Comportamento

Alternativos, com os pés no chão

Michele Bravos, especial para a Gazeta do Povo - micheleb@gazetadopovo.com.br
21/11/2010 02:16
Uma loja que vende roupas de brechó estilizadas, oferece cortes de cabelo com o mais antenado dos profissionais e ainda vende cupcake doce e salgado pode virar moda e lotar nos primeiros meses, mas, pouco depois, a plaquinha com a palavra fechado não sai mais da porta. A iniciativa era tão inusitada! Por que não deu certo?
O empresário Erlon de Oliveira, consultor do Sebrae e professor de administração das Faculdades Spei, garante que qualquer mercado tem abertura para novos negócios, inclusive o de Curitiba. Mas além do diferencial, é preciso ter planejamento. A cada novo empresário – seja um funcionário vitalício, desejando partir para uma empreitada solo ou um jovem com iniciativas inovadoras, almejando um futuro profissional dos sonhos – que se senta em frente ao consultor, pedindo por uma solução para o negócio que não anda de vento em popa, o diagnóstico costuma ser semelhante: paixonite aguda pela própria ideia. O consultor comenta que essa paixão faz os empresários esquecerem-se da parte estratégica e burocrática. “O primeiro passo é pensar antes de investir efetivamente. Às vezes, o problema é a forma como se explora a ideia e não a ideia em si.”
Quando a Lamb. (Laboratório Al­­ternativo de Moda do Brasil, loja/marca que vende produtos de vanguarda) nasceu em 2004, ela era muito artística e pouco viável comercialmente. A empresária Carolina Marzal, 28 anos, na época récem-for­­mada em moda, e mais três amigas criaram o espaço para expor o que produziam. A ideia de coletivo criativo, novidade em Curitiba na época, chamou muito a atenção, recebendo um fluxo grande de pessoas. Porém, poucos eram os compradores em potencial. E Carolina era obrigada a pagar contas – muitas contas. Em 2007, a Lamb precisou customizar a marca, costurando uma nova estratégia de mercado para poder se manter. “A criação é uma fração. O desafio é manter o negócio e conservar a identidade. Não o contrário”, afirma a empresária. Caro­lina admite que se tivesse continuado no mesmo caminho, não estaria com a loja aberta até hoje.
Lojas como a Lamb, a Galeria Lúdica e o NovoLouvre romperam uma resistente membrana e injetaram inovação e criatividade no núcleo curitibano. Inicialmente um público bem específico foi atingido. Eram pessoas viajadas, mais elitizadas, que se importavam mais com o conteúdo do produto (formas, modelagens) do que com status. Atualmente, algumas propostas destas lojas já conseguem respingar no gosto dos mais tradicionais. As três reconhecem que são irreverentes, mas rejeitam o rótulo de alternativas, justamente pelo estereótipo atribuído à palavra. Estratégia de bom empreendedor.
Próximos passos
De degrau em degrau, a Lamb. tem evoluído e se fortificado. Versatili­da­­de é a palavra que estampa – subjetivamente – as criações. A nova sa­­cada é a loja itinerante. Per­­cebendo que seu público tem pouco tempo para ir à loja, a intenção é que a loja possa ir aos clientes. A es­­tratégia permite que a marca não fique restrita à Curitiba. Já houve ações em Flo­­rianópolis e Rio de Janeiro.
O alternativo sofisticado
Em 2000, São Paulo já borbulhava de estilos e novidades. Curitiba era shoppings e parques. Débora Mello, 33 anos, atual coordenadora-geral da Galeria Lúdica, morava na capital paulista e veio para Curitiba acompanhando os pais. A vida boêmia paulistana teve que ser adaptada à curitibana e foi nesse meio que conheceu muitos criadores (designers, fotógrafos, estilistas), que lhe mostraram a lacuna que existia em Curitiba para se expor trabalhos diferenciados. Há um ano, junto com um coletivo de criação, ela toca a Galeria Lúdica, que veio ser a casa de muitas dessas ideias que vagavam por aí: moda, design, arte e até ciclo de palestras. Débora se orgulha de ter vivido o crescimento da cidade. “Hoje, sim, Curitiba é uma capital. Eu acompanhei esse crescimento e posso dizer que as pessoas cresceram juntas. O jovem de hoje é muito mais aberto que o jovem de dez anos atrás” afirma.
A razão de ser
Quando terminou a faculdade de arquitetura, Mariah Viana, 30, empresária e uma das sócias do NovoLouvre, resolveu abrir uma livraria que disponibilizasse publicações da sua área. No entanto, sobrava espaço no imóvel do bisavô Calluf, uma construção antiga no Largo da Ordem. Então, vieram as roupas, os acessórios e os cafés aromatizados com inúmeras essências. Foco? Ela admite que não tinha, e até agora acha que não tem.
Mas, se olharmos melhor… O direcionamento da empresa não precisa estar necessariamente nos produtos oferecidos, mas na sua razão de existir. A razão do NovoLouvre é trabalhar com tendências, exclusividade e conceitos.
No meio do caminho, o café ficou desativado, o espaço para os livros diminuiu e uma linha para noivas foi incorporada. Mariah diz: “O papel aceita tudo, mas as variáveis são muitas. O ideal é buscar alternativas e sair do foco se for o caso.” O segmento noivas chegou à loja porque a empresária percebeu que havia uma falha em Curitiba em suprir a demanda de noivinhas que queriam mais ousadia e menos “tomara-que-caia”.