41) 3360-1800, r. 6374 e 6375.