Turismo

Brasil Colônia revelado no sertão da Bahia

Gabriel Azevedo
09/05/2013 03:01
Quem não rezou a novena de Dona Canô? Quem não seguiu o mendigo Joãozinho Beija-Flor? Quem não amou a elegância sutil de Bobô? Quem não é Recôncavo e nem pode ser reconvexo”.
Os versos de Reconvexo – canção escrita por Caetano Veloso para a irmã Maria Bethânia, em 1989 –, podem fazer pouco sentido para quem não conhece o pedaço de terra que abraça a Baía de Todos os Santos: o Recôncavo Baiano, região rica em petróleo, com 33 municípios distribuídos em 11 mil km2.
Mas basta uma visitinha para que as palavras de Caetano se traduzam em igrejas, construções barrocas, fazendas, antigos engenhos de açúcar, armazéns de fumo, fábricas de charuto, feira de produtos artesanais e manifestações artísticas, como o samba de roda e a capoeira, resultado da fantástica miscigenação de raças.
Nesse caldeirão cultural – essencial quem se interessa pela história do país, da Colônia à República – três cidades se destacam: Santo Amaro, Cachoeira e São Félix. E como estão a pouco mais de 130 km de Salvador, fica muito fácil fazer uma visita.
O passeio começa por Santo Amaro, terra de Dona Canô, matriarca da família Veloso, mãe de Caetano e Maria Bethânia. A doce senhora morreu aos 105 anos no fim do ano passado. Na cidade, além da residência da família, está a Igreja Matriz de Nossa Senhora da Purificação, construída em 1706.
Todos os anos, sempre no fim de janeiro, mais de 50 mil moradores e turistas saem num cortejo que percorre diversas ruas da cidade derramando água nas pessoas. A festa termina na Matriz, com a lavagem das escadarias. Além da festa religiosa, que conta com padre e um babalorixá, músicos se apresentam durante uma semana.
Em maio há a tradicional festa Bembé do Mercado. Ela teve início em 13 de maio de 1889, um ano após a abolição da escravatura no Brasil. Na época, negros de Santo Amaro da Purificação decidiram festejar a liberdade, convidando as comunidades de candomblés da região para louvarem os orixás. O festejo durou três dias, com apresentação de maculelê, capoeira e samba de roda, estilo que, segundo os moradores, nasceu em Santo Amaro.
Cachoeira e São Félix
Fundados no século 16, a maioria dos municípios do Recôncavo Baiano é marcada pelo barroco, arte predominante do período colonial brasileiro. E Cachoeira, depois de Salvador, é a cidade baiana que reúne o mais importante acervo arquitetônico do estilo. Entre os maiores destaques estão o Convento e Igreja de Nossa Senhora do Carmo, construídos entre 1715 e 1722, onde hoje funciona um hotel; a sede da Ordem Terceira do Carmo, erguida pelos jesuítas entre os anos de 1702 e 1724 e que guarda imagens de madeira importadas da península de Macau, na Ásia. Dentro da igreja, o cemitério interno com lápides de madeira está totalmente restaurado. Todos são abertos à visitação.
Localizada na margem esquerda do Rio Paraguaçu, Cachoeira, assim como Santo Amaro, também tem festas, como a da Boa Morte, que ocorre no mês de agosto. Nessa celebração, 23 mulheres negras e mestiças representam os africanos escravizados e libertos do Recôncavo. De influência africana, mas com elementos católicos, a programação festiva inclui rituais como missas, confissões, sentinela de Nossa Senhora da Boa Morte, que é realizada na Casa da Boa Morte, e três procissões nas principais ruas da cidade.
São Félix e Cachoeira são separadas apenas por uma charmosa ponte sobre o rio Paraguaçu. Importada da Inglaterra por ordem de Dom Pedro II, a ponte metálica de 365 metros já é a primeira atração turística do lugar.
Assim como a vizinha, São Félix também teve uma importância fundamental para a economia do Recôncavo. Durante os séculos 18 e 19, a cidade funcionou como um terminal tropeiro.O lugar tem ainda um morro, de estrada íngreme e cheia de curvas, cujo visual é compensador.
Cachoeira libertou a Bahia de Portugal
O famoso brado de Dom Pedro I, que libertou Brasil de Portugal em setembro de 1822, chegou mais tarde à Bahia. Os portugueses leais à Coroa não deram muita importância ao imperador e continuaram servindo Portugal, o que gerou um conflito armado sangrento no Recôncavo Baiano.
Capital da colônia até 1763, Salva­dor recebeu as tropas portuguesas que fugiram de outros estados, principalmente de Minas Gerais e São Paulo.
Em fevereiro de 1822, a Câmara Municipal de Salvador negou-se a empossar o português Madeira de Melo como comandante das tropas. Foi o estopim da batalha. Os soldados lusitanos tomaram a capital, e os brasileiros cercaram a cidade, dominando a região do Recôncavo.
As lutas foram travadas por todo o sertão. Os brasileiros foram comandados pelo general Pedro Labatut e o coronel José Joaquim de Lima e Silva. O exército da revolta conquistou gradativamente o controle das cidades. E, no dia 25 de junho de 1822, os federalistas declararam Cachoeira a capital do estado.
Os brasileiros receberam o apoio de outros municípios, como São Félix, e partiram para Pirajá, no subúrbio de Salvador. No dia 2 de julho de 1823, os monarquistas foram derrotados e a capital foi tomada pelos rebelados. Hoje, a data é feriado estadual, tamanha a importância da batalha. Em Salvador e nas cidades do Recôncavo, armas, praças e ruas relembram e homenageiam um dos períodos mais sangrentos da história do Brasil.
Desde 2008, todo dia 25 de junho, a sede do Governo da Bahia é transferida para Cachoeira. De acordo com a justificativa do decreto, assinado pelo governador Jacques Wagner (PT), dia 25 de junho de 1822 marcou o início da luta pela Independência da Bahia, protagonizada pelos cachoeiranos, que culminou com a tomada de Salvador, em 2 de julho. Em 2013, Cachoeira comemora 191 anos de sua independência de Portugal.
Região concentra a produção de charutos brasileiros há 130 anos
O Brasil já teve uma produção de charutos de fazer inveja a Fidel Castro de dar água na boca de Winston Churchill. No século 19, segundo estimativas da Secretaria de Agricultura da Bahia, o país produzia cerca de 15 milhões de unidades por ano. Hoje o volume não chega a 5 milhões.
Embora a produção tenha caido, a qualidade aumentou. Na região do Recôncavo Baiano, que engloba, entre outras, as cidades de Cachoeira, São Félix e São Gonçalo dos Campos, fábricas instaladas em casarões antigos são responsáveis por 97% da produção brasileira de charutos, há mais 130 anos. E a visita vale a pena mesmo para quem não aprecia o produto. Num roteiro rápido, o mais indicado é ir direto às fábricas. Para quem têm um tempinho sobrando, também é possível conhecer as plantações de fumo.
Em São Félix, o Centro Cultural Dannemann é o mais indicado. Lá começou a fabricação dos primeiros charutos brasileiros, em 1873. No museu local, que recebe cerca 20 mil visitantes por ano, pode ser observada uma raríssima prensa de tabaco do século 19, usada pelo alemão Gerhard Dannemann, fundador da empresa que chegou a empregar 4 mil pessoas. No espaço, o turista pode acompanhar todas as fases de produção do charuto ao vivo. Baianas “charutareiras” tipicamente vestidas preparam o produto. Também é possível comprar e degustar um charuto, a partir de R$ 30.
O jornalista viajou a convite da Bahiatursa, Brazil National Tourism Mart e o II Salão Baiano de Turismo.

São Félix, Cachoeira e Santo Amaro