Histórico

“Não sou desse mundo”

Adriano Justino
21/01/2007 23:37
Você acha normal chegar no seu trabalho, cumprimentar um colega e não receber resposta? Acha normal entrar no elevador do seu prédio e não desejar um bom dia para o seu vizinho? E que tal andar na rua jogando lixo pelo chão? E no trânsito, não permitir que outro veículo entre na sua frente porque ele precisa fazer uma conversão logo adiante?
Eu acho que nada disso é normal. Na verdade, muitas vezes eu penso que não sou desse mundo ou talvez que nasci numa época errada. Numa época em que só o que vale é se dar bem na vida, a qualquer preço. Quando ser educado e prestativo é careta. Ser simpático com seus colegas e vizinhos é demonstração de fraqueza. O bonzão é aquele que chega olhando para todo mundo de cima. Afinal, dizem que você tem que convencer os outros de que é o máximo.
Tudo bem, posso estar exagerando. Também quem foi que disse que todo mundo tem de acordar todos os dias de bom humor e sair distribuindo sorrisos? Ninguém está livre de um dia ruim, daqueles em que nada dá certo e que o que você menos quer é bater papo com o vizinho.
Para essas situações, criei uma estratégia de comportamento. Entro no elevador e se tiver alguém eu cumprimento, mas a conversa termina por aí. A caminho do trabalho e ao chegar eu respondo aos cumprimentos e não deixo de dizer um “oi” para aqueles com quem trabalho diretamente. Evito provocar situações que exijam diálogos mais longos. E assim vou tocando meu dia ruim. Penso que se me fechar completamente vai demorar ainda mais tempo para aquela nuvem negra sair de cima da minha cabeça.
Há quem pense que esta preocupação é desnecessária. Eu não acho. Para mim, é sempre mais fácil e prazeroso pegar o mesmo elevador do que o vizinho e pelo menos dizer “oi” do que ficar fazendo de conta que tem algo mais para fazer na garagem e esperar o próximo elevador.
Se vivemos em sociedade e compartilhamos espaços podemos fazer um pequeno esforço para tornar os nossos dias melhores. Cumprimentos, sorrisos e oscilações de humor sob controle são fundamentais para viver melhor.
E você que acredita que pode viver sozinho, sem olhar para o lado e dividir um sorriso com alguém, deixe-se contagiar pela magia que é viver em comunidade, compartilhar. A única coisa desagradável que pode acontecer, nesse caso, é você encontrar pessoas que ainda não fizeram a mesma descoberta.
Viviane Favretto, repórter de Brasil, já disse muitos “ois” e “bons dias” que ficaram sem resposta. Mas vai continuar tentando.
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