Comportamento

Declare a sua independência!

Eloá Cruz, especial para a Gazeta do Povo
07/09/2014 03:04
Foi num sábado, 7 de setembro de 1822, que Dom Pedro I desembainhou a espada às margens do Rio Ipiranga, em São Paulo, e deu o famoso grito que livrou o Brasil do domínio de Portugal. Alguns historiadores apontam que a instauração do império no país não foi tão simples assim, mas esse simbolismo continua inspirando muitas pessoas a conquistar sua própria independência, seja ela profissional, financeira ou afetiva. Para a psicóloga Tatiana Centurion, o processo de mudança, o grito de independência, acontece quando o sofrimento deixa de ser suportável. “Às vezes demoramos muito para tomar determinadas decisões porque entramos numa zona de conforto do conhecido”, alerta.
Outras vezes essa libertação é desencadeada quase que por milagre, numa incrível reviravolta do destino. Foi o caso do modelo Rafael Nunes, 32 anos, ex-dependente químico e ex-morador de rua em Curitiba, conhecido no país inteiro como “mendigo gato” graças a uma fada madrinha – a fotógrafa gaúcha Indy Zanardo, que cruzou o seu caminho em 13 de outubro de 2012: em visita à capital paranaense, ela fazia fotos na região da Catedral Basílica, quando Rafael – viciado em crack e vivendo nas ruas havia um ano – a abordou e pediu para ela fazer um retrato seu “para colocar ‘na rádio’”, pois quem sabe ele “ficasse famoso”.
Não deu outra: Indy publicou a foto de Rafael – que chamava a atenção pela beleza – em sua página no Facebook, acreditando que o rapaz seria famoso pelo menos entre os seus amigos. Em poucas semanas, porém, a imagem havia sido compartilhada mais de 60 mil vezes, começou a sair na imprensa e chegou ao conhecimento da família, moradora de Colombo, na região metropolitana. A história viralizou e despertou o interesse de uma clínica de reabilitação em Araçoiaba da Serra, no interior paulista, onde ele permaneceu em tratamento por quase dez meses.
Desde que saiu da clínica, em agosto do ano passado, Rafael retomou a carreira de modelo, voltou a estudar, começou a namorar a jornalista carioca Clarissa Couto, de 28 anos, foi morar com ela em Niterói (RJ) e acaba de ter um filho. “Eu não imaginava que tudo isso fosse acontecer tão rápido. Esposa, filho… estou bastante feliz!”, comemora. Para ele, independência é “poder viver uma vida real, com sabor e emoções verdadeiras”.
Determinado a progredir dia após dia, Rafael tem cautela em tudo que faz: “Eu procuro não ter uma rotina cansativa, para não procurar fuga em algum tipo de vício. Eu tenho concentração, sei das minhas regras, conheço meu corpo”, enumera. Entre os planos para o futuro, Rafael planeja cursar Políticas Sociais. “Por ter morado nas ruas, tenho muitas ideias de políticas públicas que pretendo aperfeiçoar. Quem sabe posso trabalhar no governo”, avisa.
Virada na carreira
A rotina de um emprego convencional, com horários pré-definidos, tarefas burocráticas e processos engessados, desgastava pouco a pouco o publicitário Felipe Belão, de 31 anos. Dotado de rara sensibilidade e criatividade transbordante, Belão não conseguia se adaptar ao mercado corporativo. Trabalhou nesse setor por alguns anos, logo depois de formado, em busca de experiência e estabilidade financeira. Então, para melhor expor suas ideias, resolveu criar sua própria empresa de comunicação com alguns amigos. Porém, mesmo com mais liberdade de criação, o publicitário ainda não se sentia realizado profissionalmente.
Quase dois anos e meio depois, ele e seus amigos decidiram fechar a empresa. Belão chegou à conclusão de que sua verdadeira paixão estava em dar aulas e dedicar mais tempo ao seu lado escritor. E mergulhou de cabeça – ou quase: “Eu me planejei psicológica, profissional e financeiramente por dois anos, para que tudo desse certo”, reforça.
Durante o período de transição, Belão tinha uma rotina exaustiva: trabalhava numa agência, administrava a própria empresa, dava aulas na universidade e reservava ainda algumas horas para a escrita. “Eu chegava a trabalhar de 14 a 15 horas por dia, fora as madrugadas que separava para escrever meus textos”, revela. Mas parece que o esforço valeu a pena. Com três livros publicados – Vitrine dos Sonhos (2010), Monólogos de Menino (2012) e No Lugar do Meu Pai, Eu (2014) –, o publicitário hoje se sente realizado. Monólogos de Menino, inclusive, foi indicado ao Prêmio Jabuti no ano passado.
Ele trabalha atualmente em uma nova obra e demonstra entusiasmo com seu futuro na literatura. Textos de teatro, curtas-metragens e parcerias musicais estão entre os principais projetos do escritor.
Hora de dizer adeus
Eles se conheceram na faculdade de artes. Tinham os mesmos gostos para música, gostavam dos mesmos programas, saíam sempre juntos e conversavam todos os dias. Dos 24 aos 27 anos, a estudante Juliana França* namorava um rapaz carinhoso e atencioso, que aos poucos foi se revelando ciumento, inseguro e possessivo. No início, os dois iam sempre juntos para as festas e eventos da faculdade. “Eu saía bastante antes do namoro, era bem festeira. Ele não era tanto quanto eu, mas participava de tudo”, lembra.
Com o passar do tempo, o rapaz começou a restringir a vida social de Juliana. E o comportamento, muitas vezes machista, foi deixando a estudante sufocada e sem perspectivas. Enquanto havia sentimento, ela alimentava a esperança de que o comportamento dele pudesse mudar com o tempo. “Toda vez que brigávamos, ele prometia que iria mudar de atitude, mas tudo voltava como antes”, conta.
Depois de incontáveis discussões, Juliana decidiu romper o relacionamento definitivamente, em busca de independência. Mas o processo não foi fácil: “Eu senti uma diferença bem grande, sentia falta de alguém para conversar”, admite. Alguns meses depois, entretanto, ela percebeu que havia feito a escolha certa: “Fiz novos planos, comecei um curso na área da moda… agora posso usar o que eu quiser e falar com quem eu quiser”, comemora.
Voo solo
O desejo de ter o próprio espaço, liberdade para sair e voltar quando quisesse, escolher a decoração e até ouvir suas músicas preferidas à vontade atraía o fotógrafo Yuri Maranhão, de 27 anos. Ele, que saiu da casa do pai aos 21 anos, sempre foi autônomo e tinha certo receio de não conseguir se sustentar sozinho. “Eu não sabia se teria grana todo mês. Isso me dava um pouco de medo, mas não impediu que eu tomasse a minha decisão”, ressalta.
Yuri deu seu grito de independência depois de uma conversa com sua madrinha: “Ela ofereceu a casa dela para eu morar temporariamente. Em troca, eu pagaria todas as despesas, como água, luz e segurança”. Para não magoar o pai, a mudança para a casa da madrinha foi feita aos poucos: “Eu levava cada semana um pouco das minhas coisas para lá”, lembra.
Depois de seis anos, Yuri se diz satisfeito e realizado em morar sozinho. A reboque das responsabilidades de cuidar da casa, da roupa, da própria alimentação e das contas, vieram mais dedicação e amadurecimento na profissão: “Eu tive que me esforçar mais, trabalhar mais, evoluir na carreira para conseguir me sustentar”.