Observe as relações ao seu redor. Sejam elas parentais, de amizade ou de romance, há um elemento em comum: o beijo. Na literatura, no cinema e em outras formas de arte, há sempre um beijo entrepondo-se a uma história de amor. Ele é nossa forma de expressar sentimentos, emitir recados que não queremos verbalizar, dar a dose diária de carinho para um filho e até “calar a boca do outro” evitando uma briga.
Gustave Klimt retratou em 1907 a imagem onírica de um casal de beijando em um campo de flores
O beijo surgiu na Antigüidade. Há relatos na Bíblia que associam o ato a gestos de afetuosidade e perdão. Na Idade Média ele assume significado público e aparece em homenagens e ordenações.
“O beijo aparece de duas formas principais, como busca do prazer ou como expressão de respeito e cordialidade”, diz o sociólogo Lindomar Boneti, professor da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR). Da primeira forma, o beijo tem função no impulso amoroso, seja ela entre parceiros ou entre pessoas próximas. “O beijo é uma demonstração de carinho, é fundamental na relação pai e filho”, exemplifica.
Em 1905, Sigmund Freud tratou do beijo em um capítulo dos Três Ensaios de Teoria Sexual, no qual aborda as perversões. “Pensado de maneira psicanalítica, o beijo seria a única perversão socialmente aceita”, diz o psicanalista Claudio Rubin. Conforme a Psicanálise, explica Rubin, o beijo não é um ato natural. Na boca, ele tem de ser pensado como parte de prazer preliminar do ato sexual. “Ninguém beija por instinto. O beijo é uma questão cultural. Em algum momento ele apareceu na cultura e por isso tem tantas possibilidade de ser interpretado”, afirma. “Para cada um, o beijo significa uma coisa. Tem o beijo de Judas e da A Bela Adormecida. Com um beijo você mata e reanima”, diz o psicanalista.
Ainda pela ótica de Freud, o mesmo homem que beija uma mulher na boca, ficaria receoso se tivesse de usar a mesma escova de dentes dela. Mas o impulso amoroso se sobrepõe. “A questão é irônica pois a preocupação com a higiene termina quando começa a questão apaixonada do beijo”, observa Rubin.
A mímica do beijo pode até representar um ato político. “Nos anos 20 na França, o french kiss (beijo de língua) foi um dos elementos da liberação sexual”, aponta o sociólogo Lindomar Boneti.
Por causa da intimidade associada ao ato, em alguns lugares do mundo, o beijo em público é considerado falta de educação. O sociógolo lembra que o significado de um beijo pode mudar de país para país. “No Oriente os homens se beijam. No Brasil, há locais onde o cumprimento é feito com dois beijos no rosto, em outros três. No dia-a-dia utilitarista, um é o suficiente. No Nordeste, é literalmente um cheiro.”
Troca de bactérias
Além de ser uma expressão de afetividade, um beijo na boca também significa uma troca infinita de microorganismos entre os parceiros. A médica Karin Luhm, professora do Departamento de Saúde Comunitária da Universidade Federal do Paraná, lembra que há milhões deles vivendo em todo o trato respiratório: boca, faringe e garganta. Nem toda troca é maléfica para a saúde, mas se há alguma bactéria nociva na boca, ela pode ser transmitida pelo beijo, uma forma direta de contágio. As doenças mais comuns são resfriados, gripes, amigdalites, sarampo, rubéola, hepatites, diarréias, cárie e a mononucleose – conhecida como a doença do beijo. “Os sintomas são febre, dor de cabeça, calafrios, mal-estar e dor intensa na garganta”, diz.
É quase impossível resistir à vontade de encher uma criança de beijos, certo? Mas segundo Karin, beijos na boca de recém-nascidos estão vetados, pois os bebês têm um sistema imunológico imaturo, ainda não tiveram contato com as bactérias que habitam a boca dos adultos.
Em relação à aids, a médica diz que é praticamente impossível a transmissão, já que o vírus não é passado pela saliva.
Para quem tem mania de assepsia, uma informação de Gérald Cahen, organizador da coletânea O Beijo: um beijo profundo mobiliza 29 músculos (17 só na língua) e nesse momento trocam-se até 0,9 miligramas de água, 0,7 de albumina, 0,18 gramas de susbstâncias orgânicas, 0,71 miligramas de matérias gordurosas e 0,45 miligramas de sais.
Curiosidade
Segundo estudo da Universidade de Nova Iorque, o primeiro beijo de um casal pode determinar o sucesso da relação no futuro. No estudo, que analisou reações e percepções de 1.041 pessoas sobre o beijo, 59% dos homens e 66% das mulheres disseram já ter descoberto, após o primeiro beijo, não estarem mais interessados em alguém por quem se sentiam atraídos anteriormente. (DB)