Comportamento
Ao publicar, portanto, entrou o fator pressa. Isso porque ele queria ver Brasília Egípcia nas livrarias antes de 2010, ano do cinquentenário da capital e dos cem anos do nascimento de Tancredo Neves, personagem central do livro. “Quando entrei em contato com algumas editoras, descobri que o tempo de análise de um original até sua publicação seria de um ano, ou mais. Se eu fosse por este caminho, acabaria lançando bem depois do pretendido”, diz. A saída foi imprimir Brasília Egípcia de forma independente e garantir o lançamento dentro do prazo.
Esta é uma opção cada vez mais comum entre os escritores iniciantes, que encontram dificuldade em entrar no catálogo de uma grande editora. “Hoje, graças ao desenvolvimento tecnológico, que tornou mais fácil a impressão de livros, está desaparecendo a figura tradicional das editoras, assim como aquele comportamento de esperar ser descoberto por elas para ter seu livro publicado”, afirma Antônia Schwinden, que há quase 20 anos se dedica à publicação de obras independentes, acadêmicas ou literárias.
Formada em Letras e pós-graduada em Semiótica pela UFPR, ela começou na revisão de textos e hoje é responsável pela coordenação editorial de cerca de 15 livros por ano. “O autor que tem uma história pronta para publicar me procura. Eu faço a leitura dos originais, imagino o formato mais adequado para seu livro, verifico quanto ele pode gastar e inicio um planejamento editorial”, detalha. Seu trabalho, aliado ao de designers gráficos, ilustradores e outros parceiros, tem como resultado as chamadas edições do autor, obras preparadas de forma independente, sem passar por um selo editorial, em que o escritor arca com todos os custos de produção e tem mais liberdade para escolher o que quer.
De acordo com José Eduardo Güttler, diretor do Clube Brasileiro dos Escritores e Poetas Independentes (CBE), as edições do autor sempre estiveram presentes no mercado editorial. “Escritores hoje consagrados só conseguiram iniciar suas carreiras na literatura publicando de forma independente. Alguma Poesia, a estreia de Carlos Drummond de Andrade, teve uma primeira impressão de 500 exemplares que ele mesmo custeou”, exemplifica. Manuel Bandeira, Monteiro Lobato, Helena Kolody e até mesmo cânones universais, como Alexandre Dumas e Allan Poe, também recorreram à autopublicação. Segundo Güttler, a maior vantagem desse procedimento é a autonomia, porque o autor não dependerá de terceiros para a tomada de decisões sobre a publicação. As dificuldades estão no fato de o escritor arcar com todos os custos e ainda executar uma série de tarefas que, além de consumirem muito tempo, exigirão conhecimentos especializados, mesmo que as etapas sejam realizadas por profissionais da área.
Um presente
Entre os cliente de Antônia Schwinden estão desde escritores muito jovens, interessados em iniciar uma carreira literária, até pessoas sem nenhuma pretensão, que escrevem apenas para compartilhar uma história entre amigos e familiares. “A edição do autor pode ser um primeiro passo de se colocar no mundo editorial, dizendo: ‘eu também escrevo’. Mas ela também pode ser um jeito de o autor presentear a si mesmo. Ao invés de viajar ou comprar algo, ele escolhe publicar um livro”, afirma Antônia.
O médico e escritor Marco Teixeira também pensa assim. “Todo mundo quer ter um carro, que custa muito mais do que publicar um livro. Eu gastei dinheiro realizando um sonho, e fico satisfeito ao ver que meus filhos estão adorando a leitura do meu livro.” Marco se refere à sua obra de estreia, Morrendo de Saudades – Cartas de um Pai Separado, que ele editou do próprio bolso no final de 2009. Quando se divorciou, em 2001, a primeira coisa que sentiu foi uma tremenda falta dos filhos. “Era estranho, porque eu os via todos os dias, e de repente passei a vê-los apenas duas vezes por semana, em momentos geralmente de diversão. Eu queria acompanhar seus estudos, suas dificuldades, não só o lado divertido.” Foi quando surgiu a ideia de escrever cartas para os meninos lerem no futuro, como uma tentativa de encurtar essa distância. “Quando eu vi, tinha 25 cartas escritas. Algumas pessoas leram e acharam muito boas, então eu decidi publicar.”
Antes de tentar o caminho independente, ele enviou os originais para algumas editoras nacionais, mas conta que foi recusado. “É trabalhoso mandar seu livro às editoras, porque cada uma pede que você envie em um formato. Eu fiz isso por um tempo mas depois acabei desistindo, nem pensava mais em publicar.” Ele só mudou de ideia depois de conhecer a editora Íthala, de Curitiba, onde fez um orçamento, viu que estava dentro de suas condições e decidiu encarar sua primeira tiragem de mil exemplares. “Fiquei surpreso, porque eu nem sabia que existiam editoras intermediárias, pensava que as únicas formas de se editar um livro seriam por um grande selo ou direto em gráficas, que nem sempre têm este know-how”, confessa o médico.
Intimista e personalizado
Ernest Hemingway costumava dizer que escritor é aquele que termina um livro. Elisabete Tassi Teixeira, psicóloga e autora de dez obras, começou a se sentir assim não quando terminou de escrever seu primeiro livro, mas depois de publicá-lo. “O artista depende da sua relação com o outro, sem a qual ele está encapsulado. Definir-se escritora sem ter publicado um livro seria o mesmo que eu afirmar ser psicóloga sem ter nenhum paciente”, compara.
Aos 12 anos, Elisabete já escrevia contos, mas ao entrar na universidade a paixão pela escrita se manteve adormecida, dando lugar à vivência acadêmica. Pouco antes de completar 40 anos, quando já tinha dado conta das “coisas práticas da vida” – casamento, filhos, trabalho –, voltou a se dedicar à literatura e reencontrou a mesma energia para a escrita dos tempos da juventude.
Entretanto, mesmo depois de colocar no mundo tantas obras, Elisabete continua fiel à edição do autor por opção. Seu primeiro livro, Hotel Tassi – o antigo Hotel da Estação, foi lançado pela Fundação Cultural de Curitiba em uma edição bastante cuidadosa, com direito a ilustrações de Poty Lazzarotto, e ela poderia ter investido na publicação da obra seguinte por uma grande editora se não tivesse colocado as mãos em um volume de Emily Dickinson impresso artesanalmente por um selo desconhecido, o Noa Noa. “Eu queria fazer um livro assim, mais intimista e personalizado. A Antonia Schwinden estava revisando A Mulher do Armário, meu primeiro livro de contos, e conheci o seu trabalho. Ela é de um preciosismo incrível, capaz de extrair do próprio autor qual será o cara do seu livro”, conta, impressionada. Para Elisabete, que este ano lançou a novela Coroa em Branco e Preto, a edição do autor é uma maneira de se posicionar na contramão do excesso de massificação, daqueles fenômenos que atingem um grande público e desaparecem rapidamente. “É um exercício de liberdade. Ser lançado por uma editora de renome exige um investimento significativo neste caminho, e isso pode acabar ficando maior do que a própria necessidade de contar histórias”, conclui.
Calcanhar de aquiles
Um dos pontos frágeis da autopublicação está na distribuição e comercialização dos livros, que muitas vezes acabam empilhados em um canto de casa. Marco Teixeira conta que poderia ter assinado um contrato de distribuição com a editora Íthala, mas assumir a tarefa sozinho seria uma forma de aprender e ganhar experiência nesta etapa. Antônia Schwinden admite que esta é a grande dificuldade dos autores independentes – além da divulgação – e, apesar de seu trabalho como coordenadora editorial terminar quando o livro sai quentinho da gráfica, ela costuma conversar sobre a distribuição com seus clientes e indicar a eles quais são os pontos de vendas mais adequados. “Esta etapa também pode ser bem sucedida, dependendo do dinamismo do autor”, opina.
João Avelar Lobato, especialista em Escrita Criativa e idealizador do curso Publique seu Livro, defende que um autor independente pode ter mais vantagens na venda do que se fizesse parte do catálogo de uma editora. “Se o autor conhecer bem os passos para publicar um livro, ele pode ter mais lucro trabalhando de forma independente, pois a comissão passada pelas editoras é muito baixa, entre 4% e 10% do preço de capa.”
Carlos Boaretto é um bom exemplo. Pesquisando preços, ele descobriu que poderia imprimir seu livro de quase 600 páginas por R$ 7,50 a unidade. “Consegui isso porque fui direto na gráfica que produz os livros de bolso da editora L&PM, em Porto Alegre. Então, resolvi fazer uma tiragem maior e ter lucro, mesmo a longo prazo, a imprimir apenas 250 livros para vender a curto prazo e ter prejuízo”, revela o autor, prudente.
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Serviço
Brasília Egípcia, de Carlos Boaretto, à venda nas Livrarias Curitiba, Porto e Catarinense, Fnac Curitiba e Livraria Cultura, ou no site www.carlosboaretto.com.br
Morrendo de Saudades, de Marco Teixeira, à venda na Saraiva, Livrarias Curitiba e no site www.ithala.com.br.
Coroa em Branco e Preto, de Elisabete Tassi Teixeira, www.coroaembrancoepreto.com.br
Clube Brasileiro dos Escritores e Poetas Independentes, www.clubedosescritores.com.br
João Avelar Lobato, www.jalobato.blogspot.com
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