Os automóveis são um dos principais símbolos do século 20 – e vão continuar sendo no século 21. Há de chegar o dia em que teremos todos um carro igual ao dos Jetsons e seremos mais felizes. Enquanto isso, muito gente gasta um bom naco do salário para pagar o consórcio do simpático 1.0 16V – e vai orgulhoso da vida à Love Lanches.
Mas os tempos gloriosos dos “carros voadores” não precisam chegar – o treco-automóvel já marcou definitiva e profundamente época. Revolucionou a indústria; mudou para sempre o sistema de transporte; encurtou distâncias; o efeito estufa deve-lhe um favorzão; boa parte do planeta virou estrada, ponte ou viaduto só para deixar o bicho andar; o petróleo, o Rubinho e o Schumacher não seriam os mesmos sem ele… O Rubinho poderia, inclusive, ter encontrado profissão mais adequada.
Enfim, ninguém com menos de 90 anos e que viva numa comunidade com mais de 300 habitantes viu a vida sem o dito cujo.
A despeito de toda essa marcante presença, um dos aspectos mais curiosos sobre os carros é a sua incrível capacidade de transformar homens e mulheres em verdadeiros bocós-de-mola. Só pode ser algum gás ainda desconhecido que escapa da combustão da gasolina, do álcool ou do diesel, invade o receptáculo e afeta fortemente o comportamento do bicho-motorista. Talvez esses efluvios tenham uma estranha alteração química quando submetidos a uma pessoa que está com as mãos num volante e o pé num acelerador.
O que mais explica que uma caixa com motor, rodas e direção – ok, tudo isso recheado de um monte de tecnologia de ponta – faça respeitáveis senhoras vociferarem de dedo em riste para algum transeunte que ousou passar à sua frente? Ou então um vetusto senhor dispare impropérios por conta de três segundos que o rapazinho da frente ficou parado a mais quando o sinal esverdeou? Mais e pior: por que quase todo mundo finge que não vê a placa de “proibido estacionar” ou “estacionamento permitido somente para portadores de deficiência”? Por que cargas d’água os tigrões botam no seu possante um sistema de som que poderia embalar um baile na Ilha Fiscal? (Tudo bem, gosto é gosto, mas para ouvir o que costumam ouvir?!?)
Pior, muito pior: o que leva um grupo de jovens a disputar rachas, conscientes de que podem atropelar uma família inteira no meio da “diversão”? Como um cara inteligente como o nosso Rogério Galindo (veja Peteca de 12/11/2006; vale a pena) não consegue sincronizar o botão da garagem automática, o chiclete, o acelerador e a embreagem? (Juro, ele é perfeitamente capaz de lidar com mais variáveis juntas do que essas quando está fora de um automóvel.)
Tenho uma pista: porque o ser humano não perde uma chance de fazer caquinha. E o carro lhe deu “n” chances disso. Nesse aspecto, os automóveis são um belo espelho da, digamos, condição humana. Da qual se deduz que bocozice é democrática e não discrimina raça, sexo, posição social, idade e cor da unha. As melecas são produzidas em grandes escalas por motoristas do Jaguar último tipo e pelos encaveirados pilotos do Del Rey 82 sem lanterna traseira direita. Daí também dá para deduzir que a bocozice é mais forte que o dinheiro e a suposta melhor educação formal que a turma do Jaguar deveria ter recebido.
Tem saída? Deve ter. Dizem que o trânsito no Japão era muito pior que o brasileiro, mas regras e fiscalização deram um jeito nele. Por aqui, temos as duas coisas – uma um pouco melhor que a outra. Mas os bocós parecem ser bem resistentes. Além disso, muitas vezes dá-se um jeitinho de escapar da multa. E quem há de resistir a mostrar ao mundo que ampliou a potência da caixa de som que ocupa todo o porta-malas?
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