Sempre teve orgulho do filho na escola. Chegava a levar o boletim sempre recheado de notas azuis para os amigos verem. “Se meu guri estudasse um terço do que o teu estuda, eu não teria tanta dor de cabeça. Aquela praga!”, exagerava um colega de escritório mais afoito.
O pai sonhava. Se fosse médico, o filho seria um cirurgião renomado, do tipo fonte de entrevistas. Como advogado, um exemplo de competência, lisura e ética. “Hoje perdemos Pedro Henrique Gonçalves de Almeida, um grande nome da jurisdição”, diria um grande jurista à beira do caixão no enterro do menino.
Até nome de profissional renomado já tinha: Pedro Henrique Gonçalves de Almeida. Pomposo e comprido, como os das colunas sociais que o pai lia. Faltava apenas um doutor na frente – coisa de pouco tempo.
Apesar do futuro promissor, o pai só ouvia do guri uma profissão quando questionado sobre o que queria ser: astronauta. No começo até achou graça. Logo tomaria o rumo natural: o sucesso numa carreira tradicional.
O duro é que o negócio de astronauta virou obsessão. Bastou pôr os olhos na tevê com as imagens do astronauta brasileiro para o pirralho afirmar com toda convicção: “Vou ser astronauta!”
No outro dia começou a mudança. De manhã o pai encontra o pequeno na cozinha – arrumado e já tomando café.
– Ué, nem precisei brigar pra te tirar da cama…
– E nem vai precisar mais. Vou ser cosmonauta – respondeu com aquele tom de voz que só as crianças emitem quando querem mostrar que sabem o que falam.
– Não é astronauta?
– Seria se nossa parceria científica fosse com os Estados Unidos. Como é com a Rússia, vou ser cosmonauta. Já ouviu falar em Gagarin? – soltou o guri, cheio de marra.
– Claro que já… Até me lembro desse Gagarin. A nave dele explodiu, a tal de Challenger. Vi no Fantástico… – o menino nem se deu ao trabalho de corrigir.
– Estou vendo mal ou você está comendo frutas e leite? – questionou o velho.
– Um cosmonauta precisa de alimentação balanceada. No vôo, vou ficar muito tempo na mesma posição, o que causa cãimbras. A falta de exercícios no espaço também enfraquece os ossos. Quanto mais cálcio, ou seja, leite, melhor – explicou em tom de aula, como se o pai fosse a criança, não ele.
– Você tem mesmo estudado… – emendou o pai, tentando disfarçar a vergonha em não saber nada daquilo.
– Só estou preparado – respondeu de novo com pedantismo o moleque.
O pai passou a se irritar. “Onde já se viu, tratar um pai assim? Sou frouxo mesmo, deixo esse menino montar.”
Agora, queria é que o guri fosse normal. Umas notas vermelhas não seriam más. Pelo menos teria motivo para repreendê-lo, já que os papéis estavam se invertendo.
Mas o guri se superava. Até o dia em que a diretora chamou o pai à escola.
– Não estamos preparados para ensinar seu filho. Ele está muito acima dos outros. Cita teorias de física e química pros coleguinhas, que não entendem nada…
Agora esse troço ia acabar! Tirou de casa tudo o que lembrasse astronauta, cosmonauta, o raio que parta de “nauta”.
Encaixotou a luneta e o globo. Os gibis de ficção científica deu para a empregada levar aos filhos. Empilhou na garagem todo aquele monte de livros de física e tabelas periódicas – no dia seguinte doaria tudo à biblioteca (“Tomara que os filhos dos outros não queiram ser cosmonautas…”). Agora esse menino vai viver na Terra. Chega de olhar para cima, de nariz-empinado.
Quando o guri chegou, o pai olhou bem no olho dele e disse: “Você não vai ser porcaria nenhuma de astronauta. Vai ser normal!” No outro dia o matriculou numa escolinha de futebol.
O menino cresceu e nunca mais quis saber de livros. Virou jogador. Fala “nós vai” e “a gente fomos”. Assim mesmo o pai está feliz.
Só uma coisa o incomoda. De tanto fazer gol de cabeça, pulando mais do que os zagueiros, rompendo o ar, hoje Pedro Henrique Gonçalves de Almeida, o ex-futuro cirurgião e jurista renomado, é Pedrinho Voador, o Artilheiro das Galáxias…
Marcos Xavier Vicente é repórter da editoria Paraná com o passe emprestado para Esportes até o fim da Copa. Esse texto é dedicado ao amigo Marcelo Nogoseke, que seguiu o caminho inverso ao de Pedrinho Voador: deixou as quadras de vôlei para virar engenheiro aeroespacial, com participação em uma das pesquisas testadas por Marcos César Pontes no espaço.
**********
Peteca ganha um autor da redação da Gazeta do Povo a cada semana. Quer comentar? Então escreva para o colunista. O e-mail está logo abaixo do crédito. Na próxima semana, a Peteca está com Mauren Lucrécia e a ronda policial.
Colunistas
Agenda
Animal


