Saúde e Bem-Estar

Uni, duni, tê

Érika Busani
16/07/2006 23:31
erikab@gazetadopovo.com.br
Não há monotonia na casa da arquiteta Patrícia Boechat Errera, 35 anos, e do professor universitário Marcelo Errera, 38. Os filhos Sofia, 6, Hugo, 4 e Victor, 2, se encarregam de tornar os dias sempre diferentes.
Uma casa cheia de crianças é mesmo um lugar alegre, divertido, mas com muitos desafios. E cada vez mais incomum. Bem humorada, Patrícia coleciona histórias de pessoas que adoram dar palpites. Como a da mulher que a encontrou no elevador, grávida de Victor. “Terceiro!?”, espantou-se. “Agora chega, né?”, intrometeu-se. E nem era uma amiga íntima: Patrícia nunca havia visto a mulher na vida. E depois que o caçula nasceu, a arquiteta foi cobrada diversas vezes a dar explicações sobre o que estava fazendo para evitar mais filhos. “Tudo o que foge dos padrões, as pessoas cobram. A individualidade fica em segundo plano”, diz.
E o padrão hoje é filho único, no máximo dois. “É cansativo, mas é um projeto de família. Sempre quis ter três, em idades próximas. Eles são superamigos e é uma delícia vê-los brincando juntos”, garante.
A psicóloga Fernanda Roche, especialista em Educação Infantil, tem visto dois principais motivos para os pais decidirem ter apenas um filho. O primeiro é a preocupação em dar tudo. “É preciso deixar faltar, para a criança aprender a lidar com a frustração. Nada do que os pais comprem vai substituir a oportunidade do filho ter de dividir pai e mãe. É difícil, um sofrimento que faz crescer enormemente.”
Outro é o medo de não amar tanto o segundo filho quanto o primeiro. “Para isso, respondo que não vai mesmo amar igual, mas diferente. Cada criança se insere na família de uma maneira muito própria e isso de que os pais amam todos os filhos da mesma forma é um mito. A grande riqueza de ter mais de um filho é que cada um é único.”
Brigas
Dividir afetos e bens – brinquedos, no caso – é apenas um dos aprendizados das crianças de famílias maiores. “Irmãos ensinam a brigar. A criança que não tem irmãos não sabe a dinâmica da discussão: colocar seu ponto de vista, ceder. É uma experiência fundamental para se colocar melhor na sociedade”, lembra a pediatra homeopata Tami Kawase Seitz. “Nas famílias maiores, o jogo é muito mais interessante, as opiniões são variadas, é tudo muito mais rico”, completa.
Para Patrícia, a troca entre os filhos vai além: “É muito legal ver o que um aprende com o outro. Um é mais carinhoso, emotivo e acaba despertando isso no outro.” Claro que nem tudo são carinhos e brincadeiras. “Eles se estranham para aprender a dividir. Para exercitar isso, muitas vezes compramos um brinquedo para os três. No começo, há disputa, mas depois eles mesmos começam a se organizar”, conta.
Mas não vamos ser como aquelas pessoas do início dessa matéria, que se metem na vida de todo mundo. Filho único é uma opção, tão válida quanto dois, três, quatro ou nenhum. Tudo depende da disponibilidade de tempo e da estrutura para criar e educar uma ou mais crianças.
Serviço: Fernanda Roche (psicóloga), fone (41) 3232-4837, site www.criancaemfoco.com.br.