Turismo

Belos cenários para desvendar a pé

Fernando Jasper
11/11/2010 02:05
As principais atrações estão localizadas em torno de um eixo de 2,5 quilômetros, que tem nos extremos a Torre de Pólvora, na margem direita do Rio Vltava, e o Castelo de Praga, no lado oposto. O fluxo de turistas é intenso, mas você dificilmente vai se incomodar. Até atravessar a rua é tranquilo, pelo menos nas vielas irregulares do centro, onde os motoristas são condescendentes mesmo com os pedestres mais vagarosos.
A “cidade das cem cúpulas” te­­ve origem no fim do século 9, e suas mais destacadas construções da­­tam dos séculos 14 e 15. Um va­­lioso patrimônio arquitetônico em que predominam construções góticas (as mais antigas), barrocas e renascentistas, que escaparam praticamente ilesas às guerras mundiais.
Caracterizadas pelo verticalismo, as construções góticas – escuras, majestosas e pontiagudas – se destacam à distância. É o caso de um dos um dos pontos de referência da cidade, a Torre de Pólvora (Prašná Brána). Ela é o portão da Cidade Velha (Staré Mĕsto), um dos cinco distritos independentes que, no século 12, formaram o que hoje é o centro de Praga. Colado ao belo prédio art nouveau da Casa Municipal, um dos maiores centros culturais da cidade, a torre marca o início da Estrada Real, caminho percorrido pelos reis tchecos no dia da coroação e que termina no alto da colina Hradčany.
A rota guarda boa parte dos pontos imperdíveis de Praga. Para percorrê-la, é só caminhar sempre na direção da Ponte Carlos (nas placas, Karlův Most) e, após atravessar o Rio Vltava, tomar o Castelo (Hrad) como ponto de referência. Tendo isso em mente, você poderá “se perder” pelas ruas estreitas sem maiores preocupações.
Cidade Velha
Saindo da Torre de Pólvora pela Rua Celetná, logo se alcança a Praça da Cidade Velha (Staré Mĕsto). Re­­serve um bom tempo para ela. Em seus limites estão a igreja barroca de São Nicolau e a igreja gótica de Týn – um corredor ao lado desta dá acesso ao Ungelt, pátio fortificado cheio de cafés e restaurantes.
No meio da praça há uma estátua do herói nacional Jan Hus, ex-padre católico condenado à fogueira em 1415, uma das inspirações da Reforma Protes­tante liderada por Martinho Lutero mais de um século depois. Bem em frente, uma aconchegante livraria homenageia o escritor tcheco Franz Kafka, que também dá nome a uma rua das proximidades.
A melhor vista Cidade Velha é a que se tem do alto da torre da Prefeitura, cujo acesso custa 100 coroas (menos de R$ 10). Do lado de fora fica o colorido Relógio Astro­­nômico, que a cada hora atrai centenas de pessoas para observar um singelo espetáculo, em que estátuas móveis dos 12 apóstolos fazem uma “procissão” sobre o relógio, “despertando” também outras figuras, como a da morte.
Tão bela e antiga quanto a Ce­­letná, a Rua Karlova começa perto da praça. São três quadras de prédios baixos, colados uns aos outros, repletos de restaurantes e lojas de suvenires, até a Ponte Carlos. Outro sím­­­­bolo de Praga, ela é a mais ve­­lha das 18 que cruzam o Vltava. Trin­­ta estátuas barrocas que lembram reis, santos e outras personalidades nacionais ladeiam a ponte, que ao longo de seus 520 metros é animada por bandinhas de jazz e serve de ateliê ao ar livre para pintores e desenhistas.
Mas, antes de atravessá-la, vire à direita e encontre um banco para des­­cansar às margens do rio; se ti­­ver tempo, volte num entardecer. A vista do Vltava, do Bairro Peque­no e da colina do Castelo ao pôr do sol não sairá tão cedo da memória.
Serviço:
Torre de Pólvora. Esquina das ruas Hybernská e Na Prikope, bairro Staré Mesto (Cidade Velha), Praha 1.
Casa Municipal. Republiky 5. Mais informações: http://www.obecni-dum.cz/.
Prefeitura da Cidade Velha, Relógio Astronômico, Igreja de Týn, Ungelt, Igreja de São Nicolau – Starosmestké Námestí (Praça da Cidade Velha), bairro Staré Mesto (Cidade Velha). Praha 1.
Ponte Carlos. Acesso pelo bairro Staré Mesto (Cidade Velha) ou pelo Malá Strana (Bairro Pequeno), Praha 1.
História – Governantes pela janela
Pelo menos duas vezes os moradores da Praga medieval levaram a insatisfação com os governantes às últimas consquências, em episódios que ficaram conhecidos como as “defenestrações de Praga”. Defenestrar nada mais é que atirar alguém janela afora, e foi exatamente o que fizeram os revoltosos em 1419 e 1618.
Na primeira ocasião, poucos anos depois da execução de Jan Hus, seus seguidores se insurgiram contra a administração da cidade, que se recusava a libertar prisioneiros “hussitas”; eles invadiram a sede da Prefeitura e jogaram pela janela sete membros do conselho, que morreram ao cair sobre as lanças da multidão lá embaixo. O incidente, reflexo do descontentamento da população camponesa com a nobreza e o clero católico, culminou nas guerras hussitas, que só terminaram em 1436. A segunda defenestração foi motivada pelo descontentamento da nobreza protestante da Boêmia com a perseguição religiosa promovida pelos Habsburgos, da Áustria, então no comando do país. Os três assessores do monarca Fernando II escaparam com vida ao cair no fosso, mas a revolta acabou desencadeando a Guerra dos Trinta Anos.
Curiosidade – Cerveja letrada
A melhor cerveja que este jornalista provou na República Tcheca é a Postřižisnké (saber a pronúncia não mudará sua vida), ligeiramente avermelhada, um pouco mais escura e menos amarga que as pilsen mais populares. Ela é fabricada em Nymburk, 50 quilômetros a nordeste de Praga, e sua distribuição é regional — infelizmente, será difícil encontrá-la em Praga.
A Postřižisnké tem uma história curiosa. Seu nome é inspirado na cervejaria descrita em um dos livros do escritor Bohumil Hrabal (1914-1997) — autor, entre outros, de Uma solidão ruidosa, recentemente publicado no Brasil. Seu padrasto foi mestre cervejeiro da fábrica de Nymburk por muitos anos, e Hrabal praticamente morou dentro dela. A rotina da vida em uma cervejaria virou pano de fundo de Postřižiny, sem tradução no Brasil.
Anos mais tarde, o escritor autorizou a Pivovar Nymburk a batizar sua principal cerveja com o nome derivado do livro. Do lado de fora da fábrica — que é aberta a visitação –, uma placa que fica quase rente ao chão resume essa história, arrematada por uma frase espirituosa de Hrabal: “Não quero placa nenhuma, a não ser que ela fique na altura onde os cães possam urinar”.
Saiba mais
Confira algumas informações extra sobre o destino no leste europeu:
– O verão tcheco é quente e ensolarado, mas terminou há pouco mais de um mês. Por isso, leve roupas de frio — porque neste início de outono os termômetros frequentemente marcam menos de 10º C durante o dia e se aproximam de zero grau à noite. A partir do fim de dezembro, temperaturas abaixo de zero e neve são bastante comuns.
– São poucos os guias que falam português. E, à exceção de expressões como “díky” (obrigado) e “na zdraví” (saúde), é perda de tempo tentar aprender as expressões mais comuns do idioma tcheco, que tem origem eslava e uma estrutura nada similar à das línguas latinas. Na maioria dos lugares turísticos, um inglês rudimentar já basta.
– A República Tcheca faz parte da União Europeia desde 2004, mas não pretende adotar o euro tão cedo. E você dificilmente conseguirá comprar coroas tchecas no Brasil. Portanto, compre euros aqui e troque-os por coroas ao chegar em Praga. É quase inevitável ter de comprar algum dinheiro no aeroporto; mas faça-o em pequena quantidade, porque ali a taxa é das piores. Chegando à cidade, dê preferência aos bancos. Eles cobram comissões, mas são mais seguros do que as pequenas casas espalhadas pela cidade — algumas dizem cobrar 0% de comissão, mas oferecem taxas ruins. Pela cotação oficial, um euro compra cerca de 24,5 coroas tchecas; um real, por sua vez, equivale a cerca de 10,5 coroas.
– Aos poucos, a República Tcheca vem ficando mais cara. Mas ainda é um destino barato, bem mais acessível que os demais países da Europa. A festa dos estrangeiros, no entanto, tende a terminar quando o país adotar o euro — aí tudo inevitavelmente ficará mais caro, a exemplo do que ocorreu nos demais países.