Quais são as diferenças entre os gêneros na maneira e nas motivações da infidelidade?
Eles justificam suas traições por uma suposta essência masculina. Já as mulheres infiéis dizem que seus parceiros, com suas faltas e infidelidades, são os verdadeiros responsáveis por suas relações extraconjugais. Ou seja, no discurso dos pesquisados, a culpa da traição é sempre do homem: seja por sua natureza incontrolável, seja por seus inúmeros defeitos (e faltas) no relacionamento.
Em seu livro você cita que o adultério masculino no Brasil tem a ver com questões demográficas. Em que sentido?
Analisando os dados do censo, a demógrafa Elza Berquó constatou o aumento de separações, uniões consensuais, mães solteiras e celibatários. Segundo ela, a população brasileira está envelhecendo e a composição da faixa mais idosa é majoritariamente de mulheres, que acabam se tornando solitárias. A frase “falta homem no mercado” é uma realidade demográfica cruel e, nesse sentido, ser amante de um homem casado é uma solução considerada bastante satisfatória, tendo em vista as outras alternativas que se apresentam para as mais velhas (solidão, marido traidor ou um casamento insatisfatório). Pelo censo, percebe-se que as opções afetivo-sexuais das mulheres brasileiras no mercado matrimonial são muito piores que as dos homens, que aumentam suas chances quando envelhecem.
Você afirma que, mesmo para as amantes, a ideia de fidelidade é essencial para um relacionamento. A mulher valoriza mais a monogamia do que o homem?
Sim. A crença na fidelidade do parceiro é um valor tão fundamental que, sem ela, a relação não sobreviveria. Elas acreditam que são únicas, especialmente no domínio sexual. Na hierarquia de valores das pesquisadas, a melhor posição é a da esposa (com um marido fiel), seguida da “outra” (com um amante fiel), da mulher que está só e, por fim, da mulher casada com um marido infiel. Esta última seria a posição mais humilhante e insatisfatória. Ou seja, elas preferem ser as “outras” a serem sós, mas preferem ser sós do que mal acompanhadas – neste caso, com um parceiro infiel. Portanto, a figura do homem não é incondicionalmente soberana. Apesar do marido e do amante serem verdadeiros capitais para as pesquisadas, eles perdem completamente o valor quando são infiéis.
O que mudou nas relações de infidelidade entre homens e mulheres no Brasil, nestes 20 anos em que você pesquisa o tema?
A fidelidade se tornou um valor ainda mais fundamental para os casais contemporâneos. Sua idealização permanece fortíssima, inclusive nas relações extraconjugais. As “outras” creem que seus parceiros não têm relações sexuais com as esposas. Os homens casados acreditam que as amantes lhes são fiéis sexualmente. Não só no casamento, mas também no adultério, a fidelidade é um valor, o que é um paradoxo. A fidelidade pode ser vista como uma ilusão. Mesmo sabendo que é muito provável que o parceiro seja ou tenha sido infiel, deseja-se acreditar que ele é fiel. Os pesquisados parecem querer a ilusão da fidelidade muito mais do que a própria fidelidade.
Agradecimentos:
Modelos: Amanda Ribas e Felipe Resende, da L’Agence, fone (41) 3338-9999.
Hotel Deville Rayon – fone (41) 2108-1100.
Colunistas
Agenda
Animal


