Turismo

Os sabores e os aromas de Mendoza

Anna Paula Franco
06/06/2013 03:01
Inevitavelmente, o vinho vai fazer parte do roteiro. Mesmo que o viajante chegue a Mendoza com outro propósito – neve, esportes radicais e aventura – o dia começa (!!) ou termina com uma taça de vinho nas mãos. A província tem 900 das 1.200 vinícolas da Argentina. E pelo menos 125 delas são preparadas para receber o turista e demonstrar o processo de produção, com tours nas propriedades e degustação da bebida.
As vinícolas maiores estão concentradas no Vale do Uco. Mas em Maipú, a 30 minutos do centro de Mendoza, há bodegas de vinho e também as fábricas de azeite de oliva, outro orgulho mendocino. Uma dessas pequenas e charmosas produtoras de vinho é a Tempus Alba, com capacidade instalada para 300 mil litros de vinho por ano. Em uma área de 2,5 hectares, produz uvas Malbec em um projeto iniciado em 2002. Para elaborar o El Vero Malbec, o vinho mais sofisticado da casa, a família proprietária investiu em pesquisa e elaborou um banco genético a partir de 364 mudas diferentes. Doze variedades foram destacadas para serem multiplicadas em laboratório e usadas na elaboração da bebida. A propriedade faz parte da rota de cicloturismo que corta a região de Maipú e recebe muitos jovens no restaurante, aberto ao público.
Vale do Uco
A maior parte dos vinhos produzidos em Mendoza é feita das uvas do Vale do Uco, região mais próxima à Cordilheira dos Andes, que fica a 130 quilômetros da cidade de Mendoza. A paisagem é encantadora: com a montanha gigante no horizonte, as fincas (fazendas) se alternam na beira da estrada com os subúrbios das pequenas cidades que formam a grande Mendoza. Curioso observar a arquitetura local. Sem chuvas – a média de precipitação é 20 milímetros por ano – as casas raramente têm telhado. A cobertura termina na laje, revestida por um isolante térmico. Os bairros são conjuntos habitacionais batizados conforme a profissão dos moradores: motoristas, engenheiros, professores.
O colorido dos vinhedos, em tons de vermelho e amarelo após a colheita, se soma aos álamos e plátanos pintados das cores do outono. Pera, maçã, pêssego, ameixa e marmelo também são cultivados no Vale do Uco. A fruticultura na região semiárida, com solo composto por areia, argila e seixos, só é viável por causa do sistema de irrigação, herdado dos índios huarpes, integrantes do Império Inca. Em 1530, para aproveitar o degelo da neve da montanha, os índios construíram canais, as acéquias, que levam a água para as partes mais baixas, pela gravidade. Na área rural, pequenas represas garantem o abastecimento das propriedades. Os colonizadores espanhóis aprimoraram a técnica, organizando os canais no perímetro urbano, o que leva água para irrigar parques e praças até os dias de hoje.
Gigantes como a montanha
Quem visita a O’Furnier, no Vale do Uco, pode até cobiçar a função do laboratorista da vinícola. Instalado em um dos corredores suspensos da construção sustentável que aproveita a luz natural e a circulação de ar para receber a produção de uva, o laboratório fica de frente para a Cordilheira dos Andes e o vulcão Tupungato. O visual não poderia ser mais inspirador.
A produção chega aos 1,5 milhão de litros por ano. Uvas Tempranillo, Merlot, Cabernet Sauvignon, Malbec, Syrah e Sauvignon Blanc são cultivadas em três fincas diferentes e entram na elaboração de vinhos que custam entre 48 e 600 pesos. A bodega tem capacidade para armazenar 2.800 barris, que ficam na parte subterrânea da vinícola. Os visitantes percorrem as cavas em passarelas suspensas, enquanto apreciam obras de arte. O cardápio do restaurante Urban, instalado no local, é assinado pela chef Nadia Haron. Formada em Farmácia e autodidata na cozinha, a chef comanda também o Nadia O. F., restaurante em Mendoza eleito o melhor do país pela Academia de Gastronomia da Argentina, no ano passado.
Entre as inúmeras opções de vinícolas abertas ao turismo, a Salentein é uma das que mais investiu na infraestrutura para visitação. O Centro de Visitantes Killka e a pousada instalada na mesma propriedade recebem até 30 mil turistas por ano. A família holandesa, dona da vinícola, foi uma das primeiras a abrir as portas para receber os turistas, em 1995.
O Killka, espaço dedicado aos visitantes, tem loja, restaurante, galeria de arte, cinema e uma capela ecumênica. A visita dura uma hora e meia e inclui a área de produção, a poucos metros da recepção principal. Entre os tanques de fermentação e as cavas, o visitante percorre recintos quase sagrados, concebidos como um templo ao vinho. Na cava principal, com barris de madeira espalhados no salão, são realizados eventos de arte, como concertos de piano. A degustação é feita perto dali, em salas especiais que lembram mesas de reinados medievais.
A visita avulsa pode ser feita por qualquer turista, por 50 pesos por pessoa. Para o hóspede da pousada local, é incluída na diária. São 16 quartos batizados com os nomes das uvas que compõem das linhas da Salentein. A tarifa com café da manhã e jantar custa a partir de US$ 370 para o casal, em baixa temporada.
Requinte em seis categorias
Caminhar pela trilha que leva até a recepção do Entre Cielos, em Vistalba, na região da Grande Mendoza, dá pistas sobre o que o hotel reserva aos seus hóspedes. O paisagismo bem cuidado combina diferentes cores e texturas de plantas coloridas pelo outono gelado. Os três suíços, donos do hotel, capricharam nos mínimos detalhes da obra, a começar pela localização. Terreno de uma antiga bodega, o Entre Cielos também oferece vista privilegiada da onipresente Cordilheira dos Andes. Sentar à beira da piscina permite a contemplação da gigantona, logo adiante.
A construção em estilo contemporâneo não interfere na paisagem. No interior, a decoração sofisticada é repetida desde o hall até os quartos, 16 no total, em seis categorias de hospedagem. A mais cara não é a mais confortável, mas oferece uma experiência única. A cabine de fibra de vidro instalada sobre o vinhedo da propriedade faz o hóspede dormir sobre a plantação de uvas, ao mesmo tempo em que contempla a montanha e o céu. A diária, em alta temporada, chega a US$ 980 para o casal.
A tarifa (de qualquer uma das lindas suítes) inclui o circuito clássico do SPA Entre Cielos, que aplica o Hamam, o tradicional banho turco, em um total de 90 minutos de cuidados ao corpo. Há tratamentos adicionais, como a massagem com espuma, feita com produtos à base de azeite de oliva. O lugar é aberto ao público e o plano básico de Hamam custa US$ 50 por pessoa.
Nos hotéis do Vale do Uco, a hospedagem rural é regada a vinho. No Hotel Fuente Mayor, além de conhecer vinhedos e desfrutar do SPA, o hóspede pode cavalgar pelos campos ou praticar esportes radicais, como escaladas e rapel. Há também um campo de golfe e um cassino, para quem quiser arriscar a sorte no jogo.
A cidade de Mendoza tem uma infinidade de opções de hospedagem, de hostels a estrelados. Um dos mais novos é o InterContinental, a oito quilômetros do centro. Com amplas instalações, com capacidade para eventos com até 2.500 pessoas e elevadores que comportam até caminhonetes, o hotel também possui um dos cinco cassinos em funcionamento na cidade.
A jornalista viajou a convite do Ministério do Turismo de Mendoza.