Histórico

Casamento na ponte aérea

Adriano Justino
28/08/2006 01:50
Depois de acordar no meio da noite em um avião em queda livre sobre o Atlântico, passei a ter medo até de entrar em aeronaves paradas. Com o passar do tempo, e quase sem escolha, decidi que não poderia viver assim, como o meu tio (de quem eu provavelmente herdei a propensão ao pânico de voar), que nas férias percorria 1,4 mil quilômetros entre Brasília e Curitiba em um Dodge sem ar condicionado e com três crianças a bordo.
As viagens de avião deixaram de ser uma escolha e passaram a ser uma necessidade quando conheci o meu marido, na festa de despedida dele, a dois dias de se mudar para São Paulo. Nos víamos todos os finais de semana. E lá ia eu para o aeroporto, a cada quinze dias. E teve de tudo: sobrevôo sobre São Paulo por causa do tráfego aéreo – o que significou duas horas a mais dentro da aeronave –, avião arremetendo e pouso em Florianópolis por falta de teto.
E é nessas horas que você percebe como as companhias aéreas tentam te enrolar: cheguei a ouvir que, na espera, no ar, por um espaço no chão, poderíamos tomar um drinque “no happy-hour da companhia aérea, a sua melhor hora do dia”.
Alto lá, tomar uma cerveja a 9 mil pés definitivamente não é a melhor hora do meu dia! E não venham me dizer que sou a única a não gostar de voar. Por que então que todos no avião ficam em silêncio na hora da decolagem? E por que eles ficam tentando nos distrair com revistas, filmes e lanchinhos? E o pior, por que será que as pessoas não gostam muito de andar de Fokker-100? Afinal, que importância tem um reverso com defeito, um passageiro com uma bomba ou uma portinha que cai?
Quando decidi me mudar definitivamente para São Paulo achei que cessariam as viagens. Fiz muito o trajeto pela Régis Bittencourt, que até para os que têm medo de avião é uma péssima escolha, com barreiras que caem, óleo na pista e pontes que desabam. O auge das viagens rodoviárias foi quando estava grávida em São Paulo, mas fazia o pré-natal em Curitiba.
As viagens de ônibus deixaram de ser viáveis quando tive o meu filho. É quase impraticável viajar por seis horas com um bebê dentro de um ônibus. E lá íamos nós visitar a família, de São Paulo a Curitiba de avião, com direito a furar a fila do embarque e entrar primeiro, sentar na frente, e correr o risco da choradeira na hora da decolagem e da ida ao banheiro na hora do pouso, sem falar no suco derramado na gravata do executivo que senta na poltrona ao lado.
Até que, ano passado, nos mudamos, em definitivo, como diz o locutor de futebol, para a capital paranaense. Caminhão de mudança, venda de apartamento, e ufa, fim de viagens constantes de avião.
Foi um ano de felicidade, sem tirar os pés da terrinha. Até que o meu marido, que não é militar, é jornalista mesmo, foi convidado a trabalhar mais uma vez em São Paulo. E a rotina de viagens recomeçou. Mas desta vez o problema é ainda maior. Envolve uma nova modalidade de casamento, o casamento à distância, já que eu e o nosso filho ficamos em Curitiba.
Além de ter que viajar sempre, tento, há oito meses, administrar a nova configuração familiar. Já procurei nas prateleiras das livrarias e nas listas de best-sellers alguma literatura que possa me ajudar a sobreviver ao casamento à distância. Não há. Como não tem definição para o estado civil, a não ser “outros”, resolvi batizá-lo de casamento executivo, já que se parece com a rotina dos executivos e das empresas.
O casamento executivo tem horário de expediente, precisa de planejamento estratégico e funciona melhor com a otimização do tempo. E sua característica mais importante: envolve viagens de avião a cada quinze dias.
Mariana Londres é repórter de Economia e, por uma questão de agenda, não pôde ser fotografada com o marido para esta coluna.
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