Histórico

Ex-marido no sofá

*Érika Busani
25/12/2010 02:04
“Por que vocês se separaram?” A pergunta, feita mil vezes pelo meu filho, frequentemente é repetida por colegas, amigos ou gente que mal conheço.
Fico pensando se há uma resposta possível. Imagino que quem pergunta quer ouvir algo definitivo, incontestável. “Ele me traiu”. “Era violento”. “Vendeu meu carro e sumiu com a grana”.
Mas não. Nem a clássica “o amor acabou” se encaixa. Como deixar de amar o pai – ou a mãe – de seus filhos, alguém que compartilhou de seus piores e melhores momentos durante anos? O amor apenas se transforma. É a resposta que dou ao meu filho, mesmo sem crer que ele a entenda por enquanto.
Uma vez entrevistei um “ex-casal” que fazia questão de manter uma sólida amizade. Almoçavam juntos toda semana. Faziam programas a quatro, eles e os novos parceiros. Todos se davam bem. Achei aquilo o máximo da civilidade e decidi que, se um dia me separasse, queria que fosse assim.
Meu casamento acabou poucos anos depois. Ainda não chegamos ao ponto de trocar confidências sobre nossas vidas amorosas, mas temos uma relação de confiança e apoio mútuo. Devido muito mais à generosidade dele do que ao meu esforço, confesso.
Sem a pressão da rotina e das mágoas provenientes da relação amorosa, conseguimos conversar com muito mais franqueza e liberdade sobre diversos assuntos, incluindo a educação do nosso filho – ponto de atrito nos tempos do casamento.
E dar risada juntos, seja do passado ou do presente. Como as vezes em que ele almoça lá em casa e tira um cochilo no sofá. Ex-marido no sofá? É, no mínimo, diferente. Para não dizer cômico mesmo.
Mas não consegui ainda satisfazer a curiosidade – ou a inquietação – alheia. O mais próximo que cheguei da verdade (ela existe?) foi: “nunca é uma coisa só”. Essa tem sido a minha resposta.
Ps: Ju, sempre haverá um sofá lá em casa pra você.
*Érika Busani é jornalista.