Até poucos anos atrás, eles eram vários. Armazéns que sobreviviam como podiam vendendo artigos de primeira necessidade, pão fresco e um copinho de pinga. Os donos, dispostos a longas prosas à beira do balcão, eram figuras conhecidas na cidade. Ou você nunca ouviu falar do Darif, que ficava ali no seu armazém, na esquina das ruas Jacarezinho e Cândido Hartmann? Quando sabia que o visitante vinha atrás de uma entrevista, buscava nos seus guardados uma foto de quando jogava futebol, posava e contava coisas do seu tempo. Quando ele pendurou as chuteiras, a mercearia fechou as portas, os clientes foram para o mercado ou bar mais próximo e a casa, remodelada, ganhou outra função. E assim aconteceu com vários deles.
O fotógrafo Gilson Camargo, que nos anos 2000 lançou um livro de postais para o Beto Batata recuperando a história de alguns armazéns da cidade, espreme da memória um ou outro estabelecimento que continua na ativa. “É sempre a mesma história: o dono morre, as portas fecham ou os herdeiros transformam o lugar em outra coisa. Hoje em dia muitos deles foram modernizados e passaram a fazer parte de um roteiro de botecos da cidade”, comenta.
Para o historiador da Fundação Cultural de Curitiba Marcelo Sutil, esses armazéns antigos foram atropelados pelas facilidades das grandes redes de supermercados e seus preços mais vantajosos, pela impessoalidade, pela necessidade de rapidez e eficiência. “Só que junto com isso, começou um movimento contrário e saudosista de buscar o que estava guardado na lembrança, repetir os passos dos pais e avós, remexer a memória afetiva”, diz.
Em uma tarde, visitamos três desses espécimes quase em extinção. O resultado é um passeio com gosto de chineque, cheiro de cachaça e, na sacola, um salame para levar para casa. A conta? Devidamente anotada no caderninho.
Armazém autêntico
Na casa centenária, que serve de abrigo na parte de trás e na frente é destinada aos negócios, Gabriel Alceu Zequinão (foto 1) comanda há 50 anos a mercearia da família. Ele e o cão Caramelo passam as manhãs e as tardes atrás do balcão à espera dos clientes para seus refrigerantes de garrafa, nacos de salame, sacos de carvão, doces, guarda-chuvas, bolinhas de gude e uma dose ou outra de cachaça. “Antes, vinha o pessoal do bairro para fazer as compras do dia. Hoje não sei mais quem mora por aqui. Atendo gente que está de passagem ou precisa de alguma coisa de última hora”, comenta ele, enquanto conta as moedas da venda de um cigarro avulso. “A manutenção de um negócio desses é difícil. O lucro é de centavos. Mas vou ficando aqui, até que a família resolva dar outro fim a este ponto.” Curitibano de uma família de italianos – “não os chiques da Toscana, viu?” –, seu Gabriel gosta mesmo é de uma boa conversa, daquelas sem tempo para terminar. Ou quase. O relógio de propaganda no alto da parede anuncia o limite da prosa e das compras: de segunda a sábado, das 8h30 às 18h30, e, aos domingos, das 8h30 às 12 horas.
Mercearia Zequinão, Rua Fagundes Varela, 261, Jardim Social.
Secos e molhados
Na internet, a Mercearia Simm figura como uma das poucas no gênero de “secos e molhados” da capital. “Tem o meu e o do Gorski, lá para os lados do Santo Inácio. Quem não acha o que quer aqui, eu mando para lá. E ele faz o mesmo”, comenta Amauri Simm (foto 2), proprietário da mercearia que leva o sobrenome da família. Tudo ali começou com o seu tio, em 1941. O pai de Amauri trabalhava para ele e, depois, o negócio foi pulando de um para outro entre os Simm até chegar em Amauri. “Estamos num bairro grande, cabe de tudo aqui. Os supermercados à minha volta não me atrapalham. Sempre vai ter espaço para aquela compra rapidinha, para quem gosta daquele consumo de antigamente, em que se conhece o dono, se sabe das novidades…”, diz ele, que faz questão de manter a diversidade nas prateleiras: do pão fresquinho, bananas maduras e produtos de limpeza aos chuveiros elétricos, peças de encanamento, panelas e sandálias de couro. “Sabe, quem fica atrás deste balcão acaba virando meio psicólogo. Meu vizinho aqui do lado tentou abrir um bar. Não aguentou dois meses por conta da responsabilidade de lidar com os problemas dos clientes. Eu, aqui, ouço as dores de amor, as trapalhadas dos filhos, dou um boa sorte, um Deus te ajude e fica tudo certo”, brinca. Funciona todos os dias, das 7h15 às 20 horas.
Mercearia Simm, Rua Padre Gernano Mayer, 297, Alto da XV.
Charme preservado
Nos tempos de criança, Wlamir Branco ia até a esquina da sua casa, na Mercearia Fantinato, para comprar doces. Anos depois se juntou ao chef Milton Rodrigo Gonçalves, assumiu a Fantinato, remodelou o negócio e reabriu as portas da antiga mercearia. Já tinha o lugar perfeito, a história pronta, o charme do que foi talhado pelo tempo, dois galões de cachaça curtida para vender e espaço de sobra para pendurar suas coleções de guardados. “Isso aqui já era uma mercearia em 1953. Com o tempo, deu uma decaída e virou um boteco. Entramos aqui há dois anos com a missão de oferecer às pessoas um lugar agradável, com boa comida e bebida”, diz Wlamir. Quem manda na cozinha é Milton, que recuperou receitas das antigas, como o tradicionalíssimo sanduíche de pernil e criou um verdadeiro ritual para servir a sua carne-de-onça. E para quem quiser arrematar com um docinho, o baleiro está repleto de delícias do túnel do tempo: maria-mole, suspiros brancos e cor-de -rosa, doce de abóbora de coração, paçoca, mariola. O preço? R$ 0,50 cada uma delas. O horário de funcionamento é de segunda à sexta, das 17 horas à 1 da manhã. Nos sábados, eles abrem das 12 às 16 horas, com a feijoada, e seguem com o bar até a 1 da manhã.
Mercearia Fantinato, Rua Mateus Leme, 2.553, Bom Retiro.
Outros armazéns
> Armazém Santa Ana, Avenida Salgado Filho, 4.460, Uberaba. Em sua página na internet, a propaganda avisa que por lá “se vende de tudo”. A casa está aberta desde 1934.
> Armazém de Secos e Molhados Gorski, Rua Tobias de Macedo Jr., 31, Santo Inácio. O que você não achar no Simm, encontra lá. E vice-versa.
> Casa Velha, Rua Mateus Leme, 5.981, Abranches. O botequim, em funcionamento há 83 anos, funciona onde antes havia uma mercearia. Lá pelos anos 20. Hoje faz parte do roteiro de quem quer experimentar comida de boteco de antigamente.
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