Em pouco mais de cinco horas de passeio pelas montanhas capixabas, foi possível contar pelo menos três noivas tirando fotos para o álbum de casamento. Se o número incluísse os casais de namorados, talvez não houvesse tempo para prestar atenção no visual que inspira tanto romance, e que serviu como cenário de Canaã, obra-prima do imortal maranhense Graça Aranha.
Há duas maneiras de explorar as montanhas do Espírito Santo: de carro e de trem. A melhor opção é mesclar os dois, primeiro pelos trilhos, depois, na rodovia. Batizado de Trem das Montanhas Capixabas, o passeio percorre um trecho de 46 quilômetros pela Mata Atlântica usando uma litorina, um único vagão, movido a diesel, com 50 poltronas de couro, grandes janelas, ar condicionado e serviço de bordo.
A viagem começa em Viana, cidade de influência açoriana, localizada a 23 quilômetros de Vitória. A pequena estação é um charme. Foi inaugurada em 1895 como parte da ferrovia que ligava Vitória a Cachoeiro de Itapemirim, trecho conhecido com Leopoldina Highway, em homenagem à Maria Leopoldina, primeira imperatriz do Brasil.
O trem parte às 10h30. A 25km/h, a litorina sobe lentamente a serra, e a paisagem da janela muda no mesmo ritmo, de pequenas propriedades rurais para áreas preservadas de Mata Atlâtica. Até a primeira parada, na Estação Ferroviária de Vale da Estação, em Domingos Martins, dois túneis e uma ponte suspensa sob o Rio Jacu são os pontos mais relevantes do trajeto.
Até as próximas duas estações, Marechal Floriano e Araguaya, a paisagem é dominada por plantações de café. O Espírito Santo é um dos principais produtores brasileiros da planta, e o maior do tipo jacu, cuja xícara pequena não sai por menos de R$ 10. Essa variedade é famosa pelo seu processo de produção. Os grãos são ingeridos e processados no intestino do jacu, ave que habita a região. O sabor é macio, leve, nada parecido com os tipos conillon e arábica, mais comuns no mercado.
O passeio de trem tem duas horas e meia de duração, com três paradas de cinco a dez minutos cada. Nas estações, moradores vendem artesanato, doces e bolachas salgadas. Desde 2010, o trecho é operado pela Serra Verde Express, a mesma empresa que faz a linha Curitiba-Morretes.
Vitória tem coleção de praias e morros
Cidade oferece opções de passeio à beira-mar e exploração de mirantes nos arredores
Sotaque carioca, jeito mineiro, geografia florianopolitana e colonização europeia. O que esperar da capital de um estado batizado de Espírito Santo? Retalhada por rochas e morros e costurada por pontes, Vitória, uma ilha no Atlântico Sul, encanta por sua história, arquitetura, culinária, praias e população.
Relativamente pequeno, com apenas 330 mil habitantes, o arquipélago de Vitória esbanja cartões-postais: praias, pontes, ilhas, ilhotas, portos. Portos, aliás, não faltam: são sete no total. Os maiores e mais importantes são o de Vitória e o de Tubarão.
Fundada em 1551, o que a torna uma das cidades mais antigas do país, Vitória foi a segunda capital da antiga capitania do Espírito Santo. Antes, a sede foi Vila Velha, cidade vizinha e atualmente mais populosa do que a capital.
Em Vitória, as praias mais badalas são Camburi, do Canto, e a Curva da Jurema, todas com boa infraestrutura de quiosques, iluminação noturna e calçadões para caminhadas, bares, restaurantes e hotéis. Em comum, todas têm como cenário o Morro do Moreno, com 274 metros de altura.
Vila Velha
Basta atravessar a Florentino Avidos, também chamada Cinco Pontes, para se ter acesso aos seis municípios da região metropolitana: Cariacica, Fundão, Guarapari, Serra, Vila Velha e Viana.
A mais famosa é Vila Velha, a cinco quilômetros da capital. A cidade vizinha tem praias que os moradores de Vitória gostam de frequentar: a Praia da Costa e de Itaparica, por serem mais calmas e longe dos portos. No alto de um morro coberto de mata, está a imagem mais conhecida do estado, – e um dos mais antigos santuários do país – o Convento da Penha, aberto em 1558.
São vários os mirantes que revelam as melhores faces de Vitória e Vila Velha. Romeiros fazem a peregrinação até a capela, onde estão relíquias como altar, púlpito e via-crúcis entalhados na madeira, e a tela Nossa Senhora das Alegrias, do século 16.
Outras duas atrações da cidade são o Museu da Vale e a fábrica de chocolates Garoto, fundada por um imigrante alemão em 1929, na Prainha, e instalada desde 1936 no bairro da Glória.
Na estrada
Rota do Lagarto tem mais recantos para romance na serra
Depois de passear de trem pelas montanhas, os turistas têm duas opções: almoçar em Araguaya e voltar de trem, ou pegar um carro e seguir pela Rota do Lagarto. Na segunda opção, o percurso turístico de Pedra Azul, Domingos Martins, região Sudoeste Serrana do Espírito Santo, é considerado um das mais românticos do Brasil. Fica a uma hora de carro de Araguaya.
No trajeto de oito quilômetros de estrada sinuosa, de mão única, é possível observar laranjais, cultivo de morangos, estâncias, pousadas, simpáticos restaurantes italianos e alemães, exemplares de flor de lótus (aquela que fecha à noite), animais, e claro, a Pedra Azul, um monolito colossal de granito e gnaisse, localizado a 1.822 metros acima do nível do mar. Ela tem esse nome por causa da tonalidade, que muda ao longo do dia. Também é conhecida como Pedra do Lagarto, por ter uma rocha que se parece com o réptil.
A Pedra Azul é parte de uma área de preservação que inclui ainda o pico da Pedra das Flores, a 1.909 metros de altitude. O parque tem área de 1.240 hectares, dos quais apenas 5% são abertos ao público para a realização de trilhas.
Entre as atrações, a mais famosa é a trilha das piscinas naturais, com um percurso de 2.500 metros que inclui um trecho de subida, culminando na área mais alta onde se é permitido chegar. As nove piscinas têm até 1,5 m de profundidade e são liberadas para mergulho.
O jornalista viajou a convite da Serra Verde Express.
Espírito Santo