Itaércio Rocha, fundador do bloco Garibaldis e Sacis e puxador de samba. Foto: Renata Surian/Gazeta do Povo
Aos nove anos de idade, Itaércio Rocha ficou hospitalizado em São Luís (MA) com uma pedra na bexiga. Foram quatro longos meses e o carnaval chegou. Mesmo adoecido, resolveu ir para a janela com os colegas da ala infantil ver, do último andar do prédio, o bloco Tambor de Crioula, que passava pela rua São Pantaleão. Uma das participantes notou as crianças e resolveu fazer uma apresentação para eles. “E foi ali, naquele momento, que fiz uma promessa para mim mesmo: não importa o que aconteça, eu sempre vou brincar no carnaval”, relembra.De lá para cá, o artista e educador de 54 anos morou em Olinda, Campo Grande, Rio de Janeiro e Maringá. Mas a paixão pela festa de Momo nunca o abandonou e, há 16 anos em Curitiba, fundou o bloco pré-carnavalesco Garibaldis e Sacis, junto com amigos da Faculdade de Artes do Paraná (FAP), do Conservatório de MPB, do Teatro de Bonecos e do grupo Mundaréu. “Percebi que a cidade precisava de um aquece para preparar o espírito. Afinal, carnaval não é uma coisa que cai do céu. É uma produção humana, uma produção cultural árdua e séria”, resume.No início, a classe artística comprou a ideia e fez acontecer. Atualmente, 70 profissionais, de diversas áreas, fazem parte da organização dos desfiles de pré-carnaval, que atraem cerca de 20 mil foliões de todas as idades e de diversas partes do mundo. Desde o ano passado, a equipe tem o projeto de levar alegria para as regiões mais afastadas. “No ano passado e neste ano, fizemos festa no Sítio Cercado. Foi muito emocionante ver famílias inteiras que, muitas vezes, não podem se deslocar até o Centro”.
Antídoto contra a tristeza
Lourdes de Carvalho é uma foliã tardia: conheceu os bailes de clubes há três anos e se apaixonou.
A criação religiosa da ex-vendedora de roupas Lourdes de Carvalho sempre tratou a folia de momo como um tabu. Nascida em Siqueira Campos (PR), jamais imaginou que gostaria da festa. “Lá em casa, o carnaval era ‘proibido’ para nós”, conta. Aos 68 anos de idade, continua devota, mas foi só há três que aprendeu que não há nenhum pecado em se divertir.Após o falecimento de uma das irmãs, Lourdes precisou cuidar de outras três com problemas cognitivos e motores. Esgotada, pensou que não pudesse mais encontrar motivos para sorrir, e chegou a ficar internada na UTI por 12 horas, com um princípio de infarto. “Eu estava muito cansada e precisava buscar qualidade de vida. Afinal, como eu poderia cuidar de alguém se não estava cuidando de mim mesma?”. Um dia, acabou conhecendo os grupos de convivência do Centro de Referência da Assistência Social (CRAS). Lá, semanalmente, ela faz musicoterapia com outros 40 idosos e integra o coral Raízes do Passado. E foi ali, cantando com sua voz de soprano e meio sem querer, que ela aceitou o convite para participar do primeiro carnaval de sua vida, realizado no Paraná Clube, em 2013. Debutou, amou a experiência e se tornou fã de carteirinha das festas carnavalescas dos clubes da cidade. “Eu pulo, canto e dou risada. Esqueço meus problemas, supero todos os obstáculos e saio renovada”.No ano passado e neste ano, a folia foi no salão azul do Clube Curitibano. Lourdes gostou tanto que não queria que o baile terminasse. E já que a próxima festa é só no ano que vem, ela promete rezar para que a data chegue logo.
Mamãe, eu quero!
Neusa Rosas desfila há 10 anos no bloco Rancho das Flores: frio na barriga. Foto: Renata Surian/Gazeta do Povo
Desde criança, dona Neusa Rosas pedia para a mãe levá-la à matinê do Clube 15, em Ponta Grossa. A partir dos 15 anos, passou a frequentar as festas com uma vizinha, e chegou até a perder os sapatos em uma das noites de folia: “Pulei tanto, extravasei tanto, que voltei descalça para minha residência!”.Com o marido e uma filha de colo, a dona de casa veio morar em Curitiba em 1984. Chegou à cidade e ficou decepcionada com a notícia de que aqui não tinha carnaval. “Como é que uma capital não tem alegria?”, duvidou. O marido, mesmo avesso à folia, a incentivou a buscar diversão.Ela começou nas festas de bairro e clubes, mas há 10 anos conheceu a escola de samba Rancho das Flores, que anualmente abre os desfiles de rua. O bloco, formado por 500 foliões com idade entre 60 e 90 anos, tem um novo enredo a cada ano e é coordenado pela Fundação de Ação Social (FAS) e pela Fundação Cultural de Curitiba (FCC), que cedem as fantasias.Aos 63 anos, dona Neusa se prepara para o desfile como uma rainha de bateria: dorme pelo menos oito horas por dia, come a cada três horas e ingere muita água. No dia da apresentação, vai para a concentração às 14 horas, faz alongamento, ensaia o samba, faz a maquiagem, veste a fantasia e (ufa!), vai para a avenida.Mesmo tendo experiência de sobra como passista, quando o batuque começa e as luzes do sambódromo acendem, dona Neusa sente um calafrio, como se fosse a primeira vez. “Não há nada que se compare ao frio na barriga que sinto quando piso na avenida”, completa.
Ataque dos mortos-vivos
Docca Soares, um dos fundadores da Zombie Walk: festa "sangrenta". Foto: Fred Kendi/Gazeta do Povo
O professor universitário Docca Soares, de 40 anos, cresceu escutando que o carnaval na cidade é um horror. Para fazer jus ao discurso, ele e mais dois amigos marcaram, por meio da finada rede social Orkut, a primeira Zombie Walk. “Nós havíamos tentado outros eventos no estilo, mas sempre no dia de finados, como acontece em outras partes do mundo. Aqui em Curitiba essa data não pegou, e então resolvemos tentar no carnaval”, explica.A ideia deu certo. Em 2009, cerca de 250 pessoas saíram do Cemitério Municipal em direção às Ruínas de São Francisco. Atualmente, a caminhada é uma ramificação do Curitiba Rock Carnival, e conta com aproximadamente 15 mil adeptos na capital – grande parte composto por apaixonados por filmes de horror, fantasia e ficção científica.O ponto de partida deste ano será a Boca Maldita, e a caminhada vai até a praça 19 de Dezembro. Durante o percurso, as mulheres poderão se inscrever em um inédito concurso de beleza, que vai eleger a zumbi mais bonita. “A ideia surgiu como uma sátira aos concursos de miss. Nossas candidatas precisam ter acima de 16 anos e, assim como nos concursos tradicionais, terão de responder a uma pergunta, que será sorteada na hora”, explica.