Histórico

Conversa de táxi

Giovani Ferreira
26/08/2007 22:36
Política, clima e futebol são conversas quase que inevitáveis dentro de um táxi. O passageiro nem sempre está disposto a ouvir, mas levante a mão quem já não contratou uma corrida e acabou questionado pelo motorista sobre o time do coração, emprestou seus ouvidos para um desabafo do taxista ou então engrossou uma crítica ao presidente Lula.
Mas dia desses, numa viagem a trabalho, a exceção prevaleceu e a regra deu lugar a uma experiência surpreendente. Em pleno centro de São Paulo, embarco num táxi rumo ao aeroporto de Congonhas. Na direção, um senhor negro, de cabelos brancos e corte ralo. A primeira pergunta: “o senhor é jornalista?” Ele não era nenhum tipo de vidente ou adivinha – não acredito nessas coisas –, apenas deduziu. Quando cheguei ao ponto, estava acompanhado por um velho conhecido do motorista, o também jornalista Enio Campoi.
Normalmente não tenho muita disposição para diálogos dentro de táxi. Mas naquela ocasião, voltando para casa depois de uma viagem de trabalho produtiva, estava muito receptivo. Questão de estado de espírito. Sabe aqueles dias em que tudo dá certo? Era o caso, não fosse um caixa eletrônico ter desafiado minha paciência e me roubado em R$ 250. Mas essa é outra história. O que importa é o fato de eu ter baixado a guarda e permitido que a conversa prosseguisse. O motorista então percebeu a minha gentileza e disparou uma segunda pergunta. – O senhor sabe me dizer o que significa ter massa crítica? Como tinha dito que era jornalista, pensei rapidamente que tinha obrigação de responder, sob pena de prejudicar a imagem da categoria.
Disse a ele que massa crítica significa ter um olhar diferente sobre as coisas. É a capacidade de interpretrar situações e informações a partir de seus princípios, conceitos e do seu próprio conhecimento. Reconheço que a resposta não é nenhuma Brastemp, mas naquele momento foi o que me ocorreu. O importante é que não apenas convenceu, como empolgou. Meu interlocutor emendou um novo questionamento, agora sobre que tipo de literatura me agradava. Antes de responder, pensei: a conversa está boa, mas está ficando difícil, e para não me complicar preciso reverter esse inquérito. Lembrei então do livro que estou lendo, Médico de Homens e de Almas, da escritora norte-americana Taylor Caldwell. Ela conta a história de São Lucas, tratado pela escritora como Lucano, um dos evangelistas.
Foi então, disposto a interromper aquela bateria de perguntas, que disparei: – E o senhor, gosta de ler? No começo achei que ele estava zoando, com a história de um livro sobre crianças índigo. Nunca tinha ouvido falar disso. Mas ele tratou do assunto com uma riqueza de detalhes que mais tarde fui pesquisar e descobri que o tema procede. Entre as definições mais práticas que encontrei está a de que a criança índigo reúne um incomum conjunto de atributos psicológicos. De comportamento sui generis, elas também são sensíveis, amorosas, talentosas e intuitivas. Naquele momento eu não sabia, mas isso tem relação com o espiritismo. De qualquer maneira, quis então saber qual era a sua religião. Senti um pouco de insegurança na resposta, mas ele disse que era adepto do ecumenismo, mas com base católica. Quando falei que eu era católico, mais do que depressa ele pediu para eu ouvir uma música, interpretada pelo padre Marcelo Rossi, chamada “Noites Traiçoeiras”. Ele alertou, porém, que a música o fazia chorar. Você não vai acreditar, mas seus olhos encheram-se de lágrimas e ele disse: – Foi Deus quem colocou o senhor neste táxi.
Mas quem era essa figura, que transformou uma corrida de 20 minutos numa viagem literária e, porque não dizer, imaginária. Quando procurei descobrir um pouco mais sobre ele, a surpresa foi ainda maior. O taxista, de nome Vicente Carlos, se revelou um personagem das ruas de São Paulo. Com apenas oito dedos – perdeu dois da mão esquerda na época de torneiro mecânico –, ele é conhecido entre os clientes e colegas de profissão como Sete. O apelido, na verdade, nada tem a ver com os dedos, mas faz referência a um criminoso famoso chamado Sete. Mas ele não se incomoda. Ao contrário, diz que o número é bíblico e tem espiritualidade.
Para resumir, o Sete tem oito dedos, 58 anos – embora pareça ser mais velho –, pinta de boa praça e, o mais interessante, não fala de política, clima e futebol. Para quem quiser conferir a história e conhecer o senhor Vicente Carlos, o Sete, o seu ponto de táxi fica na Rua São Luiz, quase esquina com a Consolação, centro de São Paulo, em frente ao Hotel Eldorado.
Sobre a história do caixa eletrônico, o problema já foi resolvido. Quando cheguei em São Paulo, pelo Aeroporto de Congonhas – antes do acidente –, tentei fazer um saque em um terminal com a bandeira Banco 24 horas. O valor foi debitado em minha conta corrente, mas o caixa não liberou o dinheiro. Conclusão: depois de duas semanas, dezenas de ligações e muitos 0800, meu dinheiro foi devolvido.
Moral da história: começar mal não quer dizer que tudo vai dar errado. Meu dia não começou bem, mas foi produtivo e terminou de forma inusitada. Basta, muitas vezes, apenas estar disposto a ouvir.
Giovani Ferreira é editor Agronegócio
giovanif@gazetadopovo.com.br
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