Eliane Casagrande Ayres, especial para a Gazeta do Povo
02/05/2013 03:01
Distante a uma meia hora de trem de Madri, Toledo é uma comunidade autônoma de Castilla La Mancha, localizada na região central da Espanha, sobre o Vale do Tejo, rio que cerca a parte antiga da cidade. Fundada por volta do ano 193 a.C.,a cidade recebeu influência dos mais diversos povos. Foi tomada pelos romanos (recebendo o nome de Toletum), passou ao poder dos bárbaros e, ao final do século 6, tornou-se a capital do reinado visigodo. Foi dominada pelos árabes no ano 711, e reconquistada em 1805, por Afonso VI. Anos depois, foi proclamada capital do reino de Castilla e Leon.
Dessa mistura cultural, herdou igrejas góticas, mesquitas, sinagogas e palácios renascentistas, sendo conhecida por muitos como uma segunda Roma ou ainda como a cidade das três culturas, abrigando cristãos, judeus e árabes por um longo período.
Durante o domínio do Afonso X, denominado “O Sábio”, destacou-se como um importante centro cultural. Foi a Escola de Tradutores de Toledo que, ao passar para o latim importantes trabalhos acadêmicos e filosóficos, produzidos originalmente em árabe e hebraico, revelou uma grande quantidade de conhecimentos para a sociedade europeia.
É essa herança cultural e histórica que o visitante pode apreciar quando está em Toledo. Monumentos, construções medievais, igrejas, mosteiros e exemplares da arquitetura que encantam pela suntuosidade.
Antes mesmo chegar à impressionante Ponte de Alcântara sobre o Rio Tejo é possível observar a cidade e seus monumentos. Construída pelos romanos, a ponte é sustentada por seis arcos e possui gigantescos portões em suas extremidades. É preciso cruzá-la para chegar à parte velha da cidade, onde estão os principais ponto de visitação.
A área é cercada por muralhas e o acesso é feito por grandiosas portas. Uma delas, talvez a mais bonita, seja a Porta Nova de Bisagra, de origem árabe, com seus imponentes arcos, ligados a duas torres de características medievais.
O Portal de Bisagra pode ser o ponto inicial de um dos roteiros no centro histórico. Outra entrada é a Porta do Sol. Todos os caminhos levam a Zocodover, antigo mercado central árabe e que hoje é a praça mais importante da cidade. Ali estão o centro de informações turísticas, lojas de suvenires, bares, restaurantes e bancos.
Zocodover é o ponto de encontro dos toledanos e também um bom lugar para o visitante descansar e tomar uma sangria. Os bancos de pedra da praça têm desenhos de Dom Quixote e Sancho Pança. Os personagens da obra de Miguel Cervantes podem ser vistos também nas vitrines e ruas em diversos tamanhos e materiais como madeira, latão e chumbo.
A partir da praça, a dica é seguir até a colina onde está o Palácio de Alcázar, um dos mais importantes pontos turísticos da cidade. Suas torres podem ser vistas a quilômetros de distância. O palácio, construído pelos romanos por volta do século 3 e depois reformulado pelos cristãos, foi prisão de estado, local da Casa de Caridade e, durante a Guerra Civil, foi sede da Academia Militar, além de ter sido também a residência oficial dos reis da Espanha.
Hoje é um exemplo do renascimento toledano. Abriga o Museu do Exército e a Biblioteca de Castilla La Mancha, a segunda mais importante do país. Próximo ao palácio está o Paseo del Carmen, com dois mirantes, que ficam na ponta da rocha e de onde se tem vistas maravilhosas do rio Tejo e das cercanias de Toledo.
Circuito Mosteiros e sinagogas surgem entre ladeiras
Passear por Toledo é surpreender-se constantemente com tantos encantos escondidos entre os becos e ruelas estreitas. Um bom exemplo é o Monastério San Juan de Los Reyes, considerado uma das amostras mais valiosas do estilo gótico-isabelino. O monastério, construído para a Ordem Franciscana, foi financiado pelos Reis Católicos Fernando e Isabel. A construção tinha dois objetivos: celebrar a vitória da batalha de Toro, travada entre os monarcas espanhóis e o rei Alfonso V de Portugal, e servir como sepulcro real. Mas os Reis Católicos foram enterrados na Capela Real, localizada na cidade de Granada.
As igrejas de São Sebastião e Santa Eulália são monumentos herdados dos moçárabes – cristãos ibéricos que viviam sob o governo muçulmano. Já os mudéjares deixaram exemplar do estilo com ricas decorações árabes como Santiago del Arrabal, conhecida também como a Catedral do Mudéjar. Ainda nessa mesma linha pode-se conhecer a Igreja de Santo Tomé, famosa por acolher em seu interior o quadro de El Greco, O Enterro do Conde de Orgaz.
Domenico Theotocópuli, El Greco, era apaixonado por Toledo, onde estão quase todas suas obras. A Casa-Museu do pintor fica no quarteirão judaico, perto da Igreja de São Tomé. No museu está a famosa Vista de Toledo, os doze apóstolos e inumeráveis retratos de pessoas que viveram na época do artista.
As sinagogas de Santa Maria La Blanca e a Del Tránsito são vestígios da comunidade hebraica. A primeira é uma boa mostra da arte mudéjar toledana, com seus belíssimos arcos. Importante observar o marcante contraste entre a riqueza do seu interior e a austeridade externa.
No interior da Sinagoga Del Tránsito ainda se conservam em ótimas condições os muros com as inscrições hebraicas, as tribunas do lado direito, reservadas para as mulheres, e o tabernáculo em forma de arco, todo trabalhado em dourado. Numa sala à parte fica o museu Sefardi, onde se encontram objetos doados por membros desta comunidade, do mundo inteiro. Uns ligados às festas, como o Purim – celebração da milagrosa salvação dos judeus da Pérsia, que lá foram exilados após a destruição do Primeiro Templo –, outros relacionados à circuncisão, o matrimônio e à morte.