Turismo

Diário de um ciclista no interior do Paraná

Leonardo Pansardi Grisotto é administrador de empresas.
15/02/2007 22:13
Viajar de carro, ônibus e avião nas férias é normal. Agora imagine viajar 430 quilômetros de bicicleta! Pois foi exatamente isso que resolvi fazer, em uma viagem entre as cidades de Curitiba e Ibiporã, no Norte do Paraná, onde nasci.
No dia 17 de dezembro do ano passado, após muito planejamento, parti de bicicleta da capital paranaense munido de ferramentas, energéticos, proteínas, aparatos ciclísticos, barraca e um objetivo: seguir até minha cidade-berço apreciando o percurso. Por opção, decidi não levar dinheiro na viagem. Queria sentir na pele a sensação de estar com fome e não possuir recursos, além de testar criativos e persuasivos métodos para obter os alimentos.
Pela manhã do primeiro dia, pedalei como um triatleta. Naquele ritmo, eu iria chegar antes do prazo planejado, que era de dois dias. Porém, o primeiro obstáculo surgiu. Topei com uma subida íngreme com ventos na direção oposta. Aquilo me abateu e percebi que eu não era uma máquina de pedalar. Apesar de considerar meu plano minucioso, aprendi que há muitos detalhes em que não costumamos pensar e que fazem muita diferença. Recuperado da fadiga, segui pedalando e, por volta do meio dia, fiz a primeira parada oficial para o almoço, na região do Parque Estadual de Vila Velha, cujo entorno é um espetáculo à parte.
Na lanchonete à beira da pista, prendi a bike e segui para o balcão. Lá, sem dinheiro, sabia que tinha de me virar e sintetizei um discurso sincero: “Olá, estou viajando de bicicleta. Estou com fome, mas não tenho dinheiro. Pode me ajudar? Qualquer coisa serve.” Surpreso com minhas palavras, o atendente imediatamente chamou seu superior e providenciou para mim dois salgados. Na imensa fome que eu estava, aqueles dois lanches foram iguarias sem precedentes. Devorei-as com todo gosto. Cada pedaço era uma alegria e cada mordida uma vitória.
E assim ocorreu em todas as demais paradas que fiz: cheguei nos locais, relatei meu intento e em nenhum dos nove estabelecimentos em que parei foi-me recusada comida. O maior exemplo disso foi numa churrascaria em Ponta Grossa, onde os proprietários me deram não apenas um prato de comida mas um marmitex para viagem, sobremesa, doces, água fresca e sinceros votos de boa sorte no caminho. Foi transcendental presenciar tamanha generosidade.
As paisagens eram um show à parte. Quando viajamos de carro ou ônibus, muitos detalhes passam despercebidos, mas de bicicleta eles surgem magnânimos. São árvores centenárias, vales enormes, rios brilhantes e aves lindas. Na região de Ortigueira, o cenário muda consideravelmente e os morros e vales são convites inegáveis para parar e apreciar. Andando mais um pouco, no trecho entre Mauá da Serra e Londrina, ao invés das paisagens exuberantes, há muitas plantações. E ali foi o pedaço onde eu mais encontrei árvores frutíferas, em cujas sobras descansei e, é claro, das quais consumi frutos in natura.
As sensações e experiências vividas no percurso só foram possíveis devido à ousadia de transgredir o convencional, a zona de conforto, os limites pré-estabelecidos, ousar quebrar regras e vencer os próprios limites. Os aprendizados da viagem foram vários e só os tive porque criei uma situação favorável para que isso acontecesse. Jamais aprenderia tais coisas assistindo TV em casa! Eu vislumbrei uma viagem de bicicleta, porém a vida me deu um pacote de ensinamentos que não aprenderia jamais na escola.
Mas o melhor de tudo foram as pessoas. Esse contato estreito foi incrível, maravilhoso e prazeroso.