Saúde e Bem-Estar

Véu sobre a mente

Daniela Neves
02/11/2008 02:55
Em uma avaliação neurológica foi detectado um déficit de atenção e ele passou a ser tratado com medicamentos fortes. Não adiantaram. Acreditando que Arthur tinha outro problema, a mãe, Andrea Camboin, procurou pedagogos, psicólogos e outros especialistas, que em conjunto detectaram que, além do déficit de atenção, ele tinha dislexia.
Foi um longo caminho mas, há dois anos, com o problema diagnosticado e o acompanhamento do caso, Arthur está conseguindo se desenvolver bem na escola, tendo o domínio da linguagem falada e escrita. “Além da questão educacional, o psicólogo trabalha a auto-estima dele. Com a dificuldade de interagir, a criança acaba sendo rotulada e precisa saber superar isso”, diz Andrea.
Alfabetização
A dificuldade para ler e escrever é a principal característica dos disléxicos. Por isso, o problema costuma vir à tona quando a criança entra no primeiro ano do ensino fundamental. A disfunção pode ser em diversos níveis. Para alguns é praticamente impossível ler e escrever. Eles chegam na adolescência sem conseguir ser alfabetizados e ainda sofrem com dificuldades de memória. Mas há outros casos mais leves que aparecem com troca de letras e uma pequena dificuldade na leitura.
Os pesquisadores da área divergem sobre as causas da disfunção. Uma linha defende que o problema é genético e hereditário, causado pela falha de uma região do lado direito do cérebro que trabalha a leitura e a escrita. Para outros, a dificuldade maior na alfabetização não é causada por patologia, mas está ligada a questões sociais. A pressão para uma alfabetização rápida causaria fobia da leitura e da escrita.
O fato é que os pais ficam sem saber como agir quando o filho têm dificuldades de alfabetização. E, no caso da dislexia, nem sempre a disfunção é facilmente detectável. A tendência é associá-la à desatenção, desmotivação, condição sócio-econômica e baixa inteligência. As crianças com essa dificuldade por muitas vezes são agitadas e ainda podem ser confundidas com hiperativas. “Imagine colocar um brasileiro em uma sala de aula no Japão e pedir para que copie o que está no quadro, sem entender nada do que está escrito. Ele provavelmente vai ficar incomodado e começar a se mexer. É isso que acontece com uma criança disléxica”, diz Mônica Luczynski, psicopedagoga e pesquisadora voluntária do centro de Neuropediatria do Hospital de Clínicas da Universidade Federal do Paraná (UFPR).
Mônica e sua família pesquisam a disfunção há quase 30 anos porque vivenciaram esse problema. Ela tem dois irmãos e uma filha disléxicos. “Um dos meus irmãos é um ano mais novo do que eu, tem 46 anos. Estudamos na mesma escola, mas ele sofreu um processo diferente, não conseguiu desenvolver a escrita e a leitura. Nós, na época, em 1980, não sabíamos o que fazer. Os dois (irmãos) foram para os Estados Unidos e lá veio a palavra dislexia”, conta.
Para Mônica, a dislexia é uma doença que pode ser contornada. Deve ser diagnosticada e tratada de forma multidisciplinar por psicólogos, fonoaudiólogos e psicopedagogos. Depois de cem horas de exercícios com o cérebro, segundo a psicopedagoga, na maior parte dos casos a pessoa começa a responder da maneira convencional, a ler fluentemente e a compreender o texto.
Para Giselle Massi, doutora em Lingüística pela UFPR, a dificuldade não deve ser tratada como doença. “Não creio que seja um problema individual e sim um conjunto de problemas sociais que causa a dificuldade de alfabetização. Todas as crianças precisam ser inseridas no mundo da leitura e da escrita como algo prazeroso e não com a pressão para que aprendam de maneira rápida”, diz. Para Giselle, a leitura e a escrita nunca devem ser passadas como tarefas obrigatórias.
Apesar das divergências, as duas especialistas dizem que os professores do ensino fundamental não estão preparados para trabalhar com crianças que têm dificuldade de aprendizado e, por isso, a ajuda de especialistas é importante para desenvolver as potencialidades da criança e tirar dela o medo e os demais problemas relacionados com a escrita.
Serviço
Mônica Luczynski (psicopedagoga clínica), fone (41) 3242-8589. Livro: Facilitando a Alfabetização – Multissensorial, Fônica e Articulatória, de Maria Angela Nogueira Nico e Áurea Maria Stavale; Ed. ABD (Associação Brasileira de Dislexia). R$ 120 e R$ 102 (associados ABD) + frete. Informações, fone (11) 3258-7568.
danielan@gazetadopovo.com.br