Saúde e Bem-Estar

Um tapinha dói, sim!

Érika Busani
30/04/2006 23:57
erikab@gazetadopovo.com.br
Bater em outro adulto é agressão. Em um animal, crueldade. Em criança, sob o pretexto da “educação”, é permitido. E não se fala em covardia, no fato de que qualquer adulto que queira bater em uma criança será bem-sucedido, dada a diferença de porte físico.
Hoje aguardando deliberação da mesa diretora da Câmara Federal para ser votado em plenário, o Projeto de Lei n.º 2654 de 2003, que ficou conhecido como Projeto da Palmada, proíbe qualquer tipo de violência perpetrada por pais, responsáveis ou educadores, mesmo sob a alegação de que seja usada para educar.
O projeto deu o que falar. Muitos pais e até alguns profissionais vieram a público para defender o chamado “psicotapa”. Não é para menos, já que a palmada faz parte da cultura nacional há 500 anos. Os índios repudiavam o ato de bater nas crianças e a punição física chegou ao país com os padres jesuítas.
A crença de que a palmada funciona como meio de educar é fomentada principalmente porque, de imediato, ela dá resultado. “A criança pára de fazer na hora o que está fazendo, por causa da dor. Mas ela não aprende o que fez de errado. Hoje está provado cientificamente que a longo prazo ela não funciona”, garante a doutora em Psicologia Lidia Weber, coordenadora de Núcleo de Análise do Comportamento e do Projeto Criança da UFPR.
A criança que apanha aprende a ter medo. “Se apanho porque não posso abrir a geladeira só não abro quando tiver alguém olhando. Quando não tiver ninguém por perto, a coisa mais gostosa de fazer vai ser abrir a geladeira”, exemplifica a pediatra Luci Pfeiffer, presidente do Departamento de Segurança da Criança e do Adolescente da Sociedade Paranaense de Pediatria.
Além disso, bater nos filhos é considerado um comportamento de risco para surras cada vez mais violentas. “Como não funciona, os pais tendem a bater cada vez mais”, afirma Lidia. Filhos que desafiam falando “não doeu nada” tendem a apanhar mais. Batendo, também se ensina que poder e violência podem resolver problemas – que poderiam ser solucionado através do diálogo – além de humilhar a criança.
“No emocional, a palmada pode deixar marcas muito mais perversas que no físico”, diz Luci. Auto-estima rebaixada, agressividade, depressão, ansiedade, pessimismo, dificuldade para lidar com figuras de autoridade são conseqüências mais que prováveis. “Ninguém precisa sentir dor para aprender. Pais ensinam através do que falam, do exemplo.” E para aqueles que “já cansaram de falar”, Luci lembra que é preciso repetir muitas vezes para a criança – que tem uma curiosidade saudável por descobrir o mundo. As muito pequenas ainda não entendem a relação causa-efeito. “Não é causando outra dor que vamos ensinar. O papel dos pais é tapar a tomada”, reforça. “A primeira mensagem que você deve passar para seu filho é que você o ama”, lembra Lidia.
Você que é mãe ou pai, reflita: crianças que nunca desafiam as regras podem ser mais problemáticas que as “de personalidade forte”. “Não precisamos só de crianças obedientes, que dizem sim para tudo. Essas podem, no futuro, dizer sim a um abuso sexual”, adverte Lidia.
Serviço: Luci Pfeiffer (pediatra), fone (41) 3222-7878. O Núcleo de Análise do Comportamento da UFPR oferece curso gratuito para pais. Informações, fone (41) 3310-2669.