Do lado de fora, uma Curitiba cheia de segredos a serem desvendados, como o complexo vai-e-vem dos ônibus ligeiros ou a forma mais eficaz de arrancar um sorriso dos interlocutores logo na primeira conversa. Para dentro, uma vida diferente da levada em casa, junto com mãe, pai, cachorro e beijo na testa antes de dormir. Dá até para dizer que a vida em pensionato é o primeiro passo rumo à independência. Mas não se engane, a liberdade nesses casos é vigiada.
Bastam dois minutos de conversa com os moradores do Flat do Estudante, que fica na Silva Jardim, para descobrir que há muitas flores, festas, uma porção de regras e alguns espinhos no caminho desses jovens. Apinhados em um quarto para a entrevista – e outros tantos palpitando da porta e fugindo das lentes do fotógrafo – revelam gostar da experiência de cuidar do próprio nariz, morrem de saudades da família, estão cheios de planos para o futuro e se divertem entregando os amigos-vizinhos. “O mais difícil de aguentar é a saudade. Quando ela vem, a gente sai correndo e bate na porta do quarto ao lado para conversar”, comenta Danielle Saraçol Ruidias, a dona do quarto da foto, de 18 anos, que veio de Joinville para estudar Economia em Curitiba. “Pior do que isso são os dedos-duros”, reclama Beatriz Saki Porcelli Mariani, 19 anos, que veio de Ourinhos (SP) e está fazendo cursinho para a faculdade de Medicina. “Tem gente que aumenta as coisas, não participa de nada e reclama de tudo. Todo mundo aqui sabe das regras, está numa situação parecida e, por isso mesmo, a fofoca atrapalha demais”, diz, emendando uma estrofe do funk composto por ela e as amigas: “Olha a festa, o barulho tá crescendo, se prepara que a Rosa tá descendo”. Em tempo: a Rosa da letra é a psicóloga Rosa Nogueira Romano, proprietária do flat junto com o marido, que está sentada no chão junto dos moradores, dando risada da homenagem.
“Eu tenho com eles a paciência que não tenho com os meus filhos. Acho que gasto tudo aqui”, brinca Rosa. Há seis anos à frente do pensionato, ela aprendeu que a conversa é sempre o melhor caminho entre as duas partes. “Logo que eles chegam, eu os recebo, passo o regulamento da casa, mostro que estou por perto para qualquer coisa. Ou seja, ninguém pode dizer que não foi avisado de alguma coisa. No decorrer do tempo, a gente vai se conhecendo, se aproximando, criando intimidade. O respeito é a medida dessa relação”, diz ela, que não admite grosserias, xingamentos e desobediência. “Sou amiga quando tenho que ser, sou mãezona quando algum deles fica doente, mas sei o meu limite. E, se precisar, eu lembro a eles”, comenta Rosa, que desce do apartamento em que mora para solucionar as confusões e não pensa duas vezes quando percebe que está na hora de chamar os pais para uma conversa ao telefone. “Já coloquei gente que tinha bebido demais pra ouvir sermão do pai pelo telefone. Se eu não faço isso na hora, é a minha palavra contra a deles.” Para ela, as broncas e as normas de convivência são um treino para a vida adulta. “Aqui eles aprendem que a solidariedade e a boa educação são importantes para dividir um quarto, para se dar bem com os amigos e para arranjar um emprego.”
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