Turismo

No Marrocos, a experiência única de dormir sob as estrelas do Saara

Andrea Torrente
22/01/2016 22:00
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Parte de van e parte sobre dromedários, passeio de três dias percorreu 550 quilômetros entre Marrakesh e Merzouga, onde começam as dunas. Fotos: Mariana Quintana.

O silêncio do deserto é pleno e assustador. A sensação de paz e isolamento é absoluta. Só as rajadas de vento e som dos tambores e dos cantos berberes – populações nômades que habitam as regiões mais isoladas do Saara há milênios – rompem a calmaria. Olhando para cima, uma pergunta não quer calar: como pode o céu conter tantas estrelas?
O passeio no deserto é uma das experiências mais incríveis que o turista pode fazer no Marrocos. Excursões saem de todas as principais cidades do país. A duração varia de 2 a 5 dias e, além do passeio entre as dunas, os tours incluem visitas a cidades históricas, oásis, belezas naturais e vilarejos berberes.
Antes de viajar, pesquise bastante e contrate uma empresa confiável (as avaliações dos internautas são um ótimo termômetro). Ou compre o pacote diretamente no hotel em que você se hospedará – muitos deles têm parcerias com os guias locais. Há tours para todos os gostos e bolsos: de grupo, claro, são mais econômicos e costumam ter até 15 pessoas de diversas nacionalidades. O traslado é feito de van.
A reportagem fez um passeio de três dias, com saída de Marrakesh e chegada a Merzouga, a 550 quilômetros de distância. A cidade, localizada perto da fronteira com a Argélia, é a porta de entrada para o deserto. O pacote, que inclui traslado, passeio de dromedário, café da manhã e jantar custa 80 euros por pessoa.
1.º dia
A viagem começa às 7 horas. Logo saindo de Marrakesh, os belíssimos cenários da cordilheira do Alto Atlas, que conta com as maiores altitudes do Norte da África, como o monte Tichka, que tem 2.260 metros, são o primeiro atrativo. A estrada serpenteia pelas encostas das montanhas e atravessa vilarejos berberes. Uma breve parada é dedicada a visitar uma pequena cooperativa de mulheres que produzem o óleo de argan, extraído manualmente de uma noz típica da região e utilizado para uso culinário e cosmético.
Nos vilarejos berberes próximo ao monte Tichka, mulheres que produzem o óleo de argan.
Nos vilarejos berberes próximo ao monte Tichka, mulheres que produzem o óleo de argan.
Após o almoço típico marroquino à base de couscous ou tagine (guisado de legumes com carne, frango ou cordeiro), a tarde é dedicada a conhecer a kasbah de Ait-Ben-Haddou, uma antiga fortaleza que remonta a 757. O lugar é tão encantador e bem conservado que, além de ser patrimônio da Unesco, foi utilizado como cenário de filmes hollywoodianos como O Gladiador, Lawrence da Arábia, A Múmia e alguns episódios de Game of Thrones.
O dia termina num pequeno hotel no meio do caminho com um jantar à base de pratos locais acompanhado do som dos tambores e dos cantos tradicionais marroquinos.
A hipnotizante kasbah de Ait-Ben-Haddou, uma antiga fortaleza que remonta a 757.
A hipnotizante kasbah de Ait-Ben-Haddou, uma antiga fortaleza que remonta a 757.
2.º dia
Café, chá de menta, geleias fresquíssimas e crepes para enfrentar o dia. A viagem segue pela cordilheira até a cidade de Tinghir onde o programa conta com uma visita a um oásis. Ali as mulheres cultivam alfafa, oliveiras e outras plantas para contribuir ao sustento da família. A etapa é a ocasião certa para quem quer comprar um típico e colorido tapete marroquino. Eles ainda são fabricados com as antigas técnicas de tecelagem. Os feitos com lã de dromedário estão entre os mais caros, mas muitos têm um preço acessível, a partir de 100 euros.
Receber convidados com chá de menta é tradição marroquina.
Receber convidados com chá de menta é tradição marroquina.
Chegando a Merzouga, por volta das 16 horas, a viagem continua a bordo dos dromedários. O passeio no meio das dunas dura cerca de 1h30 e permite tirar fotos incríveis do pôr-do-sol. O acampamento para passar a noite fica atrás de uma grande duna, protegido das rajas de vento. As barracas são simples, mas o interior é decorado com belos tapetes, colchões e almofadas em estilo arabesco. Após o chá de boas-vindas, é servido o tradicional tagine.
Apesar de não ter todos os confortos (não tem pia nem chuveiro, afinal estamos no deserto!), o extraordinário espetáculo das estrelas cadentes e da lua que ilumina as dunas são uma generosa recompensa. Para alegrar a noite, os guias reúnem os hospedes em torno de uma fogueira (a noite no deserto é bastante fria) e entoam antigos cantos berberes acompanhados do ritmo tribal dos tambores.
3.º dia
É preciso acordar cedo para poder assistir ao nascer do sol. Lentamente, os raios que surgem detrás das dunas enchem o céu de uma luz rosa que cresce em intensidade até colorir todo o horizonte de amarelo ocre. Após o frio noturno, o sol finalmente esquenta os ossos e a alma durante o passeio de dromedários pelo caminho contrário. As dunas ficam para trás.
Antes de voltar a Marrakesh – a viagem dura cerca de 10 horas – ainda dá tempo de uma rápida parada nas Gargantas de Todra, canyon localizado perto de Tinerhir. As paredes de rochas, que foram moldadas durante milhões de anos pelos rios Todra e Dades, alcançam 160 metros de altitude e no ponto mais estrito 10 metros de largura. Uma paisagem arrebatadora para fechar a excursão com chave de ouro.
Gargantas de Todra: canyon moldado durante anos pelos rios Todra e Dades.
Gargantas de Todra: canyon moldado durante anos pelos rios Todra e Dades.