É senso comum a ideia de que as pessoas mais velhas não amam da mesma forma que os jovens. Mas o que não faltam são belas histórias de casais que tiveram suas vidas transformadas, mesmo depois de envelhecer. E especialistas em comportamento são unânimes: o namoro faz com que as pessoas se sintam jovens novamente e este é, realmente, um dos “efeitos colaterais” do amor, comemorado por casais de todo o país na próxima quarta-feira, dia dos namorados.
Começar uma relação nessa fase da vida pode parecer um desafio. Afinal, é um período em que acumulamos muitas experiências. Na maioria das vezes, as pessoas tiveram outros amores, filhos e netos. “Um relacionamento assim representa a vitória da esperança, pois mesmo com decepções e perdas, ainda conseguimos nos doar e sentir novas emoções”, diz Renate Michel, professora de Psicologia da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR).
Além disso, encontrar alguém na terceira idade significa enfrentar a insegurança e o medo de não ter controle sobre si mesmo. “Essa liberdade é algo que nos acalma e alivia o estresse que sentimos quando não deixamos as coisas acontecerem”, completa a psicóloga Ana Suy Sesarino, professora das Faculdades Integradas do Brasil (UniBrasil).
Pé de valsa
A história do casal de aposentados Miguel Baranawski, 83 anos, e Zeila Tonetti, 68 anos, confirma o efeito transformador do amor após os 60 anos. Os dois se conheciam dos bailes da terceira idade que ocorrem em Curitiba, mas não tinham se dado atenção. Tudo mudou, no entanto, no dia em que ele, separado há 18 anos, foi fazer um trabalho de construção civil na serraria do filho dela, viúva há cinco. “Foi uma coincidência. Percebi que a conhecia e era interessante. Chamei-a para sair e estamos juntos desde então”, revela Baranawski.
Para Zeila, o namoro trouxe um ânimo novo, há três anos. Com o companheiro, que se considera um pé de valsa, ela se tornou uma exímia dançarina, começou a nadar e passou a viajar com mais frequência. “Ganhamos um prêmio de novos talentos com dança de salão num cruzeiro pela Argentina”, conta animada.
Embora não dividam o mesmo teto, os dois estão sempre juntos. Nos dias em que não conseguem se encontrar, ficam ao telefone durante a noite. “E, às vezes, a conversa dura horas”, confidencia o aposentado entre risos. Para ele, a maior diferença de relacionamentos entre idosos é o modo como se encara o amor. “Nessa idade, procuramos o entendimento mútuo mais do que a atração.”
Combinar
A compreensão entre o casal é essencial para que um relacionamento amoroso funcione na terceira idade. “Quando eles são separados ou viúvos, buscam alguém para dividir experiências do dia a dia. É uma época da vida em que se precisa e se quer o olhar de alguém, que testemunhe e partilhe conosco”, observa a psicóloga Renate.
O construtor aposentado Amazonas do Nascimento, 72 anos, e a vendedora Maria das Graças Correia, 54 anos, repetem com orgulho que combinam em tudo, do gosto pelos restaurantes da cidade às músicas que dançam nos bailes vespertinos. “Fazemos academia, vamos à igreja e caminhamos. Somos muito parecidos”, afirma ele.
O namoro começou num baile da Sociedade Morgenau, em Curitiba. Nascimento era viúvo há oito anos e Maria separada há seis. Apesar da diferença de idade, eles garantem que a compatibilidade de gênios foi imediata. “Percebi que ele não bebia, não fumava e dançava bem. Pensei na hora que esse homem era para casar”, brinca Maria, que diz que a troca de alianças será no próximo ano.
Pessoas maduras têm vantagem sobre os jovens, pois aprenderam a valorizar o tempo. De acordo com a psicóloga Ana Suy Sesarino, o acúmulo de experiência facilita que as pessoas desfrutem melhor do amor. “Quando somos jovens, temos a expectativa de construir uma vida nova. Depois que atingimos isso, aprendemos a conviver sem o peso do futuro. Isso torna os relacionamentos mais leves e, muitas vezes, mais prazerosos.”
Recomeço
Encontrar um amor na terceira idade é dar um novo rumo para vidas que, geralmente, estavam estabilizadas. A ex-empresária Lenita Noeli Menegusso, 71 anos, divorciada há 25 anos, jamais imaginou que voltaria ao altar depois de aposentada. Mas isso ocorreu no último 1.º de março, quando se casou de papel passado com o médico Leon Gouveia, 70 anos.
Os dois se conheceram numa excursão a um parque aquático de Olímpia, no interior de São Paulo, há um ano. Para ele, foi paixão à primeira vista. Mas, como morava em Brasília e ela em Curitiba, o relacionamento demorou a engrenar. Inicialmente, trocavam mensagens de celular, e-mail e conversavam por videoconferência. Quando Gouveia se mudou permanentemente para a capital paranaense, Lenita percebeu que a relação estava séria e precisava ser oficializada. Depois do casamento, os dois fizeram um cruzeiro pela Jamaica e hoje moram juntos.
Inspire-se
Em clima de dia dos namorados, nada melhor do que assistir a filmes que falem sobre o amor entre pessoas com mais de 60 anos. Veja nossa seleção:
Cocoon (1985)
Embora seja uma ficção científica, o filme do diretor Ron Howard mostra um grupo de idosos que redescobre o amor após um banho numa piscina que guarda ovos de alienígenas pacíficos. A libido e a sedução dos personagens rendem cenas divertidíssimas.
Alguém Tem Que Ceder (2003)
Na comédia romântica dirigida por Nancy Meyers, Jack Nicholson interpreta um aposentado que, após um infarto, precisa ficar de repouso na casa da mãe de sua jovem namorada, vivida por Diane Keaton. Aos poucos, os dois se envolvem amorosamente.
Elsa e Fred (2005)
O argentino Marcos Carnevale mostra que o amor pode bater à nossa porta a qualquer momento numa trama que acompanha um homem com mais de 80 anos que se envolve com sua vizinha, da mesma idade.
Quarteto (2013)
O longa-metragem de Dustin Hoffman mostra um quarteto de músicos que, para uma apresentação no asilo em que vivem, relembram antigas amizades e amores.
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