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Antibióticos demais, proteção reduzida

Amanda Milléo
19/12/2013 02:54
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Quando o paciente chega ao médico com alguma infecção, em 61% dos casos ele sai da consulta com a prescrição de um antibiótico que vai atingir o maior número possível de bactérias no organismo. Apesar de parecer benéfico, os antibióticos de amplo espectro ajudam a aumentar a resistência bacteriana. Por vezes, eles poderiam ser substituídos por medicamentos de espectro restrito com melhores resultados ao paciente. O dado é norte-americano, mas a realidade brasileira não está distante, segundo especialistas daqui.
No estudo publicado em junho no Journal of Antimicrobial Chemotherapy e desenvolvido na Universidade de Utah, os pesquisadores identificaram que um quarto das receitas nos Estados Unidos traz prescritos os antibióticos quinolonas, enquanto 20% indicam os macrolídios e 12%, aminopenicilinas. Os dois primeiros são bastante utilizados em infecções urinárias e respiratórias, respectivamente, e, apesar de terem espectros intermediários, nem seriam precisos quando a causa da infecção é viral.
"Para um paciente que não precisa de antibióticos, qualquer tipo é de amplo espectro", afirma a infectologista do Hospital Nossa Senhora das Graças e do Hospital Sugisawa, Flávia Cunha Gomide Capraro. Já as aminopenicilinas têm espectro mais restrito e são utilizadas também em infecções respiratórias.
A pesquisa aponta ainda que mais de 25% das prescrições são para condições nas quais os antibióticos são raramente indicados. "Os de amplo espectro devem ser reservados para situações em que o objetivo é cobrir diferentes bactérias, situação é mais comum em infecções hospitalares", comenta o infectologista do Hospital Vita, Jaime Rocha.
Para a infectologista e co-diretora do Laboratório Especial de Micro­­biologia Clínica da Universidade Federal de São Paulo, Ana Cristina Gales, realmente ocorre um abuso dos médicos na prescrição de antibióticos mas, quando o paciente é atendido no pronto-socorro e o médico não sabe se o verá de novo ou não tem certeza de qual bactéria está causando o problema, os antibióticos de amplo espectro podem salvar vidas.
"A cada hora que você demora, aumentam em 6% a 7% as chances de mortalidade da pessoa. O antibiótico quinolona, por exemplo, é de muito amplo espectro, pega as bactérias gram positivo, gram negativo, as atípicas, mas poderíamos restringir o uso deste tipo", comenta.
Outro fator que afasta os médicos dos antibióticos mais restritos, segundo o diretor da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), Marcos Antônio Cyrillo, é a demora nos resultados do exame de cultura – que identifica qual bactéria está causando o dano. "Os infectologistas pedem que se faça a cultura e que, na dúvida, consulte um especialista.
Mas, dependendo de onde você está, o resultado do exame de cultura pode levar de três a 10 dias para ficar pronto. Quando não há tempo, o médico se vê obrigado a dar antibióticos de amplo espectro", comenta Cyrillo.
A solução, nestes casos, é que se opte por um antibiótico de amplo espectro no início e, após o resultado do exame, troque o medicamento de acordo com o micro-organismo encontrado – procedimento chamado de descalonamento. E é nesta hora que o paciente tem papel fundamental, questionando se o remédio é de fato necessário e evitando pressionar o médico para prescrever o antibiótico.
"O paciente pode ainda insistir ao médico que peça a cultura para ver qual é a bactéria ou mesmo se é um vírus. O problema é que os pacientes ‘adoram’ usar o antibiótico. Eles lembram que da última vez funcionou, mas não sabem que, se a infecção for viral, ela melhoraria sem o auxílio do antibiótico", explica Flávia Capraro.