Turismo

Estranha aula de Geografia

José Carlos Fernandes
José Carlos Fernandes
01/03/2007 22:33
Para quem boiou, um exercício eficiente é botar o olho num prédio bem alto perto de sua casa, imaginar que é uma montanha, que você mora lá em cima e tem de descer por uma veredinha estreita, todos os dias, para ir trabalhar. Só de pensar, dá para sentir dor nos pés, calor e medo de o desodorante ter vencido. Pois é isso mesmo. Apesar dos aproximados 30 quilômetros de túneis espetaculares que na última década facilitaram a vida dos ilhéus, estar na Madeira é, de alguma forma, escalar de manhã à noite. Com a vantagem de ver o mar o tempo todo.
Muitos bairros e distritos, como a Camacha, próxima a Funchal – a capital – estão a uma média de 800 metros de altura, onde se chega por estradas que deus-nos-acuda. Outras aldeias estão acima disso – o que equivale a ter caixa-postal no alto do Pico do Anhangava, em Piraquara, a 1.420 metros. As estradas tradicionais são pista-dupla e quando um vem e outro vai, tem de negociar. Dá-lhe engatar de ré numa rampa três vezes mais inclinada do que aquela que o reprovou no teste do Detran. Você jura que, se voltar vivo, vai ser bonzinho o resto de seus dias. Daí o conselho amigo de não se arvorar em alugar carros por lá: não é bom passar férias com o coração na mão.
Com essa geografia sob medida para montanhistas, e não para carros, ao lado do mar aberto e azul de deixar besta, o grande barato da Ilha da Madeira é escarafunchar como vai passando o povo lá de cima, onde o basalto escuro é coberto de verde-musgo e tem penhascos até em pátio de jardim de infância. No mais – flores a dar com o pé.
O que mais se vê na “Madeira de cima” é turista de tênis, mochila nas costas, pagando os pecados com o mapa da ilha na mão. Perder-se é inevitável, já que a pedida é subir pelas veredas ou atalhos que cortam os vilarejos. Vale a pena cruzar o Atlântico para conhecer esses caminhos que os madeirenses carregam na memória, em qualquer lugar em que estejam.
Mas prepare-se. Escalar até mil degraus em lugares como Campanário ou Câmara de Lobos acima, por exemplo, é tão corriqueiro quanto ir à feira. Enquanto os joelhos trabalham, dá para se distrair observando as casas portuguesas com certeza erguidas dos dois lados desses corredores de pedra, batizados com nomes inspiradores: Caminho das Preces, do Terço, do Rancho, da Vereda da Ribeira da Caixa ou da Cruz da Caldeira.
Em tempo: nessas ruas de no máximo 1,5 metro dá para ver o quintal do vizinho e parar para uma prosa, o que irremediavelmente acontece. Quem acha que brasileiro é o povo mais comunicativo do planeta, ponha as barbas de molho. Madeirenses são um ótimo papo. Depois, é seguir viagem e fazer planos de um dia voltar, alugar uma casinha na beira do Caminho das Preces e passar uns dez anos conversando no muro e olhando para o mar. Quem bate tanta perna, merece descanso.