Saúde e Bem-Estar

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Jennifer Koppe
21/01/2007 23:32
jenniferk@gazetadopovo.com.br
Apesar de ser quase uma cinqüentona, Barbie, a boneca mais vendida do mundo, ainda é objeto de polêmica entre pais e educadores. Criada nos anos 30 pelo casal Ruth e Eliot Handler, fundadores da empresa de brinquedos Mattel, foi uma homenagem à filha Barbara, também chamada de Barbie, que adorava brincar com velhas bonecas de papel que trocavam de roupa. Mal podiam imaginar que em 1959, ano de seu lançamento, seriam vendidos mais de 300 mil exemplares e que a Barbie se tornaria não só um sucesso de vendas, como também um ícone pop, uma referência cultural.
Na época e ainda hoje, a boneca de plástico – com traços de mulher e medidas mais que perfeitas – é acusada de impor um padrão de beleza irreal e estimular a sexualização precoce entre meninas que antes brincavam de “mamãe e filhinha” com bonecas de pano.
De fato, se analisarmos a Barbie com os olhos de um adulto, ela representa o estereótipo de uma mulher sedutora e bem-sucedida por sua aparência. Mas será que essa mesma mensagem é compreendida por crianças e tem poder suficiente para alterar o comportamento delas?
Para a psicóloga Verônica Fleith, especialista em Educação Infantil, não foi a Barbie que estabeleceu ou impôs este padrão. “Precisamos lembrar que a boneca é somente um produto cultural, ao lado de tantos outros, que refletem valores e ideais da sociedade pós-moderna. Tal condenação não se faz necessária se os adultos próximos à criança estiverem atentos a sua função de educadores, e conscientes de que é necessário incentivar outros ideais além daqueles tão propagados pela cultura do consumo, tais como a busca da eterna juventude e da beleza perfeita”, explica.
Verônica é mãe de duas meninas que adoram Barbies – Lorena, 11 e Natália, 2 – e percebe entre elas, diferentes formas de se relacionar com a boneca. Ela explica que a partir dos 3 anos de idade, a criança brinca de faz-de-conta e se projeta para o mundo adulto. Ela pode desejar ser uma professora, uma heroína ou uma princesa. Já as meninas mais novas costumam imitar o mundo adulto. Por isso, a brincadeira com bonecas que se parecem com elas, como os bebês, são mais atraentes.
A doutora em sociologia Miriam Adelman, professora do programa de pós-graduação da UFPR e especialista em Gênero, também não concorda com a “crucificação” da Barbie. Afinal de contas, ela acompanhou as transformações sociais e hoje não é mais uma submissa dona-de-casa que só pensa em moda. Hoje ela é independente e ativa. Chegou a se candidatar à presidência dos Estados Unidos e até já se separou do Ken, em busca de um novo amor (felizmente, eles reataram). Ela também não é mais apenas uma lourinha de olhos azuis. Pode ser negra, ruiva, indiana, árabe, japonesa…
Para Miriam, a preocupação maior dos pais deve ser com a dicotomia que existe entre brinquedos para meninas e para meninos. “A diferença nas roupas, nos brinquedos e nas atividades voltaram a ser enfatizadas e esses estereótipos são horríveis. Condenamos qualquer desvio de comportamento. Os meninos podem correr, se sujar, ralar os joelhos, mas não podem brincar de casinha. Já as meninas não podem ter cicatrizes, não podem estragar o vestido. A feminilidade se tornou a estética da limitação”, explica.
De acordo com um artigo do The New York Times, “What’s Wrong With Cinderella?” (O Que Há de Errado com a Cinderela?), escrito em dezembro de 2006 por Peggy Orenstein, “não existem estudos que comprovem que brincar de princesa prejudica a auto-estima ou desestimula outras aspirações. Por outro lado, existem provas de que mulheres com pensamentos femininos convencionais – as que evitam entrar em conflito e que acham que devem estar sempre bonitas e bem-vestidas – são mais afetadas pela depressão e tendem a não usar métodos contraceptivos. Além disso, a diminuição do interesse de 23% das meninas americanas por esportes nos ensinos fundamental e médio está relacionada com o fato de acreditarem que a prática de esportes é uma atividade masculinizada”.
Miriam, que é mãe de dois meninos, afirma que se tivesse uma filha, não a proibiria de ter uma Barbie, mas oferecia outras opções. “Eu daria a ela uma Barbie, mas também um caminhão, um cavalo, uma bola… Meninos e meninas precisam brincar juntos e elas precisam de liberdade para estimular atitude e criatividade. Precisam estar no mundo para desenvolver as suas competências e não apenas para ser objetos do olhar alheio”, completa.
Serviço: Miriam Adelman (socióloga), miriamad@ufpr.br / Verônica Fleith (psicóloga), (41) 3264-5436.