Já estive na Argentina em diferentes oportunidades, mas nunca em Buenos Aires. E na minha primeira viagem à capital ganhei a missão de viver como um portenho. A ideia era fugir dos padrões convencionais de pacote parcelado, transfer, hotel, pontos turísticos, restaurantes famosos, suvenires para família, seguro viagem e bolsa da agência de viagens.
Para não ser apenas mais um turista brasileiro, precisava morar, mesmo que por poucos dias, num imóvel. Mas qual? Só em Buenos Aires, o site TripAdvisor tem 1.275 casas e apartamentos cadastrados. A solução foi garimpar.
Como queria economizar e ao mesmo tempo ficar num bairro bem localizado, usei o próprio site para me indicar os imóveis que estariam disponíveis entre os dias 5 e 9 de junho, data da viagem. A seleção entre os 100 que sobraram foi feita pela avaliação dos usuários. Foi quando encontrei o Asian Loft, na Rua Thames, no bairro Palermo.
Bem avaliado e localizado, e com o preço que cabia no orçamento (R$ 182 por noite), entrei em contato com o proprietário, Carlos Padin, um argentino que trabalhou por mais de 20 anos numa multinacional e hoje vive do aluguel de três imóveis. Trocamos mensagens, e-mails e telefonemas. Ele me explicou as características do apartamento, do bairro, e ainda deu dicas de locomoção na cidade.
O início
A saída de Curitiba foi no único voo internacional que a cidade oferece: Afonso Pena-Ezeiza, operado pela Gol. São apenas duas horas de voo. Chega a Buenos Aires às 16 horas, relativamente tarde, principalmente no inverno, quando escurece por volta das 18 horas.
Em terras portenhas, o desafio começou. Troquei dinheiro na casa de câmbio, R$ 1 equivale a 2,75 pesos argentinos. Usei o taxista como guia turístico, questionando-o sobre os bairros pelos quais passávamos. O trecho entre Ezeiza e o apartamento durou cerca de 50 minutos e custou R$ 90.
Em 20 minutos, o proprietário apresentou todos os ambientes, mostrou onde ficavam os produtos de limpeza, e me deu alguns mapas, a senha da internet, um cartão recarregável de ônibus e metrô, dois alfajores e dois contratos para assinar. O primeiro, com 11 cláusulas, informava o tempo de permanência, minhas obrigações e o preço total da hospedagem: R$ 730. O segundo constava da lista de todos os objetos e quanto teria que pagar se quebrasse, por exemplo, um copo (R$ 30).
Com as chaves do apartamento e uma cidade para explorar, fui ao trabalho. Em Palermo, próximo ao apartamento, há dezenas de cafés, bares, baladas e restaurantes. Nas caminhadas, cruzei com passeadores de cachorros, praças, construções modernas e antigas, botiques de estilistas famosos, lojas de decoração, escritórios de arquitetura, livrarias, até encontrar o Sheldon, um restaurante de esquina na rua Jorge Luis Borges.
Escolhi o La Minuta, prato executivo do dia, servido rapidamente. Entre poucas variações, quase sempre é um filé à parmegiana acompanhado de purê de batata ou fritas. Custa entre R$ 30 e R$ 50, incluindo uma cerveja de litro e um café. Os argentinos costumam jantar às 22h30, 23h. Por isso, não se assuste se não encontrar ninguém às 20 horas.
Os cafés estão por toda parte e são ideais para experimentar a Media Luna, o croissant argentino. Outras guloseimas são as empanadas e o super panchos, o cachorro-quente deles, a R$ 3 cada um. Como um portenho, comi o bife de chorizo com vinho, comprado no mercado. A bebida é vendida em todos os mercadinhos de esquina, com preços entre R$ 10 e R$ 200.
Andanças
O táxi de Buenos Aires está entre os mais baratos da América Latina, embora exista o risco de receber alguns pesos falsificados como troco. Mesmo assim, no início optei pelo metrô, o mais antigo da América Latina. A passagem custa apenas R$ 0,70. Não foi a melhor escolha pois a estação mais próxima do apartamento ficava a 2 quilômetros de distância.
Mas foi o metrô que me levou aos principais pontos turísticos de Buenos Aires numa tacada só. Em apenas um dia, passei pela Casa Rosada, o palácio presidencial, circulei pela Calle Florida, um elegante calçadão no centro de Buenos Aires, cheio de lojas, hippies na rua, dançarinos de tango; a Avenida 9 de Julho, conhecida como a mais larga do mundo, onde fica o famoso Obelisco e o imponente Teatro Colón. A poucas quadras dali, na esquina de Chile e Defensa, no bairro San Telmo (outro lugar que vale a pena ser visitado, antigo e charmoso), sentei ao lado de uma das personagens mais irônicas que o mundo dos quadrinhos conhece: a Mafalda. Criação do artista Quino, que vivia exatamente no prédio que fica nessa esquina, Mafalda foi personagem de tirinhas publicadas entre os anos de 1964 e 1973. No dia seguinte, fui de metrô até La Boca, bairro onde nasceu o tango e fica o Caminito, calçadão com casas multicoloridas e ponto obrigatório de visitação.
No sábado, descobri que o ônibus que passava em frente ao meu apartamento percorria diferentes pontos turísticos da cidade, entre eles, a Basílica de San José de Flores, onde começa o tour do Papa Francisco, uma das novidades nos passeios em Buenos Aires.
Viva la vida
Com o jantar às 22 horas, a vida noturna começa muito mais tarde. As baladas esquentam às 2 horas. Até lá, a entrada é livre e existem promoções do tipo “2 por 1”. A noite argentina é democrática e oferece todo tipo de diversão. Fiz amigos na Tip’s, uma balada que fica na rua do apartamento. Drinques, música dos anos 1980 e muito papo com alemães, russos, americanos, brasileiros e argentinos. Foi essa turma que topou ir à Liquid, na noite seguinte, uma das casas mais conceituadas da capital, abarrotada de gente e de fumaça (na Argentina não existe lei antifumo).
Nem mesmo assuntos polêmicos como futebol e política abalaram a receptividade dos argentinos. Eles têm muita curiosidade sobre o Brasil e admiram nosso país. E sempre que precisei de ajuda para me localizar ou com o cardápio, fui bem atendido. Antes de arriscar expressões equivocadas em portunhol, melhor mesmo foi usar o português.
Passo a passo
Manual de aluguel de imóvel para temporada
Localização, tamanho, facilidades… São muitos os critérios a serem observados antes de decidir por um imóvel no destino de viagem. Esse manual esclarece as principais dúvidas sobre a modalidade de hospedagem, como os quesitos presentes em contrato e as taxas incluídas. Também é preciso lembrar que o aluguel implica em assumir a rotina de limpeza do apartamento ou casa, tarefa que fica de fora quando a opção é pela hotelaria convencional. Ninguém vai fazer faxina durante as férias, mas retirar o lixo e deixar o banheiro em ordem são tarefas do locatário, durante a permanência no imóvel.
• Cadastro
Faça um cadastro no site da ferramenta escolhida, preenchendo com os dados pessoais. Alguns dão opção de fazer o formulário pelo login no Facebook. O maior do mundo é o TripAdvisor.
• Localização
A escolha do bairro, e até mesmo da rua, vai interferir diretamente na programação da viagem. Pesquise imóveis próximos a pontos turísticos ou localizados ao lado de pontos de ônibus e estações de metrô. O estilo do viajante deve ser considerado. Jovens e solteiros, por exemplo, vão se adaptar melhor aos bairros mais agitados da cidade.
• Preço
O valor do aluguel precisa caber no orçamento. Hospedagem, de acordo com pesquisas, consome quase um terço de todo o dinheiro investido numa viagem. O TripAdvisor oferece uma calculadora (www.tripadvisor.com.br/VacationRentals) para o viajante descobrir qual tipo de acomodação é mais vantajosa. Ao escolher a cidade que será visitada, o número de hóspedes, a quantidade de noites e as opções de alimentação, o site exibe o comparativo médio de gastos entre as opções de hotel e aluguel para temporada.
• Detalhes
Escolha o imóvel com o maior número de fotos possível, preferencialmente recentes, converse bastante com o locatário (faça quantas perguntas quiser e leia os comentários de outros usuários que locaram o imóvel antes). Observe o número de quartos, a quantidade máxima de hóspedes, se dispõem de wi-fi, ferro e tábua de passar roupa, utensílios domésticos, televisão, ar condicionado, cofre, entre outros itens.
• Contrato
Mesmo sendo uma locação para um período curto, o contrato é indispensável. É onde devem constar as datas de entrada e saída do inquilino, o valor a ser pago, a forma de pagamento, eventuais multas por atraso, depredação ou desistência de uma das partes, o número de pessoas que vai se hospedar e a descrição dos utensílios, eletrodomésticos e eletrônicos à disposição do locatário. O documento deve ainda especificar quem ficará responsável pelo pagamento das contas durante o período de locação.
• Taxas
O proprietário tem o direito de aceitar ou não a reserva. Muitas propriedades listadas na ferramenta necessitam da confirmação do aluguel e o pagamento de uma taxa administrativa e uma taxa de limpeza, que varia conforme o imóvel. Veja a lista de propriedades e/ou fale com o locatário para mais detalhes sobre a acomodação específica.
• Datas
No site também estão disponíveis as datas em que os imóveis estarão desocupados. É bom lembrar que os preços podem variar conforme a temporada. E muitos proprietários impõem uma quantidade mínima de diárias, normalmente a partir de três noites. Em geral, é a partir desse período de permanência que torna a opção de aluguel mais vantajosa para o viajante.
• Destino
Definir o destino é a primeira decisão. Há uma infinidade de opções. Só no site do TripAdvisor são 400 mil imóveis em mais de 150 países.
• Entrada
Ao chegar ao imóvel, o locatário deve fazer uma inspeção para verificar se tudo está de acordo com o designado no contrato. Caso haja algum dano, como um vidro quebrado ou eletrodoméstico que não funciona, o fato deve ser anotado e informado ao locador durante a inspeção, para que o locatário não tenha que pagar indenização. É comum os proprietários solicitarem os dados do cartão de crédito como garantia.
• Fim
Avalie novamente o imóvel com o proprietário. Quando voltar para casa, não deixe de registrar suas impressões sobre o locador e o imóvel no site da ferramenta, para orientação dos futuros usuários.
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