Há duas semanas, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgou um estudo que revela que mais da metade das famílias brasileiras está endividada. Das 3,8 mil famílias entrevistadas, de 214 cidades do país, 37,8% disseram não ter capacidade para pagar suas dívidas. Dos endividados, que somam 54,36%, 91% declararam que pretendiam pedir um empréstimo nos próximos três meses.
Nem é preciso dizer que essa gente sofre do mal da falta de controle financeiro. A causa é sempre a mesma: gasta-se mais do que se recebe. Mas, como saber se os gastos estão sendo demais, se nem ao menos se sabe o quanto se está gastando? O administrador de empresas especialista em Finanças Maurício Marchesini, professor da Unicuritiba, fez um estudo com um grande grupo de alunos para descobrir porque eles estavam endividados. “Descobrimos que ninguém fazia conta alguma”, lembra Maurício.
Talvez você tenha torcido o nariz para a ideia de ficar anotando tudo o que gasta. Existem diversas ferramentas prontas para auxiliá-lo, como sites, softwares, Smartphone ou planilhas de Excel, que podem gerar gráficos que mostram por onde o dinheiro está escapando. O que não dá é para ficar usando a memória na hora de levantar custos e planejar, pois isso leva rapidamente à perda de controle. “Uma ferramenta dessas é tão útil quanto consultar uma balança para checar seu peso todos os dias. Se as pessoas fizessem isso, evitariam engordar 20, 30 quilos para depois tomar uma atitude. A mesma coisa acontece com o dinheiro. O problema é que dizem que ‘é chato’. E pode ser mesmo, pois realmente as pessoas passam a se conhecer e, em muitos casos, a verdade dói”, afirma Antonio De Julio, especialista em finanças e desenvolvimento pessoal do Moneyfit (programa de evolução pessoal e financeira). Segundo ele, o descontrole da vida financeira acontece por quatro principais motivos: o gasto do salário por antecipação, sem contar com imprevistos; consertos ou problemas de saúde repentinos; financiamentos demais; imediatismo de quem cai no marketing do “essa parcela cabe no seu bolso”; e falta de controle de gastos. “Geralmente os endividados tentam culpar os outros dizendo que foram enganados pelos bancos, financiadores e prestadoras de serviços. Na verdade, a culpa é delas mesmas que não se preocuparam em entender a regra do jogo na hora de assinar um carnê ou fazer compras em uma loja.” Maurício Marchesini, exemplifica como três pessoas com perfis diferentes poderiam organizar seus gastos.
Para o engenheiro Rubens Gurevich, presidente do portal de e-coaching Your Life, além da boa vontade, é preciso que quem quer melhorar as finanças conte com uma ajudinha extra. “Poucas pessoas conseguem mudar sem o estímulo externo. Cerca de 20% agem pela automotivação e 80% agem pela coerção. Ou seja, precisam que alguém fique cobrando: ‘você disse que não ia gastar’, ‘você não ia anotar?’, ‘você pediu um feedback’”. O Your Life, desenvolvido em parceria com Gustavo Cerbasi, autor dos livros Casais Inteligentes Enriquecem Juntos e Investimentos Inteligentes, faz esse papel de cobrador e conselheiro para quem precisa de um puxão de orelha e de um empurrãozinho de vez em quando.
Sacando a carteira
Além de monitorar os gastos, que tal refletir sobre eles? Se o momento é de avaliar as despesas, considere pesquisar preços e aproveitar algumas boas sacadas para economizar no bolso. Um dos erros de quem se sente com a corda no pescoço é cortar o lazer, mas isso traz insatisfação e compromete sua qualidade de vida. O melhor é trocar de casa ou de carro, planejar viagens com antecedência para aproveitar os preços promocionais, garimpar descontos em passagens aéreas, comprar roupas no final das estações e frequentar o cineminha nos dias de semana.
Você já conhece os sites, ou players de mercado, como Peixe Urbano e Click On? Por meio deles é possível ter grandes descontos em bares, restaurantes, salões de beleza e outros serviços de lazer.
Mas não se esqueça do primeiro passo. Não importa qual é o seu caso, se está endividado ou se sente que poderia estar realizando mais sonhos: prepare-se para a batalha e, com bloquinho e lápis na mão, declare guerra ao descontrole no orçamento.
Na ponta do lápis
Procure mapear a total extensão de suas dívidas, não esquecendo as despesas variáveis (entram o custo com aquela garrafinha de água e as moedinhas que entrega ao malabarista). Com a situação mapeada, fica mais fácil visualizar as dívidas que cobram os juros mais altos, como por exemplo cartão de crédito e cheque especial. Veja se consegue começar a fazer um fundo de caixa para momentos de crise, como a perda de emprego, alguma situação de emergência com saúde ou até mesmo reparos emergenciais em casa ou no carro.
Cenário 1
João Gastão
Um chefe de família com bom salário, mas que gasta mais do que deveria. Casado, tem três filhos e é o único que trabalha na família.
Salário: R$ 10 mil líquidos
Despesas fixas de longo prazo:
Prestação da casa: R$ 2,4 (Comprou uma casa de 400 mil, deu 80 mil de entrada e financiou R$ 320 mil em 240 meses)
Prestação de carro 1: R$ 1.114 (Comprou um carro de 50 mil para esposa, deu 5 mil de entrada e financiou R$ 45 mil em 60 meses com taxa de 1,4% – pagou 8 parcelas)
Seguro do carro 1: R$ 1.860 ano (R$ 155 ao mês)
Prestação do carro 2: R$ 700 (Comprou um carro de 35 mil para uso, deu 20 mil de entrada e financiou R$ 15 mil em 36 meses com taxa de 1,3% – pagou 18 parcelas)
Seguro do carro 2: R$ 1.296 ano (R$ 108 ao mês)
Despesas fixas mensais:
Colégio filho 1 e 2: R$ 800 (R$ 400 cada)
Faculdade filho 3: R$ 1.150 (curso de Administração)
Empréstimo (crédito pessoal): R$ 1.066 (emprestou R$ 10 mil para pagar em 12 meses taxa de 4% a.m. – já pagou quatro parcelas)
Despesas variáveis mensais:
Casas (luz, água, telefone, gás e condomínio): R$ 1.050
Mercado: R$ 1,2 mil
Combustível: R$ 560
Outras despesas carro (lavar carro, troca de óleo…): R$ 150
Outras despesas estudos (livros, xerox, treinamentos…): R$ 200
Compra de roupas ao mês: R$ 400 (considerando uma média para toda família)
Compra de móveis ao mês: R$ 200 (considerando uma média para o ano)
Condução para os filhos: R$ 290 (passagem R$ 2,20 X 2 (ida e volta) X 22 dias úteis X três filhos)
Alimentação em família: R$ 350 (média de 20 por pessoas X 5 pessoas X quatro dias no mês)
Passeios (cinema, jogo de futebol…): R$ 500
Conclusão
Família que tem um bom padrão de vida, com salário de R$ 10 mil reais, porém com gasto de R$ 12.643. Todo mês o caixa fecha negativo em R$ 2.643, o que faz com que a família tenha necessidade de utilizar limite do cheque especial com taxa média de 9% a.m., ou financiar tudo que compra.
A solução seria rever os gastos e se enquadrar no padrão da receita mensal para não pagar juros para os bancos. João deve identificar os gastos supérfluos e, se possível, eliminá-los ou reduzi-los, renegociar o empréstimo de crédito pessoal com menor taxa e maior prazo, estabelecer algumas metas em família para redução das despesas mensais (luz, águas, telefone etc.) e buscar alternativas para poupar dinheiro.
Cenário 2
Pedro Hilário
Um jovem de classe média que está no primeiro ano da faculdade, acaba de comprar um carro mas não tem controle dos gastos.
Salário: R$ 2 mil líquidos
Despesas fixas de longo prazo:
Prestação do carro: R$ 267 (Comprou um carro de 14 mil, deu 4 mil de entrada e financiou R$ 10 mil em 60 meses com taxa de 1,7% a.m. – pagou três parcelas)
Seguro do carro: R$ 1,1 ano (110 ao mês)
Despesas fixas mensais:
Faculdade: paga 50% e seu pai 50%
Valor total mensalidade: R$ 950 – ele paga R$ 475
Despesas variáveis mensais:
Celular: R$ 200
Combustível: R$ 200
Outras despesas carro (lavar carro, troca de óleo…): R$ 150
Outras despesas estudos (livros, xerox, treinamentos…): R$ 200
Compra de roupas ao mês: R$ 200
Saídas (bares e restaurantes): R$ 250
Passeios (cinema, jogo de futebol…): R$ 200
Conclusão
Jovem que gasta 60% da sua renda com carro e com diversão, com salário de R$ 2 mil reais, porém com gasto de R$ 2.252. Todo mês o caixa fecha negativo em R$ 252 que faz utilizar limite do cheque especial (9% a.m.) ou crédito pessoal (4,5% a.m.) ou crédito rotativo do cartão de crédito (12% a.m.) para sanar suas dívidas.
Esse comportamento é típico no jovem, pois na maioria dos casos ele pensa no consumo imediato, e não em poupar com objetivo de acumular recursos para o futuro.
A solução seria rever os custos reduzindo drasticamente os gastos com lazer que representa 29% das despesas para se enquadrar no padrão da receita mensal e não pagar juros para os bancos.
Cenário 3
Vanessa na Mata
Uma executiva que já trabalhou em grandes empresas e tem vários investimentos, mas acaba de perder o emprego. Seu salário era de R$ 25 mil e ao longo de sua carreira conseguiu guardar R$ 300 mil. Salário: R$ 0,00 líquido
Despesas fixas de longo prazo:
Prestação da casa: R$ 1,7 (Comprou uma casa 250 mil deu 50 mil de entrada e financiou R$ 200 mil)
Prestação da carro: R$ 1.173 (Comprou um carro de 80 mil deu 30 mil de entrada e financiou R$ 50 mil em 60 meses com taxa de 1,2% a.m. – pagou dez parcelas)
Seguro do carro: R$ 2.880 ano (R$ 240 ao mês)
Despesas fixas mensais:
MBA: valor total mensalidade R$ 1,2
Despesas variáveis mensais:
Casas (luz, água, telefone, gás e condomínio): R$ 700
Mercado: R$ 500
Combustível: R$ 460
Outras despesas carro (lavar carro, troca de óleo…): R$ 250
Outras despesas estudos (livros, xerox, treinamentos…): R$ 500
Compra de roupas ao mês: R$ 600 (considerando uma média para toda família)
Compra de móveis ao mês: R$ 300 considerando uma média para o ano)
Alimentação (restaurantes): R$ 350
Passeios (cinema, bares…): R$ 500
Conclusão
Apesar de gastar bastante dinheiro no mês (R$ 6.773), seu salário anterior era muito acima dos gastos, com isso ela conseguiu poupar R$ 300 mil que está aplicado em um CDB pré-fixado, rendendo 0,85% a.m. o que equivale a um rendimento mensal líquido de imposto de renda de R$ 1.976,25.
Considerando que ela perdeu o emprego, terá que utilizar o valor investido para se manter. Com os R$ 300 mil que ela possui aplicados ela conseguiria manter o padrão de vida por quatro anos e três meses. O que traz tranquilidade para ela procurar um novo emprego.
Este cenário demonstra que a disciplina em poupar ao longo do tempo permitiu além da tranquilidade a manutenção do padrão de vida.
No computador
Usando o programa Excel, crie uma planilha com todos os meses do ano, inserindo na primeira coluna (verticalmente) a descrição dos itens que serão analisados e, nas colunas seguintes, os doze meses, deixando a última para um total anual para cada item. Comece registrando as receitas, ou o dinheiro que entra, e depois os gastos. Confira um modelo pronto no site do Viver Bem.
Fontes: Mais tempo mais dinheiro, de Gustavo Cerbasi e Christian Barbosa (Editora Thomas Nelson Brasil, R$ 20).
Money Fit: O Método para Criar Riqueza e Manter a Boa Forma Financeira, de André Massaro (Editora Matrix, R$ 27).
Serviço
Gustavo Cerbasi disponibiliza gratuitamente em seu site simuladores e planilha completa de orçamento familiar, site www.maisdinheiro.com.br/simuladores.
O Your Life é um e-coaching pago, mas que oferece o diagnóstico financeiro gratuitamente, site www.yourlife.com.br.
O Finance Desktop é um aplicativo gratuito para gerenciar as finanças, site www.financedesktop.com.br.
A Neotriad é uma ferramenta de planejamento de tempo e gerenciamento de metas (grátis por 30 dias) www.neotriad.com.