Turismo

Cinco dias na selva amazônica

Luciane Horcel
29/07/2010 03:04
Na madrugada matinal, os pássaros parecem gritar pela presença do sol. À noite, na imensa escuridão – comum em uma região on­­de a energia elétrica é cara e rara – é quase impossível ver quem são seus companheiros de selva. Mas o balançar constante das fo­­lhas das árvores, o estalo dos galhos e o som das raças deixam claro que há muita “gente” por lá.
A música da Amazônia é só uma das características desse destino que salienta os cinco sentidos de seus visitantes. Dentre eles, a visão é a que fica em constante treinamento. Embarcando na onda dos guias locais (eles enxergam os bichos mesmo com a lancha em alta velocidade), os olhos dos turistas ficam a ponto de pular fora da órbita. Todo mundo de olho na mata, na água e no céu. Ansiosos para serem os próximos a fazer o barco desacelerar e poder gritar: “Ali, tô vendo um macaco. Uma preguiça. Um jacaré…”.
Depois que se encontra algum bichinho e se observa um pouco da vida daquele animal curtindo seu habitat natural, o “relax” é imediato. “Aaaahhh… que lindo”, murmura o coro de turistas, que só não é mais ensaiado pela diferença de idiomas.
Nosso passeio, que inclui três noites em um cruzeiro pelo rio Amazonas no Iberostar Grand Amazon e duas em um resort no meio da floresta no município Rio Preto da Eva (a 57 km de Manaus), foi uma viagem recheada de belas surpresas e atividades nada convencionais. Pescar piranhas, com nacos de carne vermelha, e caçar jacarés, no meio da noite – no breu do Rio Solimões – foram só alguns dos programas. Para viver uma pequena parcela de um roteiro como esse, acompanhe o dia a dia desta aventura.
1.º dia
De um lado, a precariedade do terminal de ônibus de Manaus com uma estrutura feia e nada equipada. Do outro, o luxo, a beleza e o conforto dos navios atracados no porto de Manaus. Esse contraste gritante é só o começo das muitas paisagens e situações antagônicas que se encontra em uma viagem dentro do Amazonas. A começar pelo clima. Se lá fora do navio faz um calor insuportável, no Grand Amazon – depois de receber os passageiros com uma toalhinha úmida e drinque de boas-vindas – mal percebemos os mais de 30 graus da capital amazonense.
Com o check-in realizado e malas acomodadas, o primeiro dia é destinado ao conhecimento de área. Ou seja, hora de explorar cada cantinho do navio, enquanto ele ganha as águas do Solimões. Para os amadores em termos de cruzeiros, a boa notícia é que mal dá para perceber que o navio está se deslocando. Portanto, não há perigo de enjoo, porém quem tem problemas para dormir com ruídos pode estranhar o barulho das turbinas. Mas não há motivo para preocupação, depois que as aventuras de selva começam, chega-se tão cansado ao navio que o zumbido mais se parece com uma cantiga de ninar.
2.º dia
Amanhecemos na região de Manacapuru, município que fica a 68 km de Manaus. O lugar, conhecido como Princesinha do Solimões, é nosso primeiro contato real com a floresta. Para começar o dia, uma caminhada pela selva. Mas, quando se está em movimento no meio de tanto verde e tantas árvores, não é possível ver muito bichos. “Quem quer ver os habitantes da floresta, precisa sentar por aqui e ficar por horas. Só observando, bem quietinho”, diz o guia revelando o caminho das pedras.
A programação para o período da tarde é, no mínimo, inusitada: uma pesca de piranhas. Com um grupo de americanos (aliás, os estrangeiros são a esmagadora maioria nesse tipo de cruzeiro), encaramos a atividade. A princípio, enfiar um pedaço de carne no anzol é o mais engraçado. Mas depois, quando se lança a vara no rio, é que se vê onde está a verdadeira graça. Há tanto peixe, que os pescadores quase não vencem puxá-los para dentro do barco. Com um novo apelido (fischer woman), voltei ao navio satisfeita.
Quando anoiteceu era a hora da focagem de jacarés. Em uma big lancha, com direito a coletes e bancos confortáveis, mal dá para perceber que se está no breu da noite da floresta amazônica. Aliás, esse é só o começo da aventura que tem um grand finale quando o guia traz um filhote de jacaré para dentro do barco. Aproveitando uma das características do réptil, que depois de se agitar precisa de 10 minutos para voltar a se mexer, todo mundo aproveita para pegar no réptil e tirar fotos do bicho.
3.º dia
Como se estivéssemos abrindo caminho em uma trilha – só que desta vez, feita de água – começamos o dia na lancha, entrando no meio da floresta. Foi assim, passeando pelos igapós (partes inundadas da floresta) e igarapés (rios ou riachos estreitos que cruzam as matas) do Solimões, que conhecemos uma das regiões mais bonitas da floresta: o município de Janauacá, a 110 km da capital do estado.
No chamado “despertar da Amazônia” o que mais impressiona é a quantidade e o som dos pássaros. Eles enchem os galhos das árvores e cruzam o céu mostrando a quem pertence a manhã na floresta.
A maior vantagem de navegar pelos igapós é que se fica mais próximo das árvores e, consequentemente, dos bichos. Basta olhar para cima e ver, além das seringueiras e castanheiras de mais de 45 metros de altura, as árvores de mungubás – frutas que, de tão grandes, mais se parecem com lustres pendurados. Nessas “árvores decoradas” é comum avistar preguiças, sempre encolhidinhas lá no alto. Os vizinhos da dona preguiça são igualmente interessantes: iguanas que parecem se espreguiçar nos galhos e as enormes aves ciganas, as mais antigas da Amazônia.
Depois chegou a hora de visitar o “bicho-homem”. Fomos até uma casa de caboclo, onde seu Álvaro e dona Neia moram com seus nove filhos. Na simplicidade absoluta das instalações, o dono da casa dá uma lição de valores: “O melhor de morar aqui é a fartura. Temos tudo em abundância: muita água, peixes, muito verde e animais”, disse Seu Álvaro enquanto a esposa servia aos americanos a tapioca feita em casa. Para entrar no clima, depois de uma palestra sobre as frutas e plantas da região, os mais ousados ganharam uma pintura indígena feita de urucum e saíram do passeio com a cara da Amazônia.
4.º dia
Ainda de madrugada, assim que o sol aponta no horizonte, é possível ver claramente o encontro das águas do Rio Negro e do Solimões. Por 10 km, é como se uma linha dividisse as águas escuras (Rio Amazonas) das de cor caramelo (Solimões) que caminham lado a lado. Os rios não se misturam pelas diferenças de densidades, temperaturas e velocidades. O Rio Negro corre a 2 km/h, à temperatura de 22ºC, já o Solimões desliza mais rápido, de 4 a 6 km/h, a 28º C.
Depois do espetáculo, que abriu nosso dia, é hora de deixar o barco e pegar a estrada para o município de Rio Preto da Eva, a 57 km de Manaus.
Na AM 010, que dá acesso à pequena cidade de 17,5 mil habitantes, um pouco mais de aventura: encontramos um bebê preguiça no meio do asfalto. Depois de deixá-la fora de perigo, muitas fotos e carinho no pelo da nossa nova amiga.
Ainda encantados com o encontro, chegamos ao Amazônia Golf Resort By Nobile. A estrutura luxuosa, que conta com 1.150 hectares de área e 115 apartamentos, fica bem no meio da floresta. Entre os atrativos principais do hotel, o grande destaque é o campo de golfe com 18 buracos. Isso sem falar na gastronomia: a cada dia deliciosos peixes da região, como tucunaré e tambaqui, são servidos no almoço e no jantar.
5.º dia
Para começar bem o nosso último dia na selva, fomos visitar uma tribo indígena da Amazônia. A comunidade escolhida foi a Beija-Flor, com 78 índios – um total de sete famílias que vivem como os primeiros habitantes brasileiros. Na área de 42 hectares, o que chama atenção é um portal, que anuncia um novo atrativo turístico: uma trilha planejada. A ideia é que os nativos guiem turistas na trilha, mostrando animais e a vivência rústica na floresta. O passeio ainda não começou a ser feito, mas terá duração de duas horas e poderá ser feito por grupos de até 10 pessoas.
Depois de comprar alguns colares indígenas e sair da tribo mais caracterizados, começamos a nos preparar para uma segunda focagem de jacarés. Com a notícia de que seríamos guiados pelo secretário de turismo do município, Marcos Souza, que além do cargo político é também professor de inglês e francês, não podíamos imaginar quão radical seria a atividade naquela noite.
Com uma frágil e pequena lanterna, que mal fazia vista na escuridão da floresta, embarcamos em um barquinho simples e estreito que nos levou a mais de 2 km para dentro do rio que tem o mesmo nome da cidade – Rio Preto da Eva. Até aí, tudo bem, medo controlado. Os olhos começaram mesmo a se arregalar quando víamos o secretário e o seu Pedro (nosso piloto) saltar na água atrás dos jacarés e voltar com os bichos na mão. A coragem era tanta que até contagiava. Não demorou nada e nós já estávamos até acariciando os jacarés.
* A jornalista viajou a convite da New Line, Iberostar e Amazônia Golf e Resort by Nobile