Tomar banho até de álcool, comer pouco e caminhar muito, com mochilas carregadas às costas. Experimentar a vida real e a cultura genuína de comunidades exóticas, conviver com povos indígenas e se deslumbrar com paisagens magníficas. Assim foi De Mochila pelas Américas, expedição jornalística, cultural e de aventura que, em pouco mais de 10 meses, percorreu 12 países do continente americano.
Viajei sozinho, basicamente por terra, do sul do Peru ao Alasca e regressei pelo Chile e a Argentina. A jornada começou em novembro de 2012 e terminou na semana passada. Só em deslocamentos foram 585 horas, em sistema multimodal de transporte: de ônibus, trem, moto e bicicleta. Cavalgando encostas e subindo montanhas, navegando por rios, lagos, geleiras e mares, de canoa, caiaque, ferry boat ou barco a motor. Dirigindo em rodovias cênicas, desbravando onde não havia estradas e pegando carona.
Foi uma peregrinação por todo o tipo de ambiente urbano e natural, paisagens e acidentes geográficos. Pude explorar cânions, desertos e selvas; visitar povoados esquecidos pelo desenvolvimento e capitais cosmopolitas; relaxar em praias, rios e baías; escalar montanhas e caminhar ao longo de geleiras. Experimentei a elástica amplitude térmica, de áreas geladas, com temperaturas abaixo de 0ºC, até regiões de calor extremo, ao redor de 45ºC.
A opção foi por desvendar de maneira profunda cada região visitada, o que exigiu de 25 a 30 dias em cada país latino e no Alasca. Para cruzar os Estados Unidos de sul ao norte, sem pressa, pelo velho oeste, foram necessários 45 dias.
A diversidade cultural dos povos e as diferenças no nível de desenvolvimento dos países, permitiu-me perceber desde a miséria e o sofrimento de populações como as do Peru (América do Sul), El Salvador e Nicarágua (América Central) à segurança e opulência dos Estados Unidos.
A jornada não foi uma viagem de férias ou roteiro turístico, mas sim um trajeto de exploração, de cotidiano econômico e hábitos simples, com refeições, transporte e acomodações singelas. A estada variou geralmente entre hostels – onde o dormitório, banheiro e cozinha são compartilhados –, hotéis espartanos, hospedarias ou pousadas. Algumas noites foram mesmo dentro de ônibus, em barracas ou cabanas de madeira. Exatamente 125 diferentes acomodações.
Pelo fato de ser viagem de longa duração, assumi tarefas cotidianas como a lavagem e a reparação de roupas, as compras de mercado e a preparação de refeições, além do controle de despesas fixas no Brasil e o pagamento de contas.
A atenção com a segurança pessoal permeou boa parte da viagem, especialmente no trajeto das Américas do Sul, Central e do México. As ameaças variavam entre sequestro de viajantes em corridas de táxi, riscos de assaltos à mão armada e acidentes naturais, em lugares inóspitos e distantes.
Durante o percurso, superei desafios com a prática de esportes radicais e de aventura. Adepto da adrenalina, pratiquei montanhismo (Peru); camping e trekking selvagem (Colômbia); “deep board” e escalada (Panamá); vulcanismo e motociclismo (Nicarágua); tirolesa e “parasail” (Costa Rica); cavalgada (México) “mountain bike” e “rafting” (EUA); caiaque (Alaska) e “hiking” em todos os lugares percorridos.
A aventura me proporcionou vínculos passageiros e novas amizades. Realizei um sonho e encerrei uma trajetória sem planejamento fixo, sem o “último dia de viagem”, livre das proibições impostas pelo limite de tempo. Volto para casa gratificado, carregando inédita e rica experiência e ainda saboreando a sensação ampla de liberdade. E nove quilos mais leve.
Ike Weber é jornalista, viajante e fotógrafo. A expedição De Mochila pelas Américas está documentada no blog www.ikeweber.com. O projeto teve o patrocínio do Colégio Sesi e do Grupo Schultz/Vital Card e apoio de divulgação da rádio CBN Curitiba e do jornal Gazeta do Povo.
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