Comportamento

Casa de quê?

Adriana Czelusniak - adrianacz@gazetadopovo.com.br
01/11/2009 02:04
Não é exagero dizer que hoje temos casas de tudo. E não é mesmo mais prático abrir a lista telefônica (ou o site dela) e buscar a loja que vende exatamente aquele item que queremos? Mas por trás de um comércio que traz o nome “casa” tem muito mais do que praticidade ou tradição. Esse tipo de estabelecimento faz parte da biografia do Brasil, uma vez que a história das casas de comércio se mistura com a vinda da família real portuguesa, em 1808. Alguns acontecimentos da época, como a abertura dos portos brasileiros, contribuíram para o início do desenvolvimento do comércio nacional, principalmente no Rio de Janeiro.
Como o país passou a receber um grande número de manufaturas europeias, principalmente inglesas, havia a necessidade de organizar a venda desses produtos. “O comércio era dominado por famílias portuguesas, nas famosas ruas do comércio. Em geral, essas ruas coincidem com os velhos centros, onde moravam as famílias abastadas que dominavam o comércio ou moravam no centro por ser ali onde movimentava-se toda a vida da cidade”, afirma José Luíz de Carvalho, escritor e historiador do Museu Paranaense da Secretaria de Estado da Cultura.
Trabalho e moradia
A “casa” era uma terminologia comum no século 19, quando não se distinguia moradia de comércio. Em algumas cidades do interior do estado, como Ponta Grossa e Castro, ainda pode ser observado. “Há lojas antigas em que os netos e bisnetos do comerciante ainda moram lá e cuidam dos negócios”, diz Carvalho.
Cerca de duas décadas depois da vinda da realeza, recém-chegados imigrantes, especialmente alemães, passam a dominar o comércio no ramo de ferragens, louças e armamentos. No século 20, um terceiro momento de mudança, quando as cidades se expandem e o comércio passa a se descentralizar. “As famílias que moravam nos centros antigos se mudam e as ruas do comércio começam a ficar decadentes. Temos como exemplo a Rua XV de Novembro, a Marechal Deodoro e a Ria­­­chuelo, que sofreram com o abandono e tiveram muitos es­­paços comerciais vendidos”, diz. De fato, muitas “casas” desapareceram, mas algumas abrem suas portas um pouco enferrujadas até hoje, mantendo e renovando a clientela. O Viver Bem foi conhecer um pouco da história das famílias que estão por trás dessas lojas sobreviventes e também procurou lojas recentes que entraram no embalo e aderiam à alcunha “casa”, seja pela tradição ou pela praticidade que o nome traz.
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Artigos religiosos e mais (foto 1)
Há quem atravesse a rua para não passar perto da Casa do Fumo, de Artigos Religiosos e Chapelaria, faça o sinal da cruz ou cara feia, mas o empresário Joaquim Ozir da Cunha da Silva diz que não se importa. “Já me preocupei e pensei em mudar de ramo por causa do preconceito dos outros e do meu também, mas foi só no início. Hoje agradeço pela oportunidade de negócio, sou um comerciante como outro qualquer”, diz, fazendo questão de esclarecer que na sua loja “não tem só vela preta para macumba”. Há 38 anos, Joaquim saiu do exército montou uma pequena sapataria. Hoje vende mais de dois mil itens, de chapéus a cachimbos, fumo, palha e artigos de todas as religiões.
Rua Desembargador Westfalen, 269 (em frente à Praça Rui Barbosa), fone (41) 3232-7759.
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Casa Hilú à espera de um destino (foto 2)
Dona Otília Nicolati Hilú, 92 anos, percorre com agilidade os corredores de tecidos expostos em sua loja. Seu olhar atento não deixa escapar nenhum detalhe: “Como podem passar por aqui e não arrumar isso?”, se pergunta, em voz alta, referindo-se a um fio que as vendedoras esqueceram pendurado em um rolo de tecido. Otília ainda era bastante jovem quando entrou na Casa Hilú pela primeira vez, após ter se casado com o imigrante sírio Miguel Hilú. Em 1928, o então mascate Miguel quis ampliar suas vendas e inaugurou a loja, sem deixar de percorrer a cidade de charrete oferecendo seus tecidos. Otília passou décadas de sua vida dentro da loja, mas lamenta, ao olhar para fora, as transformações ocorridas no entorno. “Vou ter que sair lá na rua para tirar foto?”, pergunta, receosa com o movimento da Rua Riachuelo. Pelo menos essa preocupação pode não durar muito. Este mês deve ter início o processo de revitalização da Riachuelo e o que os comerciantes e moradores locais esperam é que o movimento e a segurança melhorem no local.
Rua Riachuelo, 244, fone (41) 3222-7152.
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Assim como o avô (foto 3)
Quando Bruno Ling assumiu o negócio iniciado pelo avô Alberto Ling em 1946, na Praça Zacarias, ele pensou em mudar o nome da loja, mas acabou desistindo. “Sempre chegam clientes antigas dizendo que compravam do meu avô quando ele tinha a minha idade. Algumas até trazem o cartão de cliente preferencial, eu nem era nascido quando meu avô os distribuía”, conta. Se o nome continuou o mesmo, a loja mudou. “Meu avô vendia muita coisa, hoje o meu forte são os calçados, 80% do que vendemos”, conta.
Voluntários da Pátria, 253, fone (41) 3224-4941.
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Especialização na Glaser (foto 4)
Em 1887, quando abriu as portas pela primeira vez, a Casa Glaser era uma loja pequena, que só em 1914 passou a “vender de tudo”. A clientela encontrava secos e molhados, cereais, enfeites, armas e vidros, que eram cortados na própria loja. Mário Glaser, neto do primeiro proprietário, Wenceslau, é quem gerencia o negócio familiar. Há 72 anos, Mário nasceu na casa onde trabalha até hoje. “Comecei a trabalhar aos 16 anos, na entrega de mercadorias. Mais tarde passei a fazer cobranças, fui atender no balcão e cheguei ao escritório. Quando meu pai teve um problema no joelho, eu e um irmão assumimos”, lembra. Agora a Casa Glaser é especializada em presentes e segue, assim como Mário, aguardando sangue novo nos negócios. “Das minhas três filhas, uma ajuda mais. Espero que o dia em que eu fechar os olhos nossa casa continue sendo bem cuidada”, diz.
Rua Visconde do Rio Branco, 1.604, fone (41) 3222-2947.
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Os clientes é que deram o nome (foto 5)
Quando o empresário Euclides Giust ouviu que havia a oportunidade de abrir um negócio no Mercado Municipal, ele deixou uma metalúrgica em Piracicaba (no interior paulista) e mudou-se para Curitiba, abrindo a loja A Noiva da Colina, uma alusão a sua cidade natal. O nome não pegou. Quando o irmão de Euclides, Luiz, assumiu o negócio, a primeira atitude foi ouvir os clientes e mudar o nome do armazém para Casa da Azeitona. A aceitação foi total. Hoje a loja tem mais duas filiais, mais dois ajudantes, os sobrinhos de Euclides, Ricardo e Fernando, e além das azeitonas vendem queijo parmesão, castanha, bacalhau, azeite e uma ampla linha de temperos.
Mercado Municipal Box 33/36, Av. Sete de Setembro, 1.865, fone (41) 3264-1132.
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O terceiro irmão (foto 6)
No cartão de visitas do polonês Joel Bergman, ele divulga o seu negócio: “Confecções Finas para Senhoras e Cavalheiros”. Ele anda com dificuldade, mas faz questão de levantar quando o galo canta e de se acomodar atrás do balcão da loja aberta há 59 anos, por seus dois irmãos mais velhos. Apesar de vender roupas para cavalheiros, ele observa que hoje a clientela mudou: “Homem não compra mais roupa, anda de qualquer jeito. Quem compra aqui são as mulheres”, lamenta.
Rua Voluntários da Pátria, 65, fone (41) 3224-0943.
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Tudo pela freguesia (foto 7)
Não é pelo tricô, crochê, aviamentos ou artesanato que a Casa Bandeirantes continua em funcionamento desde 1943. Jorge que, junto do filho Felipe, cuida do negócio deixado pelo pai, diz que se fosse abrir um comércio hoje, não seria uma loja de aviamentos, mas que permanece em respeito aos clientes. “Na verdade, nós não temos clientes, temos freguesia. Aqui, mais da metade das pessoas que entram pela porta são fregueses antigos, ou filhos e netos de fregueses antigos que chegam contando que vinham fazer compras pequenininhos, acompanhando parentes que já se foram”, conta. Jorge nasceu no segundo andar, em cima de onde é hoje a loja, e, assim como ele, seu filho Felipe também cresceu em meio à lãs e linhas. “Os clientes nos valorizam pela nossa tradição. Antes vendíamos tecidos, brinquedos e hoje são mais lãs e aviamentos, mas atendemos no mesmo lugar e da mesma forma”, conta Felipe.
Praça Generoso Marques, 226, fone (41) 3222-8212.