Comportamento

Elas “puxaram” as mães

Bruna Covacci
09/05/2015 15:20
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Marille Vanin com a filha Ana: amor pela fotografia, troca de experiências e cumplicidade total. Fotos: Letícia Akemi/Gazeta do Povo
O psicanalista inglês Donald Woods Winnicott (1896-1971) escreveu que para uma mulher há sempre três: ela menina, sua mãe e a mãe de sua mãe. Tudo isso por conta das heranças genéticas e psicológicas (muitas subconscientes) que são passadas entre as gerações femininas. Numa relação de muitos sentimentos, que envolvem amor incondicional, amizade, carinho, afeto, compreensão e perdão, mães e filhas desenvolvem inúmeras semelhanças. Além da cumplicidade que, na medida certa, faz bem a ambas.
Essa identificação, explica Marusa Gonçalves, psicóloga e autora do livro Constelações Familiares com Bonecos, funciona como um espelho: “É da mãe que a menina recebe os valores, as regras e também as formas de agir e pensar”. Segundo a especialista, o contato entre mãe e filha é a principal relação da infância e cabe à figura materna o papel de moldar a interação social da menina (na realidade de todos os filhos) por meio do afeto e da presença. Tudo isso terá reflexos até a vida adulta. E não para por aí: a “missão” materna é tão importante, acrescenta Marusa, que, se a menina não recebe amor, carinho e atenção na infância, ela poderá ser insegura e não se desenvolver plenamente. “Sem a mãe por perto, casos de hiperatividade, ansiedade e transtornos psicológicos são mais comuns”, explica a especialista.
Sandra Sales Sousa, professora de Psicologia na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP) e especialista em terapia de família, acha importante que haja cumplicidade entre as mulheres da família e diz que uma possível semelhança no futuro ocorre devido à afinidade. Mas faz um alerta: é preciso respeitar a individualidade da filha e cuidar para não transferir para ela frustrações ou sonhos não realizados. “A mãe não tem que passar o bastão para a filha. Não estamos falando de uma história de continuidade. A semelhança é saudável, a cópia não”, adverte a psicóloga. Sandra explica que a filha não deve ter o peso de realizar os planos de vida que pertenciam à mãe. “O diálogo tem um papel imprescindível aqui. Sempre é necessário ouvir e valorizar a diferença”, orienta. Ela lembra ainda que, mesmo existindo muita cumplicidade, sempre podem ocorrer momentos difíceis.
Imagem e semelhança
Na família Reis, a sintonia e a semelhança entre as mulheres é tanta que faz lembrar as personagens do clássico Cem Anos de Solidão, romance do colombiano Gabriel García Márquez (1927-2014). Na obra, as gerações se sucedem, mas as histórias, os comportamentos e os nomes dos personagens se repetem ao ponto de não sabermos mais quem são as mães e quem são as filhas. Francesnei Souza Reis, 55 anos, foi mãe aos 24 das gêmeas Francesnei Reis e Francine Reis Franceschi. Ela conta que o nascimento das irmãs, hoje com 31 anos, foi uma realização de um sonho de criança. “Fiquei um tempo sem trabalhar. Quando elas fizeram dois anos voltei ao meu dia a dia, mas como era comerciante podia tê-las sempre por perto”, conta. Tanto contato e cumplicidade resultaram em uma relação intensa e amorosa: a união das mulheres da família foi tatuada na pele em forma de uma estrela, partilhada pelas três. Para se comunicar diariamente, elas têm um grupo de troca de mensagens pelo celular e, quando não se veem, conversam por telefone mais de uma vez ao dia.
Ao conhecer as três, a semelhança física salta aos olhos. Até o tom de voz é capaz de confundir. “Quando ligo na casa da minha mãe, se minha irmã atende nunca tenho certeza de quem está falando”, diz Francine. Opiniões sobre diferentes assuntos também costumam ser as mesmas – chegam a resistir a um teste feito separadamente com cada uma. No campo profissional, também se pode dizer que as meninas “puxaram a mãe”, empresária de carreira: hoje as filhas são proprietárias de uma loja de roupas e outra de acessórios. O apoio para superar desafios e dificuldades deixou a relação ainda mais forte. “Nós a incentivamos a dirigir e a voltar a estudar. Fizemos isso juntas”, conta Francesnei, mãe de Valentina, de 3 anos, e Betina, de três meses. Sua irmã gêmea, Francine, é mãe de Lorena, de 2 anos. Até o casamento de Francine trouxe nova coincidência familiar. Ela é casada com o empresário Eduardo Franceschi, cujo sobrenome começa com o mesmo radical do prenome familiar.
Sempre juntas
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A fotógrafa Marille Vanin, 56 anos, tem três filhos. Mas foi a caçula, Ana Vanin, 29 anos, quem ficou mais parecida com ela. Tanto que também estudou fotografia e se tornou sua sócia. Antes de Ana casar, há seis meses, mãe e filha passavam o dia todo juntas. Acordavam na mesma hora, dividiam a mesa do café, fotografavam e tratavam fotos e ainda jantavam. Haja sintonia! Hoje elas não acordam e nem dormem na mesma casa, mas continuam passando o dia uma ao lado da outra e costumam programar juntas as viagens de férias. “Somos iguais até nos defeitos. Vejo-me repetindo tudo aquilo que acho que é ruim na minha mãe”, brinca Ana.
A história com a fotografia foi natural. “Tentei estimular todos os meus filhos a aprenderem, mas só a Ana se interessou. Não precisei forçar nada”, lembra a mãe. Quando criança, Ana acompanhava as sessões de fotos e se encarregava do rebatedor, instrumento utilizado pelos fotógrafos para direcionar a luz. Marille ensinou os primeiros passos e, mais tarde, fez questão que a filha fosse estudar com outros mestres. Anos depois, a mãe já pensava em pendurar as chuteiras quando a filha propôs que trabalhassem juntas. As duas se tornaram sócias e lá se vão mais de 10 anos trabalhando lado a lado. “A gente se entende pelo olhar, nem precisa falar. Somos uma dupla em que uma completa a outra”, resume Marille. Ana acrescenta que, às vezes, quando está tratando uma imagem não tem certeza de quem foi o clique, pois o olhar, o gosto e o estilo das duas são semelhantes: “Vez ou outra nos pegamos fazendo os mesmos comentários na mesma hora”.
Ana destaca ainda que as referências que ela carrega da mãe não se limitam ao campo profissional. Ela explica que a mãe a inspirou a ser perfeccionista (como a fotografia exige) e a sempre lutar pelo que acredita. Além disso, o entusiamo, marca registrada de Marille, também está presente na personalidade da filha caçula.
Pura admiração
Desde menina, Anamaria Almeida, a Aninha, de 24 anos, define como “mágico” o trabalho da mãe, a maquiadora Neusa Almeida, 53 anos. “Ela transforma mulheres em princesas”, define. De tantas histórias que escutou e presenciou no dia a dia da mãe, uma em especial mexeu com ela: Neusa maquiou uma adolescente de 15 anos que tinha parte do rosto marcado por um câncer. “Minha mãe conseguiu disfarçar o problema e deixou a jovem radiante e feliz”, conta Aninha. A filha reconheceu a humanidade por trás do trabalho da mãe e decidiu que queria seguir os mesmos passos dela. Assim, deixou a formação de publicitária de lado para se dedicar à maquiagem. “A nossa semelhança é resultado da admiração. Minha filha viu todo o meu caminho, é minha amiga, esteve sempre perto, e eu fico feliz com a nossa relação”, completa Neusa.
Embora tenham a mesma profissão, as duas não trabalham juntas e nem têm o mesmo estilo profissional. Enquanto Neusa segue uma linha mais clássica, Aninha aposta no moderno. Fora do estúdio, a filha é a mãe “cuspida e escarrada”, como se diz por aí. As semelhanças são inúmeras. “Não dá nem para contar nos dedos”, brinca Aninha. As duas usam o mesmo número de blusa e sapato e não têm problema em compartilhar as peças. “É muito normal você ver a Neusa vestida de Aninha ou a Aninha com uma blusa da Neusa”, brinca a mãe. A escolinha de Ana Beatriz, filha de Aninha, de 3 anos, fica a uma quadra da casa da avó. “Quando minha filha não está comigo, ela está com a minha mãe. Pensamos da mesma forma em relação à sua criação. Quero dar para a minha filha uma mãe como a que eu tive”, arremata Aninha.
Criando meninos
Quando os filhos são homens a relação é diferente, a começar pela questão do sexo. De acordo com as psicólogas, o menino precisa sair da esfera da mãe e se identificar com o masculino, o que acontece por volta dos 7 anos. A menina permanece na esfera da mãe e por isso cria uma relação maior de identidade.