“Enrique Rauch, capitão do cruzeiro de expedição Stella Austrais, confere o presente diploma por ter alcançado o Cabo de Hornos, o ponto mais austral do mundo”, diz o diploma que garante ao passageiro que ele chegou ao fim do mundo, e o melhor de tudo, voltou para contar a história. Hoje em dia, a viagem não é perigosa. Mas ao longo dos últimos séculos, muita gente não teve a mesma sorte.
Todo ano, de setembro a abril, a empresa de cruzeiros Australis lança no mar os navios Via e o Stella Australis, para navegar pelo Estreito de Magalhães e pelo Canal de Beagle. Há opções de três, quatro e sete noites. As rotas partem de Punta Arenas, no Chile, e de Ushuaia, na Argentina.
Os dois navios percorrem a região da Terra do Fogo, batizada assim por Fernão de Magalhães por ter sido habitada por índios fueguinos, nome dado pelos espanhóis, por fazerem fogueiras permanentes no inverno. O navegador português foi o primeiro estrangeiro a chegar na região, em 1520, durante uma volta ao mundo. Ele levou 30 dias para percorrer o trecho que o Stella, hoje, faz em quatro.
Descontado o avanço da tecnologia, a demora da viagem de Magalhães bem que poderia ser creditada à beleza do lugar. Não é difícil imaginá-lo encantado com o cenário, a fauna e a flora: colinas arredondadas, montanhas cobertas de gelo, milenares glaciares gigantescos, simpáticos pinguins, enormes leões marinhos, golfinhos, aves migratórias, entre outros animais peculiares.
Dia a dia
“Estimados hóspedes, bom dia. Aqui quem fala é o capitão, convidamos a todos para o café da manhã no salão Darwin. A temperatura é de 7ºC ou 45ºF”, soava no interfone do quarto. O anúncio se repete até cinco vezes por dia, sempre antes das refeições e dos passeios.
Embora adote o sistema all inclusive, o Stella Australis não é um cruzeiro comum. O navio – com capacidade para 210 passageiros, distribuídos em 100 cabines, em quatro andares – não tem piscina, nem animadores dançando no deck. Também não há televisores, wi-fi e sinal de celular. Mas não faltam distrações. Os dois passeios diários, um de manhã e outro à tarde, e a tripulação, sempre animada, garantem toda a emoção.
Para quem parte de Punta Arenas rumo a Ushuaia, o primeiro dia é reservado aos avisos de segurança e o jantar de boas vindas. No dia seguinte, há saídas para Baía Ainsworth e Isla Tucker, onde os pinguins são a atração principal. Por causa de leis ambientais, não é possível descer dos botes infláveis, que são usados em todas as expedições. No terceiro dia, o Glaciar Pía, uma enormidade de gelo de quase 80 metros de altura. O bote se aproxima razoavelmente da galeria. Quem tiver sorte, pode presenciar a queda de um bloco de gelo na água, o que provoca um estrondo repentino e assustador.
O quarto e penúltimo dia é reservado ao Cabo Horn, o último pedaço de terra antes da Antártica, o fim do mundo. Aqui é preciso ter sorte. Com ventos que chegam facilmente a 100 km/h, o desembarque pode ser cancelado. Se tudo der certo, vale a foto no ponto mais austral da Terra.
As noites no navio são animadas por festas temáticas e palestras diárias sobre o destino de desembarque no dia seguinte. No único restaurante a bordo, as refeições são servidas com horários definidos. Petiscos e lanches podem ser degustados no último andar, onde fica o bar. Na última noite, o capitão faz um discurso e promove um leilão da carta de navegação usada na travessia para o Cabo Horn.
O jornalista viajou a convite da Australis.
Cruzeiros podem começar a partir do Chile ou da Argentina
Os cruzeiros Australis usam duas cidades como ponto de partida: Ushuaia, na Argentina, e Punta Arenas, no Chile. Portas de entrada para o continente antártico, estão a 3.040 km de Buenos Aires e 3.414 km de Santiago, respectivamente.
Chamada carinhosamente de “fim do mundo”, Ushuaia tem aproximadamente 60 mil habitantes. Ponto de presença humana mais ao sul da Argentina antes da Antártica, a cidade tem despontado como destino turístico de massa na última década, inclusive para brasileiros que vão esquiar ou ver os picos nevados na extremidade sul dos Andes.
Até a década de 1950, Ushuaia abrigava um presídio, onde hoje funciona o Museu Marítimo de Ushuaia & Museu do Presídio. Naquela época, as autoridades do país justificavam a falta de muros no edifício alegando que o clima da região já era suficiente para dissuadir fugitivos – tanto no inverno, quanto no verão a temperatura raramente passa dos 10ºC. Mas ventos de até 80 km provocam sensação térmica de -8ºC.
Cheia de casinhas coloridas e monumentos que fazem questão de lembrar ao visitante o tempo todo que ele está no fim do mundo e na capital da Terra do Fogo, Ushuaia tem uma excelente infraestrutura turística: hotéis, restaurantes, cafés, bares e lojinhas garantem uma boa semana de diversão.
A cidade é considerada a “capital” das Malvinas (Ilhas Falklands), alvo de disputa entre argentinos e ingleses desde 1833. Em posse do Reino Unido há quase dois séculos, a ditadura militar argentina tentou retomar o território à força, em 1982, e acabou derrotada.
Partida do Chile
Punta Arenas, no Chile, tem quase 150 mil habitantes. Zona franca, a cidade é conhecida por receber equipamentos eletrônicos e carros da Ásia, que são revendidos no restante do continente. Nos hotéis, um aviso: não fique parado na esquina. Lá os ventos são tão fortes – até 100 km/h – que é comum as pessoas caírem. Simpática e bem estruturada, a cidade tem pontos turísticos interessantes e que merecem uma visitinha antes de embarcar, principalmente o Museu Salesiano Maggiorino Borgatello.
Fundado em 1893, o museu mantém uma incrível coleção de artefatos e ferramentas das antigas civilizações indígenas que habitavam a Patagônia; fósseis e animais taxidermizados; amostras de fauna e flora e outros elementos reunidos ao longo dos anos, desde a fundação do museu. Não é permitido fotografar.
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